Como ser um CEO sem experiência

Search funds encarregam jovens executivos da tarefa de encontrar, adquirir e liderar empresas promissoras

Captação de recursos/Reportagem / 15 de novembro de 2019
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Ilustração: Rodrigo Auada

Não só de zuckerbergs é feito o universo de jovens talentosos que almejam alcançar altos postos sem precisar acumular longos anos de estrada, como era comum entre seus antecessores no mundo corporativo. E nem apenas sobre startups se sustenta o modelo de alocação de recursos de investidores que querem ter bons retornos com empresas de médio e pequeno portes. Para aliar essas duas demandas surgiram os chamados search funds, já antigos nos mercados da América do Norte e que agora começam a despontar no Brasil. Basicamente, o modelo junta, sob um fundo, recursos de investidores que “contratam” jovens promessas da administração para uma tarefa: encontrar empresas menores – mas já bem estabelecidas e com boas perspectivas de crescimento – para uma aquisição. Em contrapartida, os searchers (como são chamados os jovens executivos que “provocam” os investidores a aportar recursos na empreitada) ganham a cadeira de CEO e têm a oportunidade de remodelar a empresa comprada, implantando, por exemplo, boas práticas de governança corporativa.

A dinâmica dos search funds envolve quatro etapas: captação de recursos, procura e compra da empresa, operação propriamente dita e crescimento do negócio e, por fim, desinvestimento. Assim que a aquisição é concluída, o searcher vira o CEO e, se ele fizer um bom trabalho, a empresa terá crescido e o investidor do fundo ganhará um bom retorno com a venda. O modelo foi criado em 1984 na Harvard Business School, nos Estados Unidos, mas os search funds só começaram a amadurecer na década seguinte, com o impulso de alunos e mestres da também americana Stanford Graduate School of Business — referência atual para esse tipo de veículo de investimento.

Quem dá o primeiro passo para a criação do fundo é o searcher, o aspirante a CEO. Um extenso estudo de 2018 da própria Stanford, conduzido nos Estados Unidos e no Canadá, traçou o perfil desses profissionais: majoritariamente homens (93%), na casa dos 30 anos (39%) e recém-saídos de cursos conceituados de MBA (44%). Mais da metade entra na empreitada sozinho; os demais escolhem formar uma dupla. Na sequência, adotam como meta encontrar investidores dispostos a apostar em seus talentos ainda incipientes. A rede de busca pode abarcar familiares, amigos, investidores institucionais, contatos do mundo corporativo e da academia — não é coincidência o fato de que muitos searchers tenham se formado justamente em Stanford.

Ilustração: Rodrigo Auada

Barreira de entrada

O principal desafio do modelo está na etapa da busca. Muitas iniciativas, por mais bem montadas que sejam, morrem logo por não encontrarem empresas com as características e circunstâncias adequadas ao investimento. Essa situação acomete um terço dos search funds nos Estados Unidos e no Canadá e 13% dos demais fundos dessa categoria no mundo, de acordo com estudo da espanhola Iese Business School. E a tarefa não é mesmo muito simples, já que normalmente só interessam aos searchers negócios com bom potencial de crescimento e que já contem com margens de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) significativas — no mínimo 20%. Em contrapartida, não há restrição em relação a setores, embora tecnologia seja o segmento escolhido por um terço dos searchers americanos e canadenses, predileção que se mantém há sete anos. Também atraem os executivos as áreas de serviços em geral, varejo e saúde — este, por sinal, está no topo das preferências globais dos searchers fora da América do Norte.

Na avaliação da professora do Insper Andrea Minardi, especialista em private equity, é preciso que se considere, ainda, a complexidade do negócio escolhido — quanto menos intrincada a operação, melhor. “Como os searchers geralmente não têm experiência, o ideal é que selecionem empresas com estrutura mais simples”, recomenda. A falta de vivência, no entanto, pode ser suprida em parte por uma participação mais ativa dos investidores, que muitas vezes atuam simultaneamente como mentores do negócio. “É comum que quem financie o fundo também participe  do conselho das empresas adquiridas. É um diferencial inédito, já que empresas de menor porte não costumam implementar mecanismos de governança como um conselho de administração”, explica.

A aquisição pode marcar a transição da empresa escolhida em direção a uma gestão mais profissional, o que é particularmente relevante em negócios familiares. Empresas fundadas e geridas por famílias, por sinal, são um campo fértil para os search funds, já que não raro são acometidas por crises de sucessão (que normalmente envolvem comandantes com ideias e comportamentos envelhecidos, relutância ou incapacidade técnica de herdeiros e dificuldades na busca por compradores ou sócios). No Brasil, a janela de oportunidade nesse aspecto é larga: 72,4% das empresas familiares não têm plano de sucessão para cargos-chave, segundo levantamento de 2019 feito pela PwC em parceria com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).


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Expectativas em alta

Apesar de ter demorado a chegar, o modelo de search fund já estreou no Brasil faz algum tempo. O primeiro search fund nacional a concluir a etapa de aquisição é a Taqia Capital, com a compra da IS Entrega, uma empresa de logística sediada no bairro da Casa Verde, na zona norte da capital paulista. Planejado por uma dupla de empreendedores — um deles com MBA em Stanford —, o fundo seguiu a fórmula de sucesso já implementada no exterior: aquisição de uma empresa média, com receita recorrente, em crescimento, e integrante de um segmento que também está se expandindo. “Quando começamos o fundo, em 2015, não existiam search funds no Brasil, mas havia muitas oportunidades. Nossa atuação deu trabalho, pois foi necessário apresentar o modelo às pessoas, principalmente durante as negociações com donos de empresas”, afirma Tammara Berezovzky, analista de investimentos da Taqia Capital e hoje responsável pela área de planejamento estratégico da IS Entrega. No Brasil também já atuam com search funds nomes como 220 Capital, Kinase e Paraty Capital.

Mesmo entre investidores experimentados havia certo receio em relação ao modelo “made in Stanford”. Sócio da Spectra Investimentos, gestora especializada em private equity, Rafael Bassani conta que preferiu não participar dos primeiros search funds porque ainda não tinha clareza sobre o que modelo oferecia. Mas as preocupações se dissiparam e hoje a Spectra espera fazer 15 novos investimentos em search funds nos próximos três anos, no Brasil e em outros países da América Latina. “Esse tipo de fundo abocanha uma fatia de negócios para os quais o private equity não está olhando. São companhias que têm de 1 a 10 milhões de reais de Ebitda, com boas margens, ótimo desempenho, mas que mesmo assim ninguém estava disposto a comprar”, comenta.

Cabe ressaltar que, assim como acontece com qualquer outro tipo de organização corporativa, independentemente do porte, as empresas adquiridas pelos search funds não estão imunes a dificuldades. Mesmo tendo boas perspectivas e contando com gestão profissional, quase um terço das empresas compradas estão com prejuízo no momento do desinvestimento, segundo levantamento de 2018 da Stanford Graduate School of Business, conduzido entre fundos dos Estados Unidos e Canadá. Para os investidores, uma solução prática para não sair perdendo é alocar recursos numa carteira de search funds — a diversificação minimiza os transtornos de um possível revés no mercado ou de má gestão. No Brasil, por enquanto, essa estratégia de montagem de carteira não é viável, já que ainda são escassos os fundos disponíveis.

Num longo prazo, a julgar por resultados das quatro últimas décadas, assumir o alto risco de investir num search fund pode compensar. O estudo da Stanford Graduate School of Business mostra que a média anual de retorno de 325 search funds iniciados nos anos 1980 nos Estados Unidos e no Canadá foi de 33,7%. De acordo com o trabalho, os search funds da amostra geraram 5,7 bilhões de dólares em patrimônio no período, com os investidores ganhando quase sete vezes seu capital original.

O search fund é um modelo historicamente concentrado no mercado americano, mas aparece também fora do eixo EUA-Canadá. Considerando dados até 2017, a Iese Business School mapeou 83 fundos do tipo no mundo — 40 deles na América Latina, sendo oito no Brasil. Embora por ora não tenha sido registrado no País um desinvestimento — evento que mostraria, na prática, o resultado concreto da experiência por aqui —, os search funds já podem se acomodar na lista de investimentos de maior risco (e potencial retorno), agora engordada pelo fim da festa da renda fixa no Brasil.


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