Ascensão de pessoas físicas na Bolsa é duradoura?

Apoiada pela alta do Ibovespa, B3 registra nível inédito de 1 milhão de investidores

Bolsas e conjuntura/Reportagem / 10 de maio de 2019
Por  e


Ilustração: Rodrigo Auada

Ainda falta um tempo para o fim do primeiro semestre, mas 2019 já assegurou seu lugar na história centenária da principal bolsa de valores brasileira, ancorado sobre dois números emblemáticos. Em 18 de março, o Ibovespa, índice criado em 1968, superou pela primeira vez a marca de 100 mil pontos — logo perdeu o suporte, mas o patamar ainda assim vale como símbolo da pujança do mercado. O segundo recorde é tão relevante quanto: em abril, a B3 registrou 1 milhão de pessoas físicas investidoras, nível inédito. Para se ter uma referência da magnitude desse dado, o aumento em relação ao fim de 2017 é de 60%. Voltando um pouco no tempo, o avanço é de expressivos 1.000% sobre 2002.

Não se questiona a importância de os pequenos investidores terem acesso ao mercado de capitais — é assim nas maiores economias do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, 52% das famílias investem em ações, segundo dados de 2016 do Federal Reserve, o banco central do país. Já no Brasil, a proporção da população que aplica seus recursos em ações é de apenas 0,5%, já considerando o recorde que ora se festeja. Mas a intensificação da chegada de pessoas físicas à renda variável no Brasil suscita algumas questões. Estaria o brasileiro preparado, em termos de educação financeira, para encarar perdas, ganhos e problemas societários inerentes ao mercado de ações?

Uma pesquisa divulgada pela B3 no último dia 9 de maio mostra que 55% dos entrevistados — ao todo, foram ouvidas 1.096 pessoas de todas as regiões do País, com idade entre 18 e 65 anos — consideram conhecer o mercado acionário. O dado é animador, mas há um porém: embora a maioria conheça esse ativo, apenas 7% investem em ações. Isso se deve, muito provavelmente, à percepção, também constatada pelo estudo, de que o investimento em ações é voltado para quem tem muito dinheiro e estômago para suportar a volatilidade e oscilações do mercado. Essas duas características, segundo a B3, podem contribuir para que as ações não sejam vistas como aplicações de longo prazo. Ou seja, parece que o brasileiro ainda tem muito o que aprender sobre esse ativo.

Mergulho da Selic

Apesar dessa realidade, uma combinação de fatores ajuda a explicar a escalada dos últimos anos que culminou com o milhão de CPFs registrados na B3. Em primeiro lugar está a curva descendente da taxa básica de juros (Selic), que fez minguar o outrora vigoroso e muitas vezes confortável retorno da renda fixa. Mesmo os pequenos investidores notaram que, se quisessem obter ganhos mais polpudos, precisariam correr mais riscos — o que torna a compra de ações na bolsa uma possibilidade atraente. Afinal, uma coisa é ter carteira com ativos que pagam juros de 14,25% ao ano (patamar da Selic no segundo semestre de 2016), outra coisa é depender de uma taxa anual de 6,5%, nível da Selic desde maio do ano passado.

Acesso ampliado a investimentos é outra variável dessa equação. O aumento da presença das pessoas físicas na bolsa coincide com a explosão das plataformas de investimento e com a disseminação dos agentes autônomos e planejadores financeiros. Completa o quadro a profusão de cursos, presenciais e a distância, canais no YouTube e perfis de educação financeira nas redes sociais. Conforme a pesquisa da B3, 30% dos investidores procuram informações sobre aplicações financeiras nas redes sociais, sendo que 23% afirmam confiar nas recomendações de youtubers e canais de investimento online.

O interesse por informação sobre os mercados financeiro e de capitais também parece ter sido impulsionado pela percepção geral de que a previdência pública não dará conta de todas as aposentadorias no futuro. Os pequenos investidores, nesse contexto, buscam aplicações mais eficientes em termos de retorno de longo prazo — e nesse quesito a bolsa tradicionalmente bate os retornos da renda fixa.

Alta inédita

A intensificação da chegada de novos investidores ocorreu a partir do início deste ano. Entusiasmados com a agenda econômica do governo Jair Bolsonaro, os investidores esperavam que Paulo Guedes, ministro da Economia, conseguisse endereçar com agilidade as principais questões fiscais do País — o que acabou não se concretizando. Ainda assim, de março para abril, 63 mil novos CPFs foram registrados na B3. Nos dois primeiros meses de 2019, o crescimento foi de 106.112 pessoas físicas. “De janeiro para fevereiro o aumento foi de 9%, uma alta que nunca havia sido verificada”, comenta Felipe Paiva, diretor de relacionamento Brasil da B3.

O detalhamento dos dados referentes a março deste ano da B3 permite que se faça o retrato desse investidor novato. A esmagadora maioria (78,04%) é de homens, predominantemente (60%) jovens, com idades entre 26 anos e 45 anos. Eles podem não ter investimentos individuais vultosos (não há dados sobre tíquete médio individual), mas como grupo não são nada irrelevantes: têm uma carteira de 229 bilhões de reais. Em termos qualitativos, as pessoas físicas não têm um perfil homogêneo. “De maneira geral, dá para dizer que as pessoas físicas operam mais com blue chips e papéis que pagam dividendos, com destaque para Petrobras, Vale, Itaú e Bradesco”, observa Lucas Rabechini, sócio e head de renda variável do Grupo XP. Um dos motivos para fazerem apenas o “feijão-com-arroz” seria a falta de confiança para investir. Pouco mais da metade dos entrevistados na recente pesquisa da B3 (51%) admite que gostaria de algum expert em investimento apoiando suas decisões. Essa necessidade, contudo, está longe de ser satisfeita, uma vez que apenas 24% afirmam ter um assessor financeiro de confiança.


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RI para varejo

O aumento da presença de pessoas físicas no mercado brasileiro de ações desencadeia a necessidade de adaptação das companhias abertas. De acordo com Bruno Salem Brasil, gerente de RI do Grupo Itaúsa e membro do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), nos dois primeiros meses deste ano seu departamento recebeu cerca de 100 e-mails e ligações, o dobro do registrado um ano antes. Esse cenário impele as áreas de RI a lançarem webcasts mais amigáveis e até canais no YouTube, tudo com uma linguagem mais informal e acessível ao novo público.

Essa informalidade, entretanto, precisa ser usada com parcimônia, para que não acabe induzindo o investidor ao erro. Ainda mais num cenário em que somente 34% dos investidores entendem claramente o que são os produtos financeiros disponíveis e 30% compreendem a linguagem das empresas que oferecem investimentos, segundo dados da pesquisa da B3. Não à toa, casos como o da Bettina preocupam a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A jovem ganhou popularidade após afirmar, em um vídeo da Empiricus, que conquistou patrimônio de 1,042 milhão de reais em três anos com aplicações no mercado de ações a partir de um investimento de 1,5 mil reais — na época, diversos especialistas em finanças questionaram se isso era possível. Atualmente, a CVM analisa os materiais publicados pela controversa Empiricus no âmbito de um processo administrativo.

Além do amparo da CVM, os pequenos investidores contam com a BSM Supervisão de Mercados para proteção de seus direitos. A BSM atua em várias frentes, no limite ressarcindo eventuais prejuízos de investidores lesados por atuação inadequada de empresas listadas. Nesses casos, as indenizações têm um teto de 120 mil reais. Paralelamente às atividades de regulação e fiscalização, tanto a CVM como a B3 investem na produção e disseminação de conteúdo de educação financeira. Na CVM, as ações incluem publicações na internet (portal e perfis em redes sociais), palestras (presenciais e online) e eventos abrangentes como os que fazem parte da semana nacional de educação financeira (Enef) e a Worldinvestor Week. Nem do WhatsApp a autarquia esqueceu: em 2018 lançou o projeto “Precisamos falar sobre dinheiro”, cujos conteúdos são distribuídos pelo aplicativo. O esforço faz sentido. De acordo com a pesquisa da B3, 63% dos entrevistados gostariam de ter informações didáticas, simples e fáceis sobre como investir.

Especialização

As corretoras também têm papel fundamental na educação e atração dos investidores — até porque muitas delas se especializaram em atender o varejo. É o caso, por exemplo, da Easynvest. A empresa surgiu da Título corretora (fundada em 1968), como uma plataforma de home broker, logo após o lançamento do sistema de compra e venda de ações pela internet da bolsa, em 1999 (no tempo, vale destacar, em que comunicados de fato relevante de companhias abertas ainda eram distribuídos por fax). De 2002 a 2007, a corretora aproveitou os ventos favoráveis à bolsa, mas a crise de 2008 fez despencar a demanda por ações, deixando o cenário bem menos animador. “As margens estavam bastante estreitas nos segmentos de investidores institucionais e estrangeiros, que eram muito disputados pelas corretoras de bancos. Então resolvemos focar no varejo”, conta Magalhães. Em 2013, veio a decisão de parar de trabalhar com outros públicos além de pessoas físicas e também a ampliação da oferta de produtos. Foi nessa época que o nome mudou de Título para Easynvest.

Agora, além de gerar receita com a corretagem de ações, a plataforma vê seu faturamento crescer com a distribuição de cerca de 100 fundos de investimento. Para atrair novos clientes, a corretora reforça presença nas mídias sociais, principalmente por meio de vídeos educativos num canal no YouTube, de posts no Instagram e de um perfil no Facebook. A fórmula vem dando resultados: os 700 milhões de reais em ativos sob custódia de 2014 multiplicaram-se até atingir os atuais 18 bilhões de reais.

Trajetória semelhante teve a Guide Investimentos. A antiga corretora Indusval, ligada ao banco do mesmo nome e com pelo menos 50 anos de atuação, decidiu, em 2013, investir no segmento de pessoas físicas e diversificar a atuação. Para chegar aos 18 bilhões de reais de ativos sob custódia e aos 72 mil clientes que ostenta hoje, a Guide contou não apenas com o trabalho de educação dos investidores— recorreu também a aquisições. Comprou as carteiras de pessoas físicas das corretoras Omar Camargo (Curitiba), Geraldo Correa (Belo Horizonte), Pichioni (forte em câmbio), SLW, da tradicional Magliano — primeira corretora da antiga Bovespa — e o family office Simplifique. Nessa expansão, a plataforma teve também o reforço do trabalho de agentes autônomos — hoje, 350 profissionais operam com a Guide. “Acreditamos no atendimento digital, mas o contato pessoal ainda é bastante importante no Brasil”, diz Aline Sun, sócia-diretora da Guide. Nova modificação veio em setembro de 2017, quando o grupo Fosun, de origem chinesa, adquiriu 69,14% do capital da Guide. Aparentemente, até os chineses já enxergaram o potencial da pessoa física de contribuir para o crescimento do mercado de capitais. Resta saber se todo o trabalho de educação financeira que está sendo feito será suficiente para manter esse investidor na bolsa num cenário de turbulência intensa.


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