As virtudes da blockchain

O que explica o interesse dos mercados financeiros e de capitais na plataforma de processamento de bitcoins

Bolsas e conjuntura / Reportagem / 5 de agosto de 2017
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Ilustração: Rodrigo Auada

Ilustração: Rodrigo Auada

“As agências do governo chegaram, corra para se esconder!” A frase fazia parte de uma brincadeira entre a pequena Iene, então com seis anos, e seu pai, o imigrante japonês Satoshi, nos dias de lazer da família Nakamoto, na Califórnia dos anos 1980. A brincadeira, revelada por Iene à revista Newsweek, revela um traço de personalidade marcante de seu pai: a desconfiança exacerbada em relação ao governo e aos políticos. “Quando era jovem, papai viu meu avô perder sua casa para os bancos. Ele nunca mais confiou nas instituições.”

Além de desconfiado, Satoshi revelou ser um programador brilhante ao lançar, em 2008, uma tecnologia com a ambição de acabar com as fraudes e falsificações de dados digitais, a blockchain, base para o desenho da moeda virtual bitcoin. De modo simplificado, a blockchain é uma plataforma que registra todo o tráfego de um ativo virtual — a quem pertenceu, quando foi vendido pela primeira vez, quantas vezes foi revendido e com quem está no momento. E agora essa tecnologia começa a estender seus tentáculos para os mercados financeiro e de capitais, no mundo e também no Brasil.

Não é dificil entender o motivo do interesse. Na estrutura de blockchain, as informações são protegidas por códigos de criptografia que nem mesmo os supercomputadores da CIA ou da NSA (agência nacional de segurança dos Estados Unidos) conseguem acessar. “Como se não bastasse, a blockchain opera de modo descentralizado e com um nível excepcional de padronização no método de compartilhamento de dados entre as partes envolvidas em uma transação”, explica Roy Martelanc, pesquisador da FEA-USP.

Por “descentralizado” entenda-se: todos os dados transacionados por blockchain são distribuídos para milhares de pessoas na internet. Isso evita a existência de uma entidade controladora vulnerável a corrupção e fraude — um dado falseado em um ponto logo será reconhecido como “alterado” por algum dos integrantes da rede. A padronização aparece com o uso de códigos e linguagens tão claros para os usuários que não há chance real de confusão ou conflito de informações entre diferentes agentes envolvidos em uma transação. “Hoje, é muito comum um software criado em determinada linguagem não reconhecer um dado originário de um programa criado com um padrão distinto. Nas corretoras e bolsas de valores, por exemplo, há muitas aplicações que conflitam entre si, o que exige muitas rechecagens. Ao estabelecer um padrão único, a blockchain simplesmente acaba com esses conflitos”, afirma Martelanc.

Inovação poderosa

Diante dessas vantagens, desde 2012, gigantes como IBM, Accenture e Microsoft investem em pesquisas e oferecem consultoria para agentes desses mercados conseguirem tirar proveito das vantagens da blockchain — tecnologia que, além de tudo, é gratuita, sem direitos autorais. Existem até startups que operam com esse sistema vendendo fatias de blockchain nos chamados “ICOs” (initial coin offering), uma alusão ao termo IPO. De acordo com Flávio Fujita, advogado associado do escritório Zilveti Advogados, a ideia do mecanismo não envolve a aquisição de uma fração, juridicamente falando, dos direitos da empresa emissora, mas sim de um bloco (chamado de token) da própria blockchain. Os tokens, tal como o bitcoin, são ofertados como uma nova criptomoeda, que pode ser facilmente vendida sem qualquer intermediário, caso haja demanda (leia também o artigo Os títulos e ações do futuro).

Segundo Fábio Radacki, diretor da Accenture, a adoção da blockchain por bancos de investimento, corretoras e bolsas de valores representará uma inovação poderosa, capaz de reduzir drasticamente o tempo de compensação de valores, eliminar fraudes e cortar custos. Ele dá um exemplo. Imagine que Pedro compra de João uma ação da Petrobras por 10 reais. Para que essa transação seja efetivada pelo sistema tradicional, a corretora de Pedro manda uma ordem de compra à corretora de João. Durante o processo, é preciso garantir que os 10 reais de fato saíram da conta do vendedor e chegaram à conta do comprador, ter a autorização e o monitoramento da Bolsa. Só depois de tudo isso ocorre a transferência da propriedade do papel de João para Pedro.

No meio desse caminho podem ocorrer inconsistências causadas por eventuais incompatibilidades de softwares usados por Bolsa, Petrobras e corretoras. Se isso acontecer, uma equipe (ou mais) deve ser deslocada para identificar o problema, corrigi-lo e liberar a operação. Todo esse trâmite envolve pessoal especializado, sistemas de TI e a troca de dados entre muitas pontas — e os custos, claro, são repassados a João e Pedro. Com a blockchain, a ordem de compra de Pedro seria enviada — ao mesmo tempo e em uma linguagem padronizada — a todos os envolvidos (João, corretoras, Petrobras, Bolsa), que se transformam em testemunhas virtuais da transação. Radacki estima em 30% a redução do custo operacional com a adoção da blockchain.

Fase de testes

No limite, como no sistema da blockchain todos os interessados sabem o que acontece, seria possível extinguir intermediários — como corretoras e a própria autoridade central (no caso, a bolsa de valores). É, no entanto, improvável que isso ocorra. “Os intermediários devem continuar existindo, mas atuando de modo mais eficiente e barato”, afirma Jonatas Leandro, partner de consultoria da IBM. Algumas instituições já testam o uso da blockchain para situações específicas, casos da Nasdaq e da bolsa australiana ASX (Australian Securities Exchange), que substituíram seus sistemas de TI tradicionais para transacionar algumas ações e eliminar o trabalho de rechecagem de valores.

“Queremos descobrir como a blockchain funcionaria para operações com derivativos e produtos disruptivos”

Fredrik Voss, vice-presidente e responsável pelo departamento de blockchain da Nasdaq, afirma que em caráter experimental a Bolsa usa a plataforma para negociação de ativos do Nasdaq Private Market (desde outubro de 2015) e em sua divisão europeia, sediada na Estônia — onde a blockchain é utilizada na validação do voto de acionistas em assembleias virtuais. “O que fazemos, neste momento, é ver como os sistemas de TI de bancos de investimento e corretoras se adaptam à blockchain.” Embora avalie como “incrível” o potencial da nova tecnologia no mercado de capitais, Voss diz que sua disseminação vai depender da adequação dos bancos e da postura das autoridades regulatórias. “De qualquer maneira, acredito que talvez em cinco anos essa plataforma se torne majoritária”, projeta.

Outros participantes do mercado também se movimentam. O fundo suíço Unigestion (com 20 bilhões de dólares sob gestão) contratou as companhias de tecnologia Northen Trust e IBM para customizar uma plataforma baseada em blockchain para tornar mais transparente a relação com os clientes. No Brasil, a B3 anunciou um acordo com o consórcio R3, que reúne diversas empresas globais de TI, para avaliação dos esforços necessários para adaptação dos sistemas das corretoras nacionais às exigências de uma plataforma blockchain.

Entre os bancos brasileiros, foi no início de 2017 que a blockchain começou de fato a ganhar adeptos. Os testes são feitos no âmbito de uma associação formada por pesos-pesados do mercado, como Banco do Brasil, Bancoob, Banrisul, Bradesco, BTG Pactual, Caixa, Citibank, Itaú Unibanco, J.P.Morgan, Safra e Santander, sob coordenação da Federação Nacional dos Bancos (Febraban). A expectativa do grupo é de que a blockchain seja adotada no Brasil simultaneamente à implementação em outros países, uma vez que soluções oferecidas por IBM, Microsoft ou Accenture estão disponíveis para players de todo o mundo.

A associação agora trabalha para identificar os custos envolvidos na adaptação dos já consolidados softwares bancários usados no mercado brasileiro a uma plataforma aberta de linguagem unificada como a blockchain. “O sistema financeiro nacional é muito robusto e até por isso opera com base em softwares antigos, mas ainda eficientes. Os investimentos em adequação são um desafio”, observa Roy Martelanc, pesquisador da FEA-USP. Ele vê, no entanto, ganhos proporcionalmente maiores após a adoção da tecnologia. “No Brasil ainda se usa muito trabalho braçal em operações de liquidação. Por isso, a economia futura com a blockchain tende a ser enorme”, acrescenta.

“No Brasil ainda se usa muito trabalho braçal. Por isso, a economia futura com a blockchain tende a ser enorme”

De acordo com o coordenador do grupo capitaneado pela Febraban, Adilson Conceição, mais do que adaptar sistemas já existentes, a ideia é criar produtos que coloquem o sistema financeiro brasileiro na vanguarda. “Queremos descobrir como a blockchain funcionaria, por exemplo, para operações com derivativos e produtos disruptivos.” Mário Robredo, diretor da consultoria Indra, diz que corretoras e bolsas do Reino Unido e dos Estados Unidos são as mais adiantadas em testes e pesquisas para uma adoção ampla do recurso. “Apesar disso, como vivemos na ‘idade digital’, em que aspectos geográficos perdem relevância, é possível que a blockchain decole até em uma bolsa de país periférico”, afirma Robredo.

A intensidade da disseminação da blockchain no mercado de capitais depende também da regulação — não há no mundo legislação específica que regulamente o uso dessa plataforma, mas projetos-piloto já obtiveram o aval de governos como os de Estados Unidos, Cingapura e Austrália. Uma ótima notícia para quem torce pela disseminação dessa nova — e promissora — tecnologia.


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Tags:  tecnologia Bitcoin Blockchain criptografia Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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