“A agenda começa pelo ajuste fiscal”

Reportagem especial / Edição 133 / 1 de setembro de 2014
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a-agenda-comeca“Do jeito que está não há como pensar em crescimento de nada”, dispara a economista Monica Baumgarten de Bolle, quando questionada sobre as medidas que poderiam recolocar o Brasil na rota de crescimento. Sócia da consultoria Galanto e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, Monica observa que o essencial é arrumar a casa, ainda que para isso seja preciso “machucar o crescimento de curto prazo”. A agenda começa pelo ajuste fiscal, mas não deve se restringir à revisão da carga tributária e ao corte de gastos. É preciso mudar o cenário em que dois dos mais importantes setores da economia — o de energia elétrica e o de petróleo e gás — vêm sendo usados pela União para manter as contas em dia à custa da credibilidade do País.

O que é possível fazer para o Brasil voltar a crescer?
A primeira coisa é promover uma arrumação geral do quadro econômico. Do jeito que está não há como pensar em crescimento de nada. É preciso fazer uma extensa agenda de reformas e de ajustes, o que requer vontade política. O campo das reformas é o mais complicado. Para melhorar o quadro fiscal brasileiro, não adianta pensar só em reforma tributária e em eventuais cortes de gastos. Temos dois setores extremamente importantes para a economia — o elétrico e o de óleo e gás — que estão absolutamente misturados com a política fiscal e, ao mesmo, sofreram intervenções diretas do governo.

Além da política fiscal, que outros campos precisam passar por reforma?
Temos que redesenhar o Banco Central (BC), colocá-lo para fazer o regime de metas de inflação novamente e abrir espaço para que o câmbio volte a ser flutuante. O que aconteceu nos últimos quatro anos foi uma desconstrução do regime que tínhamos até o fim da gestão [Henrique] Meirelles. Desde 2010, tudo mudou. O regime de metas ficou muito estranho. Quando o governo diz: “Estamos cumprindo a meta”, ele não se refere ao que, antes, chamávamos de meta — o centro da inflação prevista, atualmente em 4,5% ao ano. Se a inflação está abaixo do teto do regime, que é de 6,5% ao ano, o governo afirma que estamos cumprindo a meta. É uma interpretação diferente da que era usada, mais frouxa e redutora da transparência. A falta de clareza deixa o mercado muito cabreiro. A credibilidade se foi, mas não é difícil consertar essa situação: é só mudar os governantes e voltar a fazer como era até 2010.

Como avalia os impactos do intervencionismo do governo sobre o mercado de capitais?
A intervenção foi crescendo ao longo dos últimos anos e espero que tenha atingido o pico. Se for além, ficaremos com cara de Argentina. Se continuarmos trilhando o caminho de intervenções cada vez mais profundas e abrangentes, não será nada bom para o setor privado; teremos encolhimento do mercado de capitais. A presidente Dilma tem um viés intervencionista mais forte do que [o ex-presidente] Lula. Conforme algumas dessas intervenções foram feitas e não tiveram os resultados esperados, o governo, em vez de pensar “não está dando certo porque as intervenções estão ficando excessivas” achou “não está funcionando porque ainda não fizemos o suficiente”.

Na sua visão, o que é preciso fazer para o mercado de capitais voltar a crescer?
Uma das coisas fundamentais é o retorno da confiança. Acreditar que as instituições e a política econômica estão funcionando bem e que teremos perspectivas melhores de crescimento à frente. Em última análise, o mercado de capitais é o principal fornecedor de crédito para investimentos no lado real da economia. Para termos essa perspectiva de expansão, é preciso crer que a economia vai crescer. E como se faz isso? De um jeito doloroso no princípio. É um pouco paradoxal, mas resgatar o crescimento de médio prazo demanda primeiro machucar bastante o crescimento de curto prazo. O mercado de capitais funciona olhando para o futuro. Se os agentes compreendem que estão sendo feitos ajustes que num primeiro momento vão prejudicar o crescimento para depois render frutos, isso tem um efeito positivo antecipado.

Atualmente, toda a expectativa está atrelada à eleição presidencial…
É verdade. A continuação do governo Dilma é mais do mesmo: não tem melhora pela frente. O ano de 2015 vai ser difícil, ruim para a economia em geral, independentemente do governo a ser eleito. O que as pessoas estão olhando é o que vem depois. Vem melhora ou será igual? Queira ou não, este governo já demonstrou que não sabe fazer diferente. Vamos ficar mais quatro anos com crescimento comprometido.

Em que grau essa retração pode chegar em caso de reeleição?
Não teremos uma crise necessariamente, mas também não haverá grandes mudanças, pois o governo acha que está fazendo o certo. Na melhor das hipóteses, cresceremos 2% ao ano, podendo ser pior. O que Marina [Silva] significa na área econômica? Não é muito diferente de Aécio [Neves]. As pessoas que a assessoram são de alto calibre e muito qualificadas. Isso significa que, quando se olha além de 2015, serão governos bons para o crescimento. Ou que, pelo menos, tentarão ser.

A credibilidade do mercado brasileiro está arranhada no exterior?
Ela não foi tão minada assim, mais em decorrência do quadro internacional do que das barbaridades que foram feitas aqui. O cenário lá fora, muito conturbado nos últimos anos, permitiu que surpresas não saltassem aos olhos do investidor estrangeiro como saltariam alguns anos atrás. A ingerência na Petrobras é um exemplo. Até a intromissão começar, a companhia era a menina dos olhos do mercado internacional. Suponhamos que isso tivesse acontecido em 2002 ou 2003: teria sido um desastre para a confiança no Brasil.


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