Voo alto

A gênese do Machado Meyer Advogados a partir das memórias de seus fundadores

Princípio / 18 de maio de 2018
Por 


Fotos: Régis Filho

Foi por meio de Moshe Sendacz que José (Zé) Roberto Opice chegou, em 1973, ao escritório que viria a se chamar Machado Meyer. Eles se conheceram num jantar em Nova York. “O Moshe me deu um cartão do escritório [na época, Barros e Freire Advogados] e disse: ‘Me procura’. Eu fiz isso, sim, mas só depois de rodar todas as firmas de advocacia de São Paulo. Lá foi o lugar que me ofereceu a melhor remuneração e as piores condições de trabalho. O Barros [José Eduardo Monteiro de Barros], que era o chefão, falou ‘olha, você vai vir trabalhar, mas não tem onde sentar, não tem sala, não tem nada; só vai ter onde sentar quando alguém for ao banheiro’”, conta Zé Roberto, divertindo-se com as lembranças sobre a gênese do Machado Meyer.

A banca nasceu como uma dissidência do tradicionalíssimo Pinheiro Neto — na época, Pinheiro Neto, Barros e Freire. Barros e Joaquim Renato Corrêa Freire achavam que, por seus nomes constarem da placa da firma, tinham direito de se manifestar sobre questões da sociedade. Negativo. “O Pinheiro Neto chamou os dois e disse: ‘Vocês têm nome na firma, são bons advogados, mas a sociedade é minha, quem decide aqui sou eu!’”, conta Antonio Meyer.  Na visão dele, o episódio marca o que seria o “espírito” da banca que fundaria: “Foi exatamente em oposição a esse regime czarista, centralizado, que fundamos o Machado Meyer. É um escritório extremamente democrático. Às vezes, excessivamente.”

Em junho de 1972, cinco advogados — Antonio, Barros, Freire, Moshe e mais Ernani Machado (falecido em 2009) — instalaram-se num prédio residencial no número 112 da avenida São Luís, no centro novo de São Paulo. Era um cubículo. Os móveis, emprestados da falida caderneta de poupança Haspa. Telefone, não tinham. “Vou contar a história do telefone”, anuncia Moshe. “Conta, conta!”, incentivam Antonio e Zé Roberto. “Nosso telefone era o de uma amiga do Ernani, que morava no segundo andar. Um dia ela subiu correndo até o oitavo, onde nós estávamos, e falou que alguém da Ultragaz estava ligando. Poxa, o primeiro cliente é logo a Ultragaz! Todos descemos, animados, o Ernani foi atender o telefone. Era seu amigo, o advogado Marco Antônio Dutra Vaz.” O “escritório” não tinha telefone, mas havia uma mesa oficial de pebolim, presente do recente casamento de Moshe. “Depois de bem afiados, organizamos um campeonato interescritórios de pebolim”, conta.

A moleza não durou muito. “Quando eu comecei, o escritório estava funcionando bem, já tinha musculatura”, recorda Zé Roberto. E aconteceu algo curioso: os clientes que eles pensavam que viriam do Pinheiro Neto ficaram onde estavam, enquanto outros que imaginavam que não trocariam de escritório chegaram — inclusive um banco importante, americano, que tinha muitos negócios no Brasil, o Manufacturer’s Hannover. “Foi o início da nossa atividade na área bancária”, lembra-se.

O Manufacturer’s era um dos poderosos “money center banks” de Nova York, instituições cujos clientes eram governos, grandes corporações e outros bancos. Nos anos 1960-70, eles canalizaram o excesso de liquidez dos mercados internacionais para o Brasil durante o “milagre econômico” (1968-73) dos governos militares, que transformaram o País num canteiro de obras faraônicas. Também financiaram os igualmente faraônicos déficits comerciais derivados do primeiro choque do petróleo, de 1973 — a partir daí a crise econômica brasileira se agravou até desembocar na bancarrota, em 1982. Foi também nessa altura que dois dos primeiros fundadores, Barros e Freire, saíram da sociedade, abrindo espaço para a “refundação” do Machado, Meyer, Sendacz e Opice.

A ‘década perdida’ de 1980 foi um período de muita dificuldade. “Ficamos quietinhos, mudando as penas”, recorda Antonio. Mas para os escritórios que tinham penetração na área financeira as operações de reciclagem dos dólares retidos no Banco Central significaram um novo nicho de negócios, que sustentou a transição, segundo Zé Roberto.

 

Estabilização

Com plumagem nova, o escritório voou alto com a volta da democracia, as reformas liberalizantes e as privatizações do presidente Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990. “Participamos das primeiras privatizações assessorando o governo, o BNDES, a Vale do Rio Doce, todas as siderúrgicas, as elétricas estaduais”, enumera Antonio.

Os setores de telecomunicações e de energia, enormes e complexos, eram do governo — que não contratava escritórios de advocacia. Assim, a venda dessas empresas ao setor privado acabou gerando oportunidades valiosas para as bancas. Daí em diante o processo se intensificou, com Plano Real, estabilização, ampliação do mercado de capitais, onda de fusões e aquisições, mais investimentos no Brasil, chegada de novos players… “Tivemos até que negociar terras com os índios”, lembra Moshe. “Tinha que aplicar a lei indígena e negociar com cacique.”

Na onda da privatização, o Machado Meyer foi um dos primeiros escritórios a trabalhar com gás e petróleo. “A gente chamava engenheiros aqui para explicar como funciona o setor elétrico, o negócio de grid. Advogado não entendia como é que a molécula anda no fio”, relata Antonio. “Na venda do sistema Telebras, assessoramos a Telefónica. A regulamentação saía, estava sendo criada a Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações], veio a lei geral do setor, aquilo ia crescendo. Eram 52 as empresas do sistema Telebras. Eu tive que ir a Brasília com 40 advogados.”

 

O cisma

O crescimento dos negócios e da quantidade de clientes ensejou a expansão para outras áreas, a fim de atender as grandes corporações que queriam concentrar suas pendências jurídicas num só lugar. “Nós não tínhamos contencioso, que ficou com o Ernani. Abrimos a área trabalhista e, com o passar dos anos, integramos outras áreas e novas oportunidades.

A parte de infraestrutura chegou um pouco mais tarde”, comenta Antonio. “E assim formamos pessoas, formamos sócios.”

Ocorre que junto também crescia uma insatisfação surda, que não se desenvolveu em meses como na insurreição de Barros e Freire no Pinheiro Neto. Sócios importantes juntaram-se para deixar a firma e constituir o Souza, Cescon Advogados (atual Cescon, Barrieu). Foi um terremoto. “Então percebemos que alguma coisa não estava funcionando. Porque pessoas saíram, insatisfeitas. Aí começamos a organizar o escritório de uma forma mais moderna.”

A informalidade de outrora deu lugar a uma nova estrutura empresarial, com um administrador profissional contratado, e à decisão de que, aos 70 anos, os sócios cederiam seu lugar para outro. Atualmente, somente o Moshe ainda tem um cargo no Machado Meyer — é presidente do conselho de administração, posição que deixará de ocupar no fim deste ano.

O cisma também reforçou a preocupação com a perda de profissionais formados no escritório e a sua substituição. Afinal, idas e vindas de talentos são um fato na vida de qualquer empresa. Por isso, quando o Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados contrata um grande profissional numa determinada área, agrega estagiários ou novos advogados que possam substituí-lo. “Todo mundo tem que ter uma sombra aqui. Se vai embora, a sombra assume”, salienta Antonio. “A forma de remuneração dos sócios é uma das questões mais difíceis na gestão dos escritórios de advocacia. Gera muita discussão,  divergência”, complementa Zé Roberto. Mas o esforço compensa, arremata Antonio: “O importante é que o Machado Meyer deu origem a outros escritórios e todos muito bem-sucedidos. Tem nisseis e sanseis. Já estamos na terceira geração.”


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