Obra que imita a vida

Em ritmo nervoso, ficção narra a trajetória de ambição de um trader de Wall Street



O romance Os Mercadores da Noite poderia começar com a célebre frase de muitos filmes: “Qualquer semelhança dos personagens com a vida real é mera coincidência”. Com mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro, o autor Ivan Sant’Anna conseguiu nessa obra combinar o jargão do mundo real das altas finanças com uma linguagem simples, conferindo verossimilhança à história sem precisar exagerar nos detalhes técnicos de funcionamento dos mercados. O resultado é um enredo veloz, que cativa pela profundidade e pela complexidade dos personagens e seus dramas pessoais e profissionais.

O livro gira ao redor de Julius Clarence, um operador do mercado financeiro extremamente bem-sucedido que expande suas atividades sob a estrutura do que hoje se denomina um hedge fund. Filho do dono de um armazém de secos e molhados em uma pequena cidade agrícola do meio-oeste norte-americano, Julius desde cedo se destacou por sua ambição e determinação. Na adolescência, deixa sua família em direção a Chicago, onde viria a fazer seus primeiros milhões de dólares antes de partir para a conquista de Wall Street. Essa etapa revela aspectos interessantes da formação do caráter e dos valores do personagem, fornecendo algumas pistas sobre seu comportamento posterior.

No momento em que o jovem adulto Julius já amealhou certa reputação e inicia sua carreira solo, somos apresentados àquele que se tornará seu inimigo mortal no mercado financeiro, o frio e calculista Clive Maugh. O “lorde das trevas” é caracterizado como uma figura excêntrica, com vocação para fazer dinheiro a qualquer custo. Não é difícil detectar nessa caricatura de trader um padrão moral duvidoso de gente real. O banco em que trabalha insiste em ignorar seus escorregões éticos só porque ele ganha muito dinheiro (soa familiar?). Desnecessário dizer que a corrupção traz implicações para a governança da instituição que, por fim, causarão sua derrocada.

As carreiras de sucesso dos dois traders várias vezes os colocam em pontas opostas da mesma transação, criando um antagonismo que excede o mero perde-ganha do mercado financeiro. Assim que ambos atingem um patrimônio que imaginam não poder gastar nem em várias vidas, acabam se tornando bombas-relógio para as organizações em que atuam. Suas personalidades fortes e autocráticas submetem a governança corporativa de suas empresas a agendas individuais, reduzidas a um desejo insano de aniquilação financeira do rival.

A despeito de o romance se focar principalmente no lado profissional de Julius, sua trajetória pessoal também é relatada em minúcias que humanizam o personagem. Ele é o protagonista, mas não poderíamos descrevê-lo como um herói clássico, devido aos vários desvios éticos a que se permite.

O enredo se desenvolve em ritmo crescente até o clímax, que não poderia deixar de ser um embate entre os dois personagens. Ali, fica patente a vantagem psicológica de Julius, que se mostra capaz de se desapegar de tudo o que conquistou para recomeçar a vida, sumindo do mapa. Como disse Janis Joplin: “Freedom’s just another word for nothing left to lose”. Portanto, é melhor redobrar o cuidado ao entrar em uma briga com alguém que não tem nada a perder.


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