O outro lado da história

Hank Greenberg, lendário CEO da AIG, relata a ascensão e a queda de uma gigante

Prateleira/Edição 117 / 1 de maio de 2013
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Dizem que a verdade é a primeira vítima de uma guerra. O que resta são versões dos fatos. É o caso de The AIG Story, obra escrita por Maurice “Hank” Greenberg, CEO da empresa por nada menos que 38 anos. Veterano da guerra da Coreia, iniciou carreira em 1960, na C. V. Starr & Co., uma desconexa coleção de negócios de seguros que se tornaria uma gigante mundial avaliada em US$ 180 bilhões na Bolsa de Nova York.

O livro narra a expansão do American International Group desde a consolidação de várias seguradoras americanas de atuação regional até a forte presença global, num momento em que poucas empresas tinham essa ambição. A AIG foi a primeira seguradora estrangeira em vários países da Ásia e do Leste Europeu. Greenberg assumia um papel de “embaixador” de negócios dos Estados Unidos, muitas vezes participando da própria política externa americana.

O final da obra reconta os fatos que sucederam a substituição de Greenberg como CEO, um trimestre antes de sua aposentadoria compulsória, no início de 2005. Três eventos associados conspiraram para a derrocada da empresa: o novo padrão de governança pós-Sarbanes-Oxley; a perseguição de Greenberg pelo procurador de Nova York Elliot Spitzer; e a crise global, que pegou a companhia com a guarda baixa em termos de gestão de risco.

A concentração de poder por tanto tempo expôs a liderança autocrática de Greenberg. Conselheiros independentes separaram os papéis de CEO e presidente do conselho e, em seguida, substituíram Greenberg, tentando blindar a companhia do assédio de Spitzer. Mas a falta de conhecimento dos conselheiros sobre seguros, o relaxamento na disciplina e na gestão de risco e a migração dos incentivos de longo prazo para os de curto prazo criaram um ambiente tóxico. A área de produtos financeiros simbolizava a cultura emergente, de abraçar riscos enormes em troca de polpudos bônus anuais. A exposição a derivativos de crédito lastreados em hipotecas (credit default swaps) drenou a liquidez da AIG até deixá-la de joelhos.

Foi quando o governo americano nacionalizou a companhia, com uma injeção de recursos que diluiu fortemente todos os acionistas. O Tesouro americano (leia-se Hank Paulson e Tim Geithner) utilizou a AIG como um conduíte para canalizar US$ 65 bilhões a vários bancos de investimento americanos e estrangeiros, pagando o valor de face em contratos que claramente poderiam ser renegociados.

Uma questão que pode passar despercebida é o arranjo de governança da AIG, que impactava os incentivos e a gestão da empresa. Onde a comunidade de negócios enxergava um CEO e chairman imperialista, era possível ver o “olho do dono”. Greenberg era o maior acionista individual da AIG, por meio da holding em que tudo começou. Nos tempos de Greenberg, o sistema de incentivos da empresa consistia em ações da holding que poderiam ser vendidas apenas em caso de aposentadoria. Isso assegurava meritocracia e horizonte de longo prazo, fundamentais num negócio como o de seguros.

Alguns fatos são marcantes. O comportamento de Spitzer, motivado por ambições políticas (ele viria a ser o governador de Nova York), descreve um capítulo sombrio da história americana: como um homem público usou seu cargo em proveito próprio. E, embora para Paulson e Geithner a AIG tenha sido o “cordeiro sacrificado” para salvar o sistema financeiro, a expressão “bode expiatório” parece mais adequada. Cabe ao leitor eleger a sua versão da verdade.




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