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O caminho do arco-íris para criar unicórnios

Foto: divulgação

Toda atividade cíclica tem, por definição, seus altos e baixos, e não seria diferente na área de venture capital. O atual momento do ciclo, com novos unicórnios1 surgindo toda semana, tem atraído muita atenção da mídia e da sociedade como um todo, criando demanda para uma prolífica produção de conteúdo sobre o tema. Mas, para empreendedores ávidos por conhecimento que de fato contribua no árduo processo de desenvolvimento de um negócio promissor, surge a dúvida de como escolher entre blogs, livros, podcasts e tantas fontes de aconselhamento. Nesse ambiente de ambiguidade, fumaça e espuma, a simplicidade é sempre o melhor caminho; logo, basta buscar fontes com reputação testada no campo de batalha. É o caso de Scott Kupor.

Diferentemente da maioria dos profissionais de venture capital, que vem das áreas de finanças e tecnologia, Kupor é advogado de formação, embora tenha iniciado sua carreira na área de fusões e aquisições em um banco de investimentos. Após trocar a segurança do emprego por uma startup, ele “graduou-se” como empreendedor até tornar-se diretor executivo da Andreessen Horowitz, uma das empresas de venture capital mais reputadas do Vale do Silício. Essa trajetória particular torna sua perspectiva sobre capital empreendedor atraente por focar nas relações entre as partes envolvidas e na forma de alinhamento de interesses, muito além dos aspectos financeiros do investimento, como valuation, por exemplo.

O autor se posiciona com clareza em relação ao objetivo do livro: trata-se de um tutorial direcionado a empreendedores aspirantes a criar unicórnios. Seguindo o formato tradicional dos “guias de como fazer”, após cinco capítulos de introdução ao ecossistema de venture capital, ele divide o conteúdo de acordo com a cronologia na vida de uma startup: como estruturar a empresa (considerações sobre mercado, produto e equipe), a arte do “pitch” de venda “matador”, como levantar recursos e escrever cartas de intenções (“term sheets”) e como escolher entre ofertas de vários potencias investidores. A partir do sucesso na captação, afirma, atenção especial deve ser dedicada ao conselho de administração, sua montagem e processo de funcionamento. Por fim, considerações valiosas são tecidas sobre o estágio final das startups, seja na riqueza (abertura de capital ou venda a investidor estratégico) ou na pobreza (“down rounds”2 ou dissolução/liquidação).

Do ponto de vista dos profissionais da área de investimento em venture capital, a inserção da palavra “segredos” no título pode ser interpretada como uma jogada de marketing. A despeito desse certo exagero, o autor faz um trabalho honesto e valioso ao traduzir o “financês” e o “juridiquês” que contribuem para a aura de sofisticação e opacidade desse segmento do mercado. Particularmente útil é a discussão do documento-chave do processo de investimento, o “term sheet”, segmentado entre termos econômicos e de governança, pois ali se estabelece (ou não) o tão almejado alinhamento de interesses. Este sim é o verdadeiro segredo que conduz a relações mais duradouras e produtivas entre sócios ao redor de um negócio.


Secrets of Sand Hill Road: Venture Capital and How to Get it

Scott Kupor

Editora Portfolio

320 páginas

1a edição ― 2019


Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


Notas

1Figura mítica associada às startups que atingem avaliações superiores a um bilhão de dólares

2Rodada de financiamento feita com valor abaixo da rodada anterior (revela desvalorização do negócio)


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