Narrativas, economia e… pandemia

Num mundo de discursos disseminados por mídias sociais e apoiados por fazendas de “likes”, nem mesmo a ciência econômica está livre de impacto

Negócios e Inovação/Prateleira / 31 de julho de 2020
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Narrativas, economia e... pandemia

Imagem: Divulgação

 

Histórias com apelo emocional relacionadas à economia são tão antigas quanto a própria ciência de mesmo nome. No entanto, o advento da internet e das mídias sociais criou um mecanismo de disseminação dessas narrativas com características muito semelhantes às da pandemia viral. Essa é a provocação central de Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events, do economista Robert Shiller, um renomado acadêmico recebedor de prêmio Nobel. Até que ponto discursos questionáveis em termos de conteúdo e substância podem influenciar escolhas individuais, afetando a economia e o bem-estar coletivo? Segundo o autor, o estudo e a compreensão dos mecanismos de disseminação das chamadas “narrativas econômicas” podem ajudar na prevenção de crises financeiras ou no amortecimento de seus impactos negativos.

Encapsuladas no bojo de histórias com apelo popular, algumas ideias podem se espalhar de forma viral e afetar mercados e economias de países. Independentemente de serem verdadeiras ou falsas, essas ideias, ao ressoar com crenças populares pelo lado emocional, tendem a influenciar comportamentos e causar efeitos sobre a confiança do consumidor e sua propensão a consumir. O grande mérito da obra de Shiller é sistematizar e catalogar narrativas recorrentes e estudá-las sob a lente da epidemiologia, colocando-as em contexto histórico para avaliar sua contribuição em períodos de crescimento ou depressão econômica. Assim como seus congêneres, vírus econômicos têm sua gênese, se multiplicam, passam por mutações ou morrem, apenas para renascer quando as circunstâncias são novamente favoráveis.

O autor usa da tecnologia (Google Ngrams) para contabilizar o número de vezes que algumas expressões-chave aparecem em publicações (mídia impressa em geral) e demonstrar sua tese de que a disseminação obedece a curvas com característica viral. Temas como “automação vai provocar desemprego em massa”, “o mercado (acionário, imobiliário etc) está irracionalmente alto (ou baixo)”, “bitcoins são o futuro” — ou seu inverso, “devemos retornar ao padrão-ouro” — e “grandes empresas exploram os trabalhadores” ressurgem de tempo em tempos, dependendo das condições para a ideia entrar em ressonância.

Com relação ao conteúdo e à estrutura da obra, por um lado, o autor conjuga várias disciplinas como História, Ciência Política e Sociologia para avaliar o poder das narrativas econômicas. No entanto, essa escolha limita o rigor acadêmico e a relação de causalidade típica de seus livros anteriores, baseados em análises quantitativas. Do ponto de vista do avanço na disciplina da Economia, a escolha pela leveza é compreensível por causa da novidade da abordagem, mas alguns leitores podem ficar frustrados pela falta de ensinamentos práticos.

Uma conclusão importante (que fica nas entrelinhas) para os formuladores de políticas públicas envolve o poder da comunicação e a importância de dominar a narrativa para alcançar objetivos. Tomemos a recente discussão da reforma da previdência: um tema polêmico e, inicialmente, com baixo apoio popular. A mobilização favorável do Congresso só foi possível após uma narrativa que se conectou com população, sem enfatizar os argumentos econômicos. Por fim, na era das fake news, vale lembrar que a criação de narrativas populares também pode ser usada com objetivos nada nobres.


Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events

Robert J. Schiller

Princeton Univeersity Press

400 páginas

1ª edição ― 2019


*Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


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