- Capital Aberto - https://capitalaberto.com.br -

“Finja até dar certo”

Foto: divulgação

Grande parte dos comentários na mídia sobre a história da Theranos começa com o foco na irresistível trama digna de filme de suspense e investigação policial. Em resumo, a jovem Elizabeth Holmes, então com 19 anos, larga seu curso de graduação na renomada Universidade de Stanford em 2003 para fundar uma empresa que promete revolucionar o mercado de testes sanguíneos. Nesse processo, convence investidores experientes do Vale do Silício a aportar 600 milhões de dólares em sucessivas rodadas de investimento (na última rodada, a empresa foi avaliada em 9 bilhões de dólares) e fecha contratos com clientes do naipe de Walgreens e Safeway, duas grandes cadeias americanas de drogarias e supermercados. Por fim, descobre-se que a tecnologia apresentada por Holmes não funciona e o circo se desmancha em fumaça e fogo.

A tese de investimento da empresa era particularmente irresistível: transformar o grande e lucrativo negócio de testes com sangue. Adeus coleta manual de três tubos grandes! A disrupção seria baseada em um aparelho que faria tudo a partir de três gotas de sangue, com maior eficiência, qualidade e custos mais baixos que no processo tradicional. Muito bom para ser verdade? Infelizmente sim. A lista de desafios era tão extensa quanto complexa — envolvia miniaturização das máquinas de teste (desafio de hardware), realização de múltiplos testes com múltiplos reagentes (desafio bioquímico) e processamento dos testes (desafio de software). No entanto, quando um engenheiro, programador ou médico da empresa apontava para a inexequibilidade da visão, Holmes imediatamente rotulava o profissional como um descrente, ou incompetente, e o demitia sem cerimônia.

Amparada por uma forte campanha de relações públicas, uma mídia benevolente e negligente, um conselho de administração de primeira linha e uma cultura de segredos e adoração pela fundadora, a empresa enganou a todos até 2015, quando John Carreyrou, um repórter do The Wall Street Journal, publicou uma série de artigos que criariam a semente da dúvida sobre a credibilidade da tecnologia e da empresa. Mas foi somente três anos depois, em maio de 2018, quando ele publicou Bad Blood: Secrets and Lies in a Silicon Valley Startup, que a queda se acelerou vertiginosamente: em junho daquele ano Holmes foi acusada de fraude pela SEC (a CVM americana) e em setembro a Theranos encerrou suas atividades. A fundadora ainda aguarda julgamento na esfera criminal, programado para o verão de 2020 no hemisfério norte.

A obra de Carreyrou é baseada em um extenso trabalho de pesquisa e investigação. Ele fundamenta sua narrativa em entrevistas com aproximadamente 150 pessoas, entre elas 60 ex-colaboradores da Theranos. Desde o início o leitor sabe quem são os vilões, e sua curiosidade é constantemente aguçada: a cada trecho se espera descobrir como eles serão desmascarados. Em um momento crucial do livro, vem à tona a coragem de um par de ex-colaboradores. Pressionados por advogados da empresa com a ameaça de processos milionários, ainda assim preferem trazer a verdade à luz.

No mundo dos investimentos, uma das frases mais filosóficas registra que “valor é como beleza: está nos olhos de quem vê”. A vida real mostra que, às vezes, até um bode com um chifre colado na testa pode passar por um unicórnio.


Bad Blood: Secrets and Lies in a Silicon Valley Startup

John Carreyrou

Editora Harvard Business Review Press

320 páginas

1a edição ― 2018


Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


Nota

“Finja até dar certo” é uma tradução livre do aforismo em inglês “Fake it ‘til you make it”


Leia também

Quando o lucro não basta

As engrenagens do governo americano

O algoritmo da excelência