Duelo de titãs

A história do embate entre dois ícones do ativismo acionário, com uma empresa no meio do fogo cruzado

Gestão de Recursos/Prateleira / 14 de junho de 2019
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Imagem: Reprodução

Recentemente esta coluna abordou o tema do ativismo dos investidores, ao discutir o conteúdo de Dear Chairman: Boardroom Battles and the Rise of Shareholder Activism. Desta vez, a resenha é do livro que detalha o embate mais intenso já visto entre dois ativistas. Tendo como objeto de disputa as ações da Herbalife (o “ringue”), apresentamos Carl Icahn no lado dos “comprados” (ganham quando as ações sobem) e Bill Ackman no lado dos “vendidos” (ganham quando as ações caem). Trata-se de dois dos mais ricos, aguerridos e agressivos ativistas do passado recente, protagonistas de When the Wolves Bite: Two Billionaires, One Company, and an Epic Wall Street Battle.

Contada por Scott Wapner, apresentador do programa diário “Fast Money: half time report” da CNBC, a história se desenvolve na linha “a arte imita a vida”: alguém que não conhece os eventos pode achar que se trata de romance complexo, com todos os inescapáveis complôs, lobbies obtusos e reviravoltas. Embora os panos de fundo sejam a apresentação do papel dos ativistas e o debate sobre se prestam algum serviço à sociedade, o enredo gira em torno de uma batalha de egos, em que afetar o bolso do outro é apenas uma maneira de nocautear publicamente a reputação do oponente.

Tudo começa quando outro ativista conhecido, David Einhorn, participa de uma assembleia de acionistas da Herbalife e faz um par de questionamentos pesados sobre a operação da empresa, anunciando ter assumido uma posição vendida na ação. O fato atrai a atenção de Ackman, que aprofunda sua própria pesquisa sobre e também assume uma posição vendida — de um bilhão de dólares —, dizendo que a empresa é um esquema de pirâmide e que “a ação vale zero”. Na esteira de uma queda abrupta de 40%, acontece o improvável: Einhorn (o provocador) sai de sua posição com um belo lucro e surge o “cavaleiro branco” na figura de Icahn, anunciando uma pesada posição comprada.

Nesse ponto se inicia uma troca de fogo em público entre os dois gigantes, cujo ponto culminante é a aparição de Ackman no programa de Wapner, que recebe uma ligação ao vivo de Icahn — os ativistas acabam trocando “socos verbais” em rede nacional. Algo como “Clube da luta”1, mas para bilionários!

O livro faz um belo trabalho ao explicar a natureza da operação dos fundos ativistas, sua complexidade e múltiplas dimensões. Wapner recorre a uma análise fundamentalista clássica sobre a relação entre valor, operações e números da empresa, passa pelo posicionamento (comprado/vendido) e por batalhas por assentos no conselho de administração — tudo apimentado por lobbys em Washington e campanhas multimilionárias de relações públicas.

Enquanto a maioria dos casos de ativismo se resume a uma batalha (um ganha, outro perde, fim da história), essa guerra começou em 2012 e se arrastou até 2016, terminando em um tipo de armistício. O saldo parece ter deixado mais contusões em Ackman do que em Icahn, apesar do grande esforço dos dois para se reconciliar publicamente. Entre mortos e feridos, todos parecem ter se salvado. Pensando na metáfora do título original: sabe-se que lobos tipicamente atacam animais feridos ou mais frágeis em grupo. A briga Ackman-Icahn nos lembra de que a personalidade dos machos-alfa das finanças às vezes pode se sobrepor até às leis da natureza.

 

When the Wolves Bite: Two Billionaires, One Company, and an Epic Wall Street Battle

Scott Wapner

Editora: PublicAffairs

256 páginas

1a edição, 2018

 


* Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente

 

1Filme de 1999, com Edward Norton e Brad Pitt


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