Direto pro inferno, sem escalas…

Autor da conta do Twitter mais famosa do mercado financeiro desnuda os bastidores do mundo das finanças bilionárias

Prateleira / 26 de novembro de 2017
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Entre 2012 e 2015, a conta @GSElevator do Twitter oferecia pitadas quase diárias de um humor ácido sobre o mundo das altas finanças internacionais a centenas de milhares de seguidores. Em algum momento, a direção do prestigioso banco Goldman Sachs (o “GS”) resolve iniciar uma investigação interna e expõe a identidade do “ghost writer” da cultura dos bancos de investimento que dominam o mundo bilionário das finanças. Embora essa exposição tenha significado um suicídio para a carreira de John LeFevre como banqueiro, ela abriu espaço para o florescimento de seu lado cronista e escritor, com o lançamento de Straight to Hell: True Tales of Deviance, Debauchery and Billion-Dollar Deals.

Pode-se dizer que a época do @GSElevator representou uma espécie de treinamento e de desenvolvimento para a etapa seguinte do escritor. Enquanto na primeira trata-se de uma pseudo-curadoria de piadas e comentários em terceira pessoa a respeito dos banqueiros, a segunda etapa retrata as lembranças em primeira pessoa do autor.

Poucos círculos profissionais comandam tanto ódio, inveja e admiração quanto o exclusivo clube dos banqueiros internacionais. Tipicamente, quando um “insider” conta sua história, o mundo tem a oportunidade de dar uma olhada fugaz entre cortinas translúcidas. No caso de LeFevre, ele preferiu rasgar as cortinas. Desde o colegial, em uma prestigiosa escola privada nos Estados Unidos, passando pela universidade e pelo programa de trainee dos bancos, as histórias são recheadas de violações à lei, trotes pesados, álcool, drogas e prostitutas, e dinheiro, muito dinheiro.

O autor inicia sua jornada na área de trading em Nova York, passando por Londres, para então fixar-se em Hong Kong, sempre na mesa de compra e venda de títulos de crédito privados. Seu trabalho consistia em precificar e vender novas emissões de dívida por empresas e países da região asiática, em uma rotina que envolvia viagens (os chamados “roadshows”), muitas vezes em jatos privados, seguidas de orgias gastronômicas e de outras naturezas. Aliás, o fio condutor da narrativa é o completo desrespeito por normas sociais de convivência e o comportamento devasso e de excessos, que provavelmente só são compreendidos e aceitos pelos membros da “confraria”.

A despeito dos excessos chocantes da sequência de “causos” que pontuam a vida do autor, outro elemento fundamental em toda a história é o humor, em todas as suas modalidades: negro, cáustico, racista, sexista. Poderia ser um livro sobre o sonho de verão de um universitário em sua república, mas retrata a vida (sur)real de profissionais com salários de sete dígitos fazendo negócios de bilhões de dólares.

Neste mundo do politicamente correto, a história contada por LeFevre é bastante sui generis. Ele não demonstra a mínima vergonha, muito menos se desculpa por seu comportamento quase psicopata em certa dimensão. Há pouca dúvida de que as personalidades descritas no livro não irão contribuir para melhorar em nada a imagem dos banqueiros das altas finanças. Mas, como ele diz em um de seus “tweets”: “se você vai pro inferno, melhor ir de primeira classe”.


Straight to Hell: True Tales of Deviance, Debauchery and Billion-Dollar Deals

John LeFevre

Editora: Grove Press

336 páginas

1a edição, 2015


* Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


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Tags:  finanças investimento prateleira John Lefevre Straight to Hell Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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