No tempo certo

José Olympio Pereira

Bolsas e conjuntura/Papo Aberto/Edição 148 / 1 de março de 2016
Por 


José Olympio Pereira

Ilustração: Eric Peleias

Olympio Pereira, bem-sucedido banqueiro de investimentos e intenso colecionador de arte, costuma dizer à turma iniciante do Credit Suisse, instituição que preside: “Pessoal, eu já vi isso antes. De 1998 a 2003 também não acontecia nada no mercado de capitais. Pode demorar um pouco, mas volta”. Não, José Olympio não está animado com uma solução para a crise do País no curto prazo — ao contrário. Mas enxerga no Brasil um atributo sensacional, capaz de distingui-lo dos pares latino-americanos cujas economias avançaram muito mais rápido que a nossa nos últimos anos. “Trabalho há três décadas e ainda hoje descubro todo mês um empresário novo, de uma empresa que vende R$ 300 milhões, R$ 500 milhões ou R$ 1 bilhão. Como pode, com o tempo de estrada que eu tenho, ainda existirem tantos empreendedores que não conheço? E olha que eu trabalho bastante, viu.”

Pereira está certo de que esse empreendedor “guerreiro”, deflagrado a cada incursão pelas cidades brasileiras, é a maior riqueza do Brasil aos olhos dos investidores estrangeiros. Economias como a do México, por exemplo, estão centradas em um pequeno número de famílias que controlam os conglomerados, o que reduz substancialmente as oportunidades por lá. “É isso o que nos distingue. Quem já tinha ouvido falar da Pet Center Marginal ou da Cobasi?”, exemplifica, referindo-se às concorrentes de produtos pet que cresceram aceleradamente nos últimos anos — a primeira vendida para o Warburg Pincus em 2013; a segunda, ainda sob controle familiar. Outra vantagem do País em relação aos pares emergentes, assinala, inclusive China e Índia, é a estabilidade institucional. “É muito mais fácil fazer negócios aqui do que nesses países.” Se estivesse em rota de crescimento, crava, o Brasil seria o grande “darling internacional”. O problema é que não está, e nada indica que irá retomá-la tão cedo. “Vivemos um momento de pessimismo absoluto. Do empresário ao consumidor, a desconfiança é enorme.”

O mais provável é que o gatilho da mudança de humor seja acionado apenas nas próximas eleições presidenciais, em 2018. “Se não houver uma interrupção do mandato da presidente Dilma (Rousseff), as chances de o PT (Partido dos Trabalhadores) eleger um sucessor são mínimas. Por isso, já no fim de 2017, começo de 2018, deveremos ver alguma melhora”, projeta. Até lá, há de se zelar para manter a integridade institucional. “Um impeachment com cheiro de golpe seria muito ruim para o País”, afirma. “Nem que fosse para colocar a melhor pessoa do mundo no lugar dela não valeria a pena.” A força demonstrada por instâncias como o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal na Operação Lava Jato está sendo devidamente valorizada pelos investidores internacionais, assegura Pereira.

O curioso dessa crise, observa, é que, diferentemente da década de 80, quando havia hiperinflação e ninguém sabia o que fazer, agora a solução está clara na cabeça de qualquer estudante de economia. “Vamos lá, para descomplicar: é difícil fazer reforma da Previdência? Introduz a idade mínima. Complicado fazer a reforma trabalhista? Basta permitir que a livre negociação entre patrões e sindicatos se sobreponha à lei. Não tem por onde fugir. De Delfim Netto a Arminio Fraga, a receita é uma só.” Ainda que os resultados demorassem a vir, a simples sinalização concreta de medidas como essas seria altamente positiva. “Parece que a presidente Dilma encampa essa tese, mas é preciso encampar de verdade. Vender a ideia para a população, para o partido, para o congresso. Vender.” Sem uma liderança política para emplacar tais medidas, Pereira enxerga o País trilhando uma perigosa rota de acúmulo de déficit, cujo destino final é o estatelamento das contas públicas. “Estamos avançando nesse caminho e há um muro lá na frente. Tem que desviar, se não vai bater.”

Além da receita macroeconômica, uma saída para não bater no muro é a retomada do programa de privatizações, aconselha. Mas aí há uma armadilha que o governo deve evitar: a venda de participações minoritárias. “Seria um crime de lesa-pátria”, diz, argumentando que a estratégia levaria a União a se desfazer de ativos a preço de banana. Investidores pagariam pouco por entender que o potencial de ganhos de eficiência e rentabilidade seria significativamente menor com a preservação do governo no controle. “A Petrobras mostrou que muita coisa errada acontece, mesmo quando investidores detêm uma parte da companhia.” Mas a venda das estatais interessaria aos políticos, José Olympio? “Com certeza, não. Nem o PSDB se interessa por isso. Nenhum dos governadores tucanos privatizou grande coisa. Por que São Paulo tem que ser dono da Sabesp? Por que o Paraná quer continuar com a Copel?”

A venda de participações minoritárias nas estatais não seria apenas um erro político e econômico, na visão de Pereira. Seria igualmente improvável. “É uma questão de preço e apetite. Não tem bilhão de dólares hoje para investir em empresa controlada pelo governo.” Com esse prognóstico, o banqueiro despeja a última pá de cal sobre qualquer possibilidade de abertura de capital este ano. “Zero. Não vejo nenhuma chance de uma companhia fazer um IPO (oferta inicial) em 2016.” Os fundos de private equity são, neste momento, o dinheiro disponível, afirma. Ele exemplifica com a rede de farmácias Pague Menos, que há anos flertava com a bolsa de valores, mas, em dezembro passado, teve uma fatia de 17% do capital vendida para a General Atlantic.

“Não vejo nenhuma chance de uma empresa abrir o capital em 2016”

A ausência de IPOs significa mudança de planos para as empresas e também para os bancos de investimentos e assessorias financeiras. “Houve demissões, o segmento encolheu muito. Afinal, ninguém queria perder mais dinheiro”, resume Pereira. Parte das perdas foi compensada com as comissões das fusões e aquisições originadas pela crise, “mas nem de longe elas substituem a atividade de mercado de capitais que existiu”, esclarece, referindo-se à janela de IPOs aberta em 2004. O porte do Credit Suisse no Brasil, afirma, ajudou a suavizar os efeitos da secura das ofertas de ações. Além dos serviços de banco de investimento (fusões e aquisições, ofertas de ações e corretagem), a instituição atua nas áreas de gestão de recursos e assessoria de investimentos (private banking).

Essa última é a grande aposta atual. “Estamos crescendo, contratando e tomando mercado nesse segmento”, conta o executivo. O percentual de pessoas que usa o serviço no Brasil ainda é pequeno, o que enseja uma boa perspectiva de expansão. Além disso, a crise abate a concorrência e ajuda a ganhar a mercado. Na estratégia desenhada pelo banqueiro, o private banking é o canal para atrair clientes e posicionar-se bem próximo deles, à espera do momento em que a economia voltará a crescer. O segredo, ensina, é mostrar ao cliente que estamos com ele chova ou faça sol. O lado bom de ficar velho, ele brinca, é ter vivido os ciclos e aprendido a não ficar nem eufórico nem desesperado com eles.

Enquanto prepara a garotada e o banco para os ciclos da economia, José Olympio planeja sua próxima etapa da vida. Perto de completar 54 anos, ele não se vê fazendo o que faz hoje no banco por muito mais tempo, apesar de não haver nenhuma regra formal que o impeça. “Tenho que encontrar o que fazer depois dos 60”, diz, lembrando que sua expectativa é ter uma vida plena até os 80. (A inspiração vem do avô materno, empresário que, sempre preocupado com a saúde, frequentou o escritório até os 98 e morreu aos 102. O avô paterno, fundador da editora José Olympio, cuidava-se menos, mas não ficou tão atrás: viveu até os 87).

Interesses paralelos não faltam ao neto da prestigiada editora de livros clássicos. Com um acervo de mais de 1,2 mil obras, Pereira é assíduo promotor da arte moderna brasileira internamente e mundo afora. Preside a Pinacoteca de São Paulo, ocupa um assento no conselho do New Museum em Nova York e participa institucionalmente dos conselhos do MoMA, da Tate Modern e da Fundação Cartier. Tem também um interesse particular por animais (além de cachorros, cria em casa papagaios australianos e carpas japonesas), o que o motivou a ocupar um lugar no conselho da Fundação SOS Mata Atlântica.

Como conciliar tudo isso com a eletrizante vida de banqueiro de investimento? Dica número um: “Ter consciência de que a coisa mais escassa que se tem é o tempo”. Dica número dois: “Planejar a vida, em vez de deixar que ela te leve”. “Ser menos Zeca Pagodinho”, resume o banqueiro. “Acordo às 7 horas da manhã nos fins de semana, já com o dia planejado. Aí dá tempo de fazer ginástica, ler, estudar, visitar os lugares que quero. É uma questão de foco, entendeu?”

Pereira certamente já sabe, mas não dá muitas pistas, sobre o que mais estará no seu foco além das artes e dos bichos na aposentadoria. “Uma possibilidade talvez seja servir ao País de alguma forma. Tenho alguns amigos que se desiludiram com isso, outros que ainda acreditam. É algo que eu gostaria”, especula, sem dar muita corda ao assunto.A única certeza que crava é a de que não morrerá de tédio. “Tenho tantos interesses que precisaria de muitas vidas para dar conta de todos.” Será mesmo, José Olympio? Com tanta habilidade para ocupar bem o tempo, é possível que ele consiga atendê-los nessa vida mesmo.




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