“O mundo não vai ajudar o próximo presidente”, diz Tony Volpon

Economista-chefe da UBS analisa o cenário eleitoral e os desafios do Brasil para voltar a crescer

Bolsas e conjuntura/Papo Aberto / 17 de agosto de 2018
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Ilustração: Julia Padula

Quatro anos atrás, quando ainda era economista da corretora Nomura Securities em Nova York, Tony Volpon cunhou a ideia do “pragmatismo sob coação”. Diante da perspectiva de reeleição de Dilma Rousseff, num relatório datado de 22 de setembro de 2014, ele escreveu: “A visão otimista é que, uma vez encerrada a eleição, Rousseff saberá que precisa comprometer-se com os mercados e ser mais pragmática. Nossa visão atual é que, provavelmente, só veremos uma mudança real na política econômica em um segundo governo Dilma sob pressão substancial do mercado. (..). Chamaremos isso de ‘pragmatismo sob coação’.”

Hoje economista-chefe no Brasil da União de Bancos Suíços (UBS), Volpon observa que essa ideia ainda é válida. “É ruim, mas é a verdade”, lamenta. “Existem dois eleitorados no Brasil: o que deposita seu voto na urna a cada dois, quatro anos, e aquele formado por quem detém a dívida pública. Este é o mercado, que vota todo dia e pode tirar um presidente no meio do mandato.”

Não que a situação esteja tão ruim a ponto de algum “fundo abutre” americano entrar com um processo numa corte de Nova York e conseguir o arresto de um navio da Marinha, como aconteceu com a fragata argentina Libertad em 2012. Nem desembarcarão marines em Guarapari. “Ao contrário da Argentina, que tem 90% da dívida nas mãos de estrangeiros, por aqui esse mesmo percentual da dívida está nas mãos de brasileiros”, assinala o economista, que trabalhou no governo Dilma, como diretor de assuntos internacionais do BC e foi insistentemente acusado de “terrorismo financeiro” pelos correligionários da presidente. “Acho danoso que o mercado tenha tanto poder, mas isso é consequência da fragilidade fiscal crônica do País. Eu digo para o pessoal de esquerda: quer tirar o poder do mercado, diminua a dívida!”, comentou Volpon em conversa com a capital aberto no início de agosto, quando começou para valer a campanha presidencial de 2018.

Volpon observa que o cenário eleitoral deste ano é marcado por algumas particularidades: a polarização, a despeito da enorme fragmentação partidária; o uso de mídias sociais para publicidade; e um ambiente externo em que vicejam as vitórias de outsiders sobre candidatos e teses do establishment, como aconteceu nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na França, na Hungria e no México. “Olhando a conjuntura externa, você tende a dizer que [Jair] Bolsonaro é ‘o cara’. Do outro lado, [Geraldo] Alckmin se fortaleceu com a adesão do centrão; o mercado gostou, achando que importantes são a TV e o palanque, o dinheiro público e as coligações”, analisa. A questão é que, como Trump e o Lula histórico, de décadas atrás, Bolsonaro tem uma militância. “Ele tem aquele cara que fica num porão programando robôs para agitar as mídias sociais — e consegue isso de graça. Não sei se ele ganha neste ano. Mas acho que vai ser como o Lula, que perdeu três eleições até ser presidente”, avalia.

Diferentemente de qualquer outro pleito presidencial, o pano de fundo econômico é de uma lenta recuperação da recessão mais longa e profunda que o Brasil já enfrentou em tempos modernos. “Essa recessão veio depois de termos dobrado a relação crédito/PIB em pouco mais de dez anos. O que era o Brasil de 2010? Era o crescimento de 7,5%, o pré-sal, empresas e consumidores se endividando. O déficit em conta corrente, de 4,5%, foi o maior desde 1998. Em 2014, quando a recessão já tinha começado, mas ainda não tinha batido no emprego, o governo Dilma deu crédito barato para as empresas não demitirem. Foi um período de exuberância financeira, e depois dele veio a recessão. Isso explica a recuperação lenta e fraca. Empresas e indivíduos precisam saldar dívidas antes de partir para novas despesas”, disseca.

Embora tenha sido determinante para baixar a inflação e equilibrar a conta corrente, a grande recessão só fez piorar o lado fiscal . Com isso, levou a dívida do governo a escalar da casa dos 50% do PIB, sob Dilma, para pelo menos 75% na gestão Temer, tornando ainda mais imperativo o “pragmatismo sob coação” para o próximo presidente. “Quem quer que venha a se sentar na cadeira presidencial herdará essa dívida, com a expansão constante do déficit da Previdência, e terá que dar alguma resposta”, adverte Volpon.

A resposta pode ser via ajuste fiscal, com corte de gastos, aumento de impostos ou ambos, por aceleração da inflação ou repressão fiscal. O último caminho, escolhido por Fernando Collor em 1991 e pela Venezuela, Volpon entende ser muito remoto. “Disso não tenho medo.” Recorrer à inflação também não lhe parece viável. “Com certeza, vão fazer ajuste fiscal, ou não tem governabilidade.”

Na avaliação de Volpon, o ajuste pode ser bem feito e o País crescer 3% ou 4%. Ou pode-se fazer um ajuste ruim, que resulte em 1% ou 2%. Para um crescimento duradouro, de longo prazo, o economista acredita serem fundamentais reformas de caráter microeconômico que incrementem a produtividade — como as que o governo Temer encetava até a crise gerada pela gravação da conversa do presidente com o dono do frigorífico JBS, Joesley Batista, encerrar prematuramente seu governo em maio de 2017.

Uma forma benéfica de ajuste fiscal seria extirpar os créditos tributários e a guerra fiscal entre estados, que implicam gastos com subsídios — os quais beneficiam os mais ricos — e, pior ainda, acarretam má alocação de capital. “O empresário quer montar uma fábrica em São Paulo, onde tem mercado, mão de obra qualificada, insumos próximos. Mas recebe um crédito tributário para fazer a fábrica num outro estado, onde será menos produtiva. Aí, só funciona com proteção, com reserva de mercado, e com subsídios. É como se fez computadores no Brasil nos anos 1970/80, com a Lei da Informática. O cara que fazia os computadores ganhou, mas a sociedade toda perdeu, com a má tecnologia, com o computador ruim”, ressalta Volpon. “É um erro dos reformistas não explicar que reformas desse tipo [acabar com crédito tributário] aumentam o crescimento econômico. Ficamos numa briga de soma zero, na qual em vez de se distribuir riqueza, distribui-se pobreza!”

Volpon admite que uma estratégia de ajustes gradualista é mais politicamente palatável. Só que o nível da dívida pública nas alturas, tendente a crescer ainda mais nos próximos anos, deixa o Brasil mais exposto a choques, sejam internos (como a crise da JBS) ou externos, como a súbita alta do dólar nos mercados mundiais a partir de abril deste ano. A mudança no cenário internacional, que no início do ano parecia benigno e favorecia o corte dos juros, é um dos fatores que levam o UBS a ser o único banco a antever ainda em 2018 uma alta da Selic. “A incerteza eleitoral também tende a pressionar o câmbio. Isso multiplica as pressões que estamos vendo na inflação”, explica.

Os rumos do cenário externo, que não parecem ser dos melhores no médio prazo, preocupam Volpon. “Os Estados Unidos estão crescendo a 4% ao ano, com taxa de desemprego de 4%. É bom demais! Está com cara de too hot. Já se fala em recessão em 2020. A China está desacelerando fortemente, e existe a guerra comercial. Há um ajuste em curso. E o Brasil tem duas vulnerabilidades, que vêm de muito tempo: depende da liquidez nos Estados Unidos e da demanda de commodities da China”, alerta Volpon. “As duas caminham em direções opostas: o juro americano está subindo e a economia chinesa, desaquecendo. É ruim, não é péssimo. Mas o mundo não vai ajudar como ajudou o Lula e também o Temer. Ao contrário, assim como ferrou a Dilma, pode ferrar o próximo presidente.”




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Tags:  Tony Volpon União de Bancos Suíços (UBS) Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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