“É melhor torcer a favor”

Guilherme Affonso Ferreira

Papo Aberto/Edição 146 / 1 de novembro de 2015
Por 


Ilustração: Eric Peleias

Ilustração: Eric Peleias

O Brasil fica em melhor forma aos olhos do investidor Guilherme Affonso Ferreira. Ativista entusiasmado com a ideia de recuperar empresas, ele se define como “um otimista, quando comparado aos pessimistas”. “Tem coisas boas acontecendo e as pessoas não notam. A produção de alimentos sempre foi importante para a humanidade, mas nós acabamos de registrar a melhor safra da história do Brasil e ninguém dá bola para isso”, indigna-se, em referência à colheita brasileira de grãos de 2014 e 2015, alçada a 209,5 milhões de toneladas graças a investimentos em produtividade. Para ele, o desânimo com o País é muito mais sério do que seus problemas estruturais. E a crise, lembra, vai acabar. “Não há rio que não deságue no mar. Nosso País é muito rico para a gente desperdiçar desse jeito.”

Ferreira não desperdiça o Brasil. Como gestor do fundo Teorema — que abriga recursos herdados da família e por ele multiplicados nas últimas décadas —, está livre das pressões de clientes por resultado e apto a insistir no País. O momento é propício, ele diz. Vários fundos de ações reduziram substancialmente a exposição à bolsa de valores para aplicar a fatia autorizada pelo regulador (um terço do patrimônio) em títulos atrelados à formidável taxa Selic, hoje de 14,25% ao ano. “Assim que tiver um sinalzinho de melhora, eles vão voltar com tudo para a bolsa”, prevê. Enquanto isso, oportunidades brotam nas vistas de Ferreira. “Hoje, você compra Itaú como se fosse um banquinho qualquer. A bolsa, no geral, não está barata, mas dá para comprar ‘terreno prime’ a preço de metro quadrado normal.”

Há mais ou menos quatro anos, ele tinha outra visão. Olhava para o mercado acionário brasileiro e achava tudo caro. Foi quando resolveu desistir, em parte, do Brasil. Criou um fundo com habilitação para investir no exterior e despejou nele 15% dos recursos do Teorema. Escolheu coisas “que não precisavam de muito esforço para serem entendidas” — Johnson & Johnson, Caterpillar e mais três ou quatro posições, “todas certinhas”. Naquela época, o indício de que os preços na bolsa local estavam salgados era o fato de ela ter alcançado múltiplos parecidos com os de empresas americanas, mas com um detalhe: “O múltiplo brasileiro estava em cima de um dos melhores anos da história do País, e o dos Estados Unidos, sobre um dos piores”, recorda. A estratégia foi um sucesso. A bolsa brasileira caiu mais de 30% desde o início de 2011, enquanto o S&P subiu mais de 60%. Os 15% investidos na época viraram 65%.

A aposta na América parou de evoluir no início deste ano, quando os “terrenos prime” a preço de liquidação pipocaram aqui. Ferreira não conseguiria desperdiçá-los. “Comecei a voltar. Mas, às vezes, confesso, me arrependo, porque as cotações continuam caindo”, observa, aos risos. Nesse cenário, não seria uma opção operar com derivativos que apostam na queda dos preços ou usá-los para proteger a exposição à bolsa? Nem pensar. “Sempre achei muito melhor e mais fácil torcer a favor”, enfatiza.

“Se houver alguma chance de mudarmos a Petrobras, nunca estivemos tão próximos”

Além das barganhas, ele busca com lupa boas companhias focadas no mercado interno — “as exportadoras já estão valorizadas demais.”. Encontrou M.Dias Branco, “uma senhora empresa, mais brasileira impossível”. Fez um investimento em agronegócio, decisão que define como “macroeconômica”: “Aconteça o que acontecer no mundo, o Brasil vai ser importante nessa área”.

A volta ao País, “aos poucos”, reafirma o estilo desse investidor que começou a comprar participações minoritárias em empresas abertas nos anos 1980. A missão lhe fora delegada pelo pai, naquela época interessado em rentabilizar o volumoso caixa gerado por sua revendedora de máquinas e tratores Caterpillar. Afrânio Affonso Ferreira educou Guilherme dizendo que, acima de tudo, era preciso acreditar no Brasil. “Para o meu pai, quem comprasse dólar era ladrão, roubava a pátria”, rememora.

Ferreira expressa sua crença no País investindo em empresas com ações a preços baixos, que possam ter seus negócios reformados — de preferência, com a colaboração dele. Conquistou participações relevantes em companhias e, com elas, assentos em conselhos — em 2011, participava de nove ao mesmo tempo. Um dos exemplos mais recentes da sua atuação é a Gafisa, na qual, ao lado de acionistas como Polo, Funcef e BNDES, batalhou para colocar de pé uma estratégia de reformulação. Este ano, a construtora voltou a exibir resultado positivo — reverteu o prejuízo de R$ 40,6 milhões do primeiro semestre de 2014 para um lucro de R$ 60,1 milhões este ano. “Fizemos o que precisava ser feito e já percorremos mais da metade do caminho. Pena que os preços dos imóveis caíram. Quando o mercado tiver uma pequena melhora, pode ter certeza, ela vai se sair muito bem.”

Gafisa, provavelmente, seria uma das últimas grandes reformas empreendidas por Ferreira. Já próximo dos 65 anos, ele decidiu limitar sua dedicação a cinco conselhos, todos de empresas arrumadas: além de Gafisa, Arezzo, Time for Fun, SulAmérica e Valid — esta última, um xodó: “Valid é um caso de ouro. Impressionante como ela acerta”. O sossego planejado, porém, durou pouco. Desgastados pelas numerosas brigas que travaram no conselho da Petrobras, José Guimarães Monforte e Mauro Cunha, indicado pelos acionistas minoritários ao colegiado, resolveram passar o bastão — e ligaram para Guilherme. Em 29 de abril, “depois de consultar meio mundo e ouvir as mais opostas opiniões”, Ferreira tomou posse no board da petroleira, eleito pelos preferencialistas. “Era uma chance imperdível para quem sempre gostou de casos complicados”, reconhece. A eleição foi parte de uma ampla renovação do conselho promovida pela companhia com o intuito de ganhar credibilidade.

Suas primeiras impressões foram animadoras. Acompanhado de nomes de reputação, como o CEO da Vale, Murilo Ferreira (que pediu licença do conselho em setembro), e o professor de contabilidade Nelson Carvalho, enxergou espaço verdadeiro para mudanças. “Se houver alguma chance de mudarmos essa companhia, nunca estivemos tão próximos.” Ele adverte, contudo, que as transformações precisam acontecer rápido, sob pena de movimentos favoráveis à privatização ganharem força antes de o negócio se recuperar. “Começam a despontar visões nesse sentido, mesmo nos sindicatos”, revela. Ferreira teme reações precipitadas — embora seja totalmente favorável à venda de áreas menos estratégicas, como refino e distribuição, defende que ela ocorra na hora certa. “É bom lembrar que certos rompimentos acontecem na calada da noite. O Muro de Berlim não caiu aos poucos.” Hoje, o Teorema não tem ações da Petrobras.

E seria a hora de começar a investir nelas, Guilherme? Por enquanto, ele prefere aguardar a lição de casa que prescreve à companhia, recitada na ponta da língua: reajustar os preços dos combustíveis como uma empresa capitalista faria; calibrar o programa de investimentos para que ele seja o mínimo necessário; e então começar a reduzir a dívida (de estrondosos US$ 134 bilhões, em junho de 2015). Se tudo isso for feito, a companhia voltará a respirar. “Mas nada em menos de cinco anos.”




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