Alexandre Fialho: “Modelos de cultura organizacional estão falidos”

Entusiasta da Filosofia aplicada ao mundo corporativo, consultor defende ações mais afastadas dos aspectos cognitivos e racionais

Companhias abertas/Papo Aberto / 19 de junho de 2019
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Ilustração de Alexandre Fialho

Alexandre Fialho | Ilustração: Júlia Padula

Jair Bolsonaro e Donald Trump, os reis dos posts de gosto e veracidade duvidosos no Twitter, por incrível que pareça foram eleitos e continuam sendo adorados por seus seguidores exatamente por serem genuinamente tacanhos. Não são nem prepostos, como alguns viam Fernando Haddad, nem protocolares, como Barack Obama. A peculiar observação é do conselheiro de empresas e fundador da consultoria Filosofia Organizacional, Alexandre Fialho. Em plena era das fake news, existe um paradoxal apego das pessoas à ideia de autenticidade. “Os eleitores, particularmente no Brasil, transmitiram uma importante mensagem: preferimos um Bolsonaro tosco, mas genuíno, a uma falsidade”, analisa Fialho, que usa conceitos filosóficos para oferecer às empresas e a seus dirigentes uma visão mais ampla do panorama social e político deste início de século.

Especialista em Nietzsche e em pós-modernidade, ele sustenta que o mundo contemporâneo vive um momento em que a genuinidade, uma força do campo filosófico da estética, vai conquistando espaço, inclusive quando se trata de questões éticas. “A genuinidade é hoje um elemento de valor: as pessoas preferem alguém autêntico e imperfeito, que não dê a ideia de algo ‘plástico’, montado. Tem um lado bom, já que as imperfeições são portas para ampliação de diálogos”, assinala Fialho.

A mudança não está circunscrita à política: chega às cúpulas das empresas — os conselhos de administração. A era é de conflito de valores. Princípios antes considerados imutáveis, pétreos — “metafísicos”, adjetiva Fialho — são questionados por uma nova ordem social. O conflito é inevitável, à medida que o “velho” quer continuar criando parâmetros comportamentais corporativos enquanto uma nova corrente prega que aspectos adicionais devem ser considerados. “Me parece que, de maneira geral, os modelos de cultura organizacional estão falidos”, avalia. Para Fialho, é hora de as empresas incorporarem a ideia de que existe uma dimensão para além do tangível, do concreto. “Quando se trata do que é intangível, não é possível enunciar; valem mais as vivências, o saborear das experiências. Acredito que uma grande falha em termos de cultura organizacional nos últimos tempos foi a segregação da estética — que é da ordem das sensações — da ética, normalmente associada com fatores racionais.” Em sua leitura, Fialho está amparado pela neurociência e pelos estudos de finanças comportamentais, áreas do conhecimento que já constataram serem as decisões humanas muito menos racionais do que se gosta de admitir.


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Com base em suas experiências no mundo corporativo, tanto como executivo (Medley, Grupo Vera Cruz) quanto como consultor (foi também presidente para América Latina e global head de transformação organizacional da Korn Ferry), Fialho chegou a três agendas que, em maior ou menor grau, formam o desafio de qualquer CEO: a executiva, a empresarial e a empreendedora. A primeira é a agenda tradicional, do executivo padrão; a segunda incorpora a inovação (aqui entendida não como uma ruptura da realidade, mas como novos arranjos dentro de uma realidade dada); a terceira, assim como a agenda empresarial, inclui aspectos não racionais, não cognitivos, que permitem aos indivíduos sair da mesmice e pensar em novos arranjos ou negócios.

“Quando Jorge Paulo Lemann [sócio da 3G Capital, antes exemplo de gestão bem-sucedida e hoje questionada por seu apego a corte de custos acima de tudo] disse ‘viramos dinossauros’, é a pura verdade! Ele percebeu o esgotamento de uma agenda executiva brilhante — brilhante de fato, mas apenas executiva. Não incluía novos arranjos, inovação ou ruptura da normalidade”, afirma Fialho, para reforçar a pertinência de seu modelo de agendas. O que vale na nova ordem é ser ousado do ponto de vista estético, com ações mais afastadas dos aspectos cognitivos e racionais. Fialho cita um exemplo do que está falando: Steve Jobs, a mente sensível que criou o iPhone. “As pessoas que criticaram seu projeto de telefone não entenderam que ele não estava fazendo um telefone: estava inventando o smartphone!”.

“Ele [Jorge Paulo Lemann] percebeu o esgotamento de uma agenda executiva brilhante — brilhante de fato, mas apenas executiva. Não incluía novos arranjos, inovação ou ruptura da normalidade.”

Fialho relata que dos quase 50 profissionais para quem fez mentoria nos últimos dez anos — da passagem pela Korn Ferry à fundação da Filosofia Organizacional — todos apresentaram muita dificuldade para lidar com essas três agendas de maneira confortável e plena. Por um motivo simples: independentemente de serem “banqueiros” ou “bancários” — forma prosaica que escolheu para segmentar acionistas controladores e executivos —, essas pessoas chegaram ao topo por serem exímios executivos, guiados pelo mantra da superioridade da agenda executiva. “O problema é que, quando eles chegam ao topo, veem que aquela agenda é a menos importante — para a empresa, não para eles.” Notam, observa Fialho, que comando tem muito mais a ver com a função de um maestro do que a de um músico da orquestra, que de fato executa a partitura.

A superação desse desconforto implica o recurso a um conhecimento não cognitivo, que ele identifica com o campo da estética; consiste mais na fruição que na estruturação. Ao apresentar esse caminho aos executivos, Fialho toma o cuidado de mostrar que não se trata de mera hipótese filosófica ou empírica; lembra que a neurociência a cada dia obtém mais provas da existência de um pensar não racional, firmemente presente mesmo na elaboração de decisões importantes. Mas, como ciência (racional, portanto), esse campo do conhecimento pode não ser tão eficaz na transmissão dessas descobertas. É aí que entra a Filosofia, ciência humana com ferramentas suficientes para fazer um CEO em crise entender que o não cognitivo não é sinônimo de irracionalidade. “A Filosofia mostra a racionalidade criativa de um artista, de um Steve Jobs, dos empreendedores empresários, as sacadas… Se aceita essa nova visão, o executivo percebe que a inovação está muito mais ligada com novos modelos de negócios do que com aprimoramento de processos.”

É na prática que o uso da ferramenta filosófica da estética na consultoria corporativa fica mais clara. Para Fialho, nada melhor que a arte para apresentar essa dimensão menos estruturada da cognição — afinal, de algumas coisas a fala e a escrita podem não dar conta. “Eu levo os CEOs, as lideranças ao MAC e ao MAM [Museu de Arte Contemporânea e Museu de Arte Moderna, ambos na capital paulista] e a Inhotim [museu a céu aberto de esculturas e instalações na região metropolitana de Belo Horizonte], conta Fialho. “Quando levo os executivos aos museus logo aviso que não escolhi as obras a serem observadas considerando padrões tradicionais. A ideia é apresentar e analisar aquelas que abrem mais possibilidades para o diálogo estético que proponho”, explica. “Tem uma frase de Rubem Alves que brilhantemente resume o que eu faço. Ele diz: ‘saber é sabor’. Sem prazer não se absorve profundamente o que está sendo proposto. Isso é que é transformador.”

“A inovação está muito mais ligada com novos modelos de negócios do que com aprimoramento de processos.”

O caminho escolhido por Fialho para as consultorias, embora inusitado, não abandona os aspectos mais racionais da ética — até porque, ressalta, a ética no mundo contemporâneo exige uma subjetividade que vai além de regras e de legalidade. São didáticas, nesse sentido, as recentes tragédias dos rompimentos de barragens de resíduos de mineração no Brasil. E Fialho conhece de perto as empresas envolvidas: acompanhou a sucessão do CEO da Samarco na época do acidente, Ricardo Vezcovi, e tem contatos pessoais na Vale (familiares de sua esposa trabalharam na companhia, incluindo um ex-presidente).

Segundo Fialho, tempos atrás a Vale exigia, nos contratos de locação de carros, a inclusão de seguros de vida para os ocupantes. Obviamente, esse adicional encarecia as locações, o que ao longo do tempo acabou levando os contratos ao modelo padrão, sem o seguro de vida. “Ou seja, a segurança da Vale passou a ser protocolar, racional; saiu do campo da fruição”. O preço da decisão é amplamente conhecido. Símbolo claro do custo de abandonar a riqueza do que não se vê em nome da frieza da simples racionalidade.


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Tags:  Vale conselho de administração filosofia ética inovação finanças comportamentais Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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