A elite precisa se engajar

Sócio-fundador da Tarpon Eduardo Mufarej fala sobre o instituto Renova BR

Papo Aberto / 25 de março de 2018
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Ilustração: Eric Peleias

Ilustração: Eric Peleias

A vinda no primeiro semestre de 2017, o sócio-fundador da Tarpon Eduardo Mufarej começou a pensar sobre seu futuro no comando da Somos Educação, grupo que reúne escolas, sistemas de ensino e editoras. O ciclo de três anos na presidência da bem-sucedida investida da gestora de recursos terminaria em outubro daquele mesmo ano. Ele poderia se habilitar para continuar no posto, mas preferiu atender a um chamado que lhe soava alto e urgente: a falência da política pública no Brasil. Estimulado desde cedo às reflexões sobre o tema — sua mãe, professora de ensino da rede pública, militou na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) —, ele tomou a decisão: era a hora de fazer algo pelo País.

Na mira do seu desejo de mudança está a crise de representação da sociedade brasileira. “A omissão da elite já custou caro demais ao País. Não dá para esperar que alguém que luta por um prato de comida mude essa situação”, provoca. Após uma conversa com Pedro Faria e José Carlos Magalhães, seus sócios na Tarpon, ganhou o apoio de que precisava. Fora os espaços reservados aos conselhos da Tarpon e da Somos Educação, sua agenda neste ano estará totalmente dedicada ao Renova BR, instituto idealizado por Mufarej para funcionar como uma espécie de incubadora de lideranças para o setor público. Seu propósito reflete-se com clareza no manifesto da organização: ressignificar a política no Brasil a partir da renovação da Câmara dos Deputados. Ambicioso, sem dúvida. Mas por que não?

Mufarej bateu à porta dos amigos para mostrar o projeto: oferecer bolsas de estudos e um programa de educação para interessados em ocupar uma vaga de deputado federal. Na base dos problemas da política brasileira, ele observa, está a enorme barreira de entrada a novos nomes no Legislativo. A decisão de prestar um serviço público não é nada óbvia para a elite no Brasil. Ao contrário, ela tende a ser desestimulada já dentro de casa, por famílias que enxergam a colaboração com a política como algo exótico. “Temos uma realidade completamente diferente da observada no Chile, por exemplo. Lá as pessoas com boa renda incentivam seus filhos a prestar serviço público por certo período”, compara o gestor.

A lei que acabou com o financiamento de empresas a campanhas políticas torna essa questão ainda mais crítica, ao seu ver. Mais uma razão para as elites começarem logo a contribuir financeiramente para o ingresso dos seus escolhidos. Caso contrário, ele analisa, a tendência é que a nova regra contribua para que os nomes conhecidos se preservem no poder. A advertência foi feita pelo investidor em evento promovido pelo banco Credit Suisse em janeiro, no qual Mufarej dividiu a mesa com o ex-presidente do Santander Fabio Barbosa para falar sobre renovação política a uma numerosa plateia de interessados.

Ao buscar apoio para colocar o Renova BR de pé, Mufarej conseguiu a chancela — e os recursos — de nomes famosos como Arminio Fraga, Abilio Diniz e Luciano Huck. E continua passando o chapéu (os montantes levantados e a lista dos doadores só serão revelados no segundo trimestre, informa). O instituto já tem ao menos uma dezena de colaboradores fixos e cerca de 150 voluntários que auxiliam de diversas formas.

O processo seletivo começou em outubro, animado pelo interesse de cerca de 4 mil candidatos. Os pilares do recrutamento foram características como potencial de liderança, resiliência e ética — esta última medida em testes de comportamento que simulavam dilemas e avaliavam as reações dos candidatos. Depois de um mês de provas e avaliações, cem alunos foram aprovados — e, em breve, o Renova BR espera recrutar mais 50. Nas contas de Mufarej, está previsto um total de 200 mil reais por bolsista — recurso destinado ao programa em si e à subsistência do aluno durante os seis meses de preparação.

A formação está dividida em quatro partes: liderança e autoconhecimento; desafios do Brasil; linhas temáticas por áreas de interesse; e marketing político, papel do Estado e atividade legislativa. O primeiro módulo aconteceu ao longo de duas semanas em janeiro e foi ministrado por economistas como Fabio Giambiagi e Marcos Lisboa. Na próxima etapa, Eduardo Giannetti da Fonseca, também economista, é esperado entre os professores. “Buscamos pessoas que tenham visão convergente; não queremos tirar a média de nada. Quem acha que a solução é a intervenção militar ou que a Venezuela é um bom modelo de Estado não pode estar no programa”, pontifica. Ser uma “mesa de centro” na linha que divide os ideais de esquerda e direita é uma premissa do Renova BR. Conjugar liberdades individuais com inclusão de minorias, responsabilidade fiscal, gestão sustentável dos recursos naturais, combate à corrupção e igualdade de acesso a serviços essenciais são alguns dos princípios envolvidos no projeto.

Cerca de metade dos bolsistas é filiada a algum partido político, mas o espectro é variado. Legendas como Rede e Livres têm bom número de membros, entre partidos como PSL, PDT e PSDB. “Queremos que o Renova seja um reflexo do Brasil, e não o estereótipo da visão do mercado [financeiro]”, afirma. Filiados do PT e do PMDB não fazem parte do grupo. Vários jovens e alguns cabelos brancos estão entre os alunos, cuja idade média é de 36 anos. “Temos pessoas maravilhosas entre os bolsistas. Gente que poderia estar trabalhando em qualquer negócio, mas, ao contrário, está disposta a servir o País. Nosso papel é fazer com que eles não desistam”, entusiasma-se.

As eleições de 2018 foram a motivação de Mufarej, mas ele não se ilude com o prognóstico. Questionado sobre as chances reais de uma renovação do legislativo ainda neste ano, ele é categórico: “Muito pequenas”. O desafio é levar o tema da renovação política à mesa de jantar das pessoas — embora ideal mesmo fosse algo como um “Diretas Já” pela renovação, reconhece o investidor. O tempo curto da campanha eleitoral — apenas 45 dias — tampouco favorece. Para piorar, a crise financeira dos últimos três anos tende a tornar a população ainda mais vulnerável às trocas de favores com políticos, alerta Mufarej.

Na eleição para a Presidência da República, o cenário lhe é mais turvo. A esquerda tem de encontrar seu caminho, o centro não tem um nome e há pouco tempo para alguém novo e forte se estabelecer, analisa. Seria ele mesmo um candidato à vaga? Mufarej refuta a ideia, dizendo não ver sentido nessa hipótese. “Sirvo melhor o País viabilizando as pessoas”, afirmou em entrevista a um canal de televisão.

O interesse de Mufarej em atuar para além da Tarpon não começou com o Renova BR. Desde 2013 ele preside a Confederação Nacional de Rúgbi — esporte que diz ter praticado “um pouco” na escola. A motivação é menos a paixão pelo rúgbi e mais a oportunidade de torná-lo um agente de influência sobre o esporte no Brasil. No comando da entidade, ele implementou práticas de governança e métricas de avaliação de desempenho e remuneração, a exemplo do que a Tarpon faz dentro de casa e nas investidas. Há poucos anos, compara, o rúgbi era muito parecido com o Renova BR no estágio atual — “um bando de jogadores que vestiam a camisa do Brasil e não tinham como pagar o uniforme”. Seu trabalho para promover os atletas começou com a formação de um grupo de apoio, depois virou uma confederação e, nos últimos três anos, transformou-se na “melhor instituição esportiva do Brasil” — ele garante, orgulhoso. “Sempre tive esse jeito de não esperar que façam as coisas por mim. Da praça ao lado da minha casa até o problema político nacional, tenho o impulso de querer fazer algo para ajudar”, destaca o gestor.

A desconexão entre essas atividades e a Tarpon é bem menor do que pode parecer à primeira vista. “A destruição de valor causada por uma eleição errada é gigantesca”, avalia Mufarej. “Os valores de imóveis e empresas despencam, o custo do dinheiro sobe. Basta olhar quanto valia um apartamento de quatro quartos em Caracas alguns anos atrás.” A cena política configura, essencialmente, um aspecto crucial para o valor dos ativos, o que enseja a pergunta: “Qual será o valor do equity num país estável e produtivo?” Mufarej sonha não demorar muito para saber a resposta.




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