Recalculando as projeções para a economia

Realidade dissolveu o otimismo das previsões econômicas feitas no início do ano

Bolsas e conjuntura/Opinião / 19 de julho de 2019
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Gabriel Galípolo | Ilustração: Julia Padula

A economia é um sistema complexo, entre outros motivos porque o todo não pode ser deduzido das partes individuais. Ela exige a investigação do comportamento macro decorrente da interação entre os elementos do sistema, comportamento futuro que é desconhecido e imprevisível. Por essa complexidade, muitas vezes as projeções dos economistas se comportam como os aplicativos de trânsito, que recalculam sua expectativa inicial de tempo de viagem a cada engarrafamento encontrado na jornada, tornando-se mais confiável a poucos metros do destino. “Predição é muito difícil, especialmente se for sobre o futuro”, diria o físico dinamarquês Niels Bohr.

Atualmente, as revisões das opiniões de mercado gravitam em direção a um desempenho econômico menos exuberante do que o esperado no começo do ano. O Relatório Focus, que projetava o crescimento do PIB superior a 2,5% em janeiro de 2019, teve suas expectativas rebaixadas para menos de 1% ainda em meados de junho. A frustração das expectativas sugere consequências, sendo a mais intuitiva relacionada à Selic: os 7% esperados em janeiro foram rebaixados em meados de junho para 5,75%.

A confiança na inflação como indicador principal dos desvios do produto potencial é a pedra angular das estimativas do hiato do produto: se há fortes tensões inflacionárias, a economia está sendo pressionada a crescer acima do produto potencial. Se há desinflação, está crescendo abaixo.

É possível se engalfinhar em debates e concursos de modelos econômicos para se determinar qual seria a taxa de juros neutra da economia brasileira, mas as últimas medições do seu desempenho e os índices de preço sugerem, com relativo grau de segurança, um nível inferior a 6,5%, principalmente pela velocidade e direção em relação ao alvo, que parece ter se distanciado nos últimos meses.

O Brasil talvez esteja em um cenário sem precedentes de alívio nas tensões que pressionaram suas taxas de juros para cima, de praticamente todas as perspectivas que possam influenciá-la. A grande ociosidade dos meios de produção arrefeceu a pressão nos núcleos de inflação, principal componente na condução da política monetária. Em diversos setores talvez sejam necessários mais três ou quatro anos para que se retome os níveis de produção de 2014.

Durante os últimos anos, diversos analistas ressaltaram que os juros só podem ser reduzidos “de forma sustentável” a partir de melhores expectativas para o cenário fiscal do País, o que dependeria fundamentalmente da reforma da previdência. Ela parece nunca ter estado tão perto, sua necessidade transformou-se praticamente em consenso nos principais canais de mídia e desponta como principal agenda da equipe econômica do governo e do presidente da Câmara. O debate hoje se concentra muito mais quanto à sua magnitude do que, efetivamente, se ela ocorrerá.

Por fim, parece afastado o receio de recrudescimento das políticas monetárias pelas principais autoridades monetárias mundiais, antes anunciadas como “normalização dos balanços dos bancos centrais”, entulhados dos ativos comprados para sustar a desvalorização decorrente da crise de 2008 e o subsequente baixo dinamismo das economias centrais.


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Novo arranjo

O cenário econômico mundial de juros baixos (ou negativos), com baixa inflação de bens e serviços, mas preços de ativos valorizados, corresponde, principalmente, a alterações no arranjo econômico global acentuadas no início do novo milênio.
Essa nova realidade de relaxamento da liquidez internacional é muito diversa do ambiente em que a economia brasileira se movimentou no século passado.
Ainda que todas as variáveis apontem na direção de redução da Selic, é improvável que isoladamente tal medida tenha o condão de reaquecer a economia. Sem a melhora na saúde financeira das empresas, a ampliação da liquidez pode desembocar na clássica elevação do apetite a risco dos agentes econômicos, que costuma apresentar resultados tão conhecidos quanto desagradáveis quando expressa em simples relaxamento do rigor na análise dos ativos.

Apostas incertas

O Banco Central detém a função de coordenar as expectativas privadas que governam as decisões dos investidores. A confiança é um fenômeno coletivo e social. A produção de bens e serviços e a negociação de ativos são apostas em condições de incerteza. A confiança dos apostadores está alicerçada na suposição de que serão respeitadas as regras que garantem a “credibilidade” do padrão monetário. Isso significa, fundamentalmente, imaginar que a instituição encarregada de garantir a confiança hierárquica, a soberania da moeda, seja capaz de estabelecer limites adequados — bastante variáveis ao longo da história — às pretensões de refinanciamento das posições devedoras que sustentam a posse de bens e serviços rejeitados pelo mercado ou de ativos “desvalorizados” ou ilíquidos.

Por outro lado, para que o investidor continue investindo é necessário que exista uma expectativa de que seus produtos encontrem demanda. Será então acerca das especulações sobre essa conjuntura futura que se dará ou não a decisão de investir. Entretanto, na complexa interação dos elementos do sistema, é a própria decisão de investir que determinará a demanda por máquinas, equipamentos, mão de obra e matéria-prima, e os níveis de renda e emprego da sociedade. O destino desta economia depende da decisão de gastar, investir e se endividar dos investidores. A complexidade reside no fato de essa decisão nem sempre se dar de forma a gerar a melhor renda e emprego para a sociedade.

Essa liquidez disponível às empresas, provocada pelo aumento do apetite a risco relacionado à busca por maiores prêmios — seja na concessão de crédito ou na compra de ativos — só se reverterá em crescimento econômico na existência de projetos capazes de endereçar esses recursos em áreas como infraestrutura e inovação tecnológica, permitindo não apenas reduzir o desemprego, mas garantir a geração de renda necessária à estabilidade do sistema.

Essa é a difícil mediação esperada das autoridades monetárias: não permitir níveis de alavancagem temerários à estabilidade do sistema financeiro, mas inibir a elevação da preferência pela liquidez em patamares que inviabilizem o pleno emprego.


Gabriel Galípolo (ggalipolo@fator.com.br) é presidente do Banco Fator


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