Uma bolha excêntrica

No século 17, enquanto conquistava o nordeste brasileiro, a Holanda viveu a Bolha das Tulipas, a primeira da história

Histórias/Edição 138 / 1 de fevereiro de 2015
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uma-bolha-excentricaFevereiro de 1637 marca a perfuração do primeiro grande movimento especulativo da Idade Moderna. Um acontecimento inusitado e pitoresco, denominado Bolha das Tulipas. Como não podia deixar de ser, aconteceu na Holanda, pátria do capitalismo. O mercado financeiro ainda não estava largamente desenvolvido.

Já existiam, desde 1621, as ações da Companhia das Índias Ocidentais, mas não havia muitos outros instrumentos para captação de poupanças. Foi o combate entre Holanda e Espanha, de cujo império Portugal e Brasil então eram partes, pelo comando do mercado açucareiro mundial que levou à criação, em 1621, daquela companhia em Amsterdã. A empresa gozava de monopólio outorgado pelo governo holandês para comércio, pirataria, tráfico de escravos e navegação em ambas as margens do Atlântico.

Mas o objetivo maior era a produção de açúcar do nordeste brasileiro. Apenas três anos depois de constituída, em 1624, uma frota e tropas suas invadiam a cidade de Salvador, ocupando-a por cerca de um ano. Rechaçadas, retornaram em 1630 conquistando Pernambuco e expandindo seus domínios até Alagoas, ao sul, e Maranhão, ao norte. Os holandeses ocuparam a região por quase um quarto de século, até serem finalmente expulsos em 1654.

Curioso é que, apesar de a Holanda ter sido o berço do moderno capitalismo financeiro, da negociação de títulos e commodities em bolsa, ainda no século XVI, não projetou a criação de instituições, ou instrumentos, de mercado de capitais na colônia brasileira. A não ser a cunhagem de florins em formato losangular, que mal auxiliaram a circulação monetária na região.

Desde a década de 1620, no entanto, o hábito de colecionar tulipas, e a valorização dos bulbos das flores, havia se transformado na primeira e mais exótica das bolhas especulativas da história. No apogeu da histeria negociavam-se contratos para entrega futura de tulipas, cujo vencimento seria na primavera de 1637, o trimestre entre março e
maio seguintes.

O príncipe Maurício de Nassau, erudito e progressista, desembarcou em território pernambucano para comandar a segunda invasão holandesa, em 23 de janeiro de 1637. Faltavam dois meses para a liquidação dos contratos futuros. Subitamente, dez dias depois de sua chegada ao Brasil, em 3 de fevereiro daquele ano, o mercado de tulipas entrou em colapso. Preços desabaram, compradores desapareceram, contratos não foram honrados, ações judiciais entulharam as cortes, fortunas desapareceram e a economia holandesa sofreu sério impacto, que perdurou anos. As notícias não devem ter tardado a chegar ao Recife. Decerto, qualquer hipótese de criar no Brasil um mercado financeiro razoavelmente organizado, como seria de supor, deve ter sido arquivada face aos abalos, dificuldades e dramas vividos na metrópole.

Montagem com fotos extraídas da Wikipédia.




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