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O preço da inovação é não ter medo de errar

Ilustração: Rodrigo Auada

Inovação é palavra de ordem no mundo dos negócios. Para inovar, é preciso criar uma cultura na qual as pessoas se sintam seguras para experimentar e, inevitavelmente, errar. Como os erros são parte integral de qualquer processo de aprendizado, parece óbvio que as empresas tenham interesse em desenvolver ambientes em que os insucessos sejam aceitos e até encorajados.

Na maioria das empresas, contudo, isso ainda é uma realidade distante. Ainda vigora uma mentalidade da era industrial, de repetição de atividades e conformidade de comportamentos

Além de gerar um ambiente menos criativo e mais estressante, há um impacto sobre a ética: quando se trabalha em uma organização em que errar não é permitido, os erros simplesmente tendem a ser menos reportados. Essa foi a conclusão da professora de Harvard Amy Edmondson. Após analisar diversos hospitais, ela se surpreendeu ao constatar que as equipes nas quais havia melhor relacionamento pessoal cometiam mais erros. Decidida a investigar, descobriu o que acontecia: as pessoas dessas equipes se sentiam mais seguras para reportar seus erros e discutir maneiras de preveni-los, enquanto as pessoas das outras equipes ocultavam os erros com medo de serem punidas.

Quando não há segurança psicológica, portanto, as pessoas ficam mais propensas a silenciar sobre seus erros e a encobrir as falhas uns dos outros. Isso leva a uma cultura de autopreservação do status quo que faz com que mecanismos como os canais de denúncia sejam menos utilizados e os erros se repitam, ou até aumentem.

Uma das coisas que diferenciam as empresas mais inovadoras e éticas das demais é sua atitude em relação a erros e insucessos. Em vez de serem vistos como mal a ser evitado a todo custo, são entendidos como parte do aprendizado na busca da excelência. Essas empresas sabem que os fracassos não são binários, já que sempre se pode extrair algo útil deles. Esse é o seu segredo oculto: elas simplesmente experimentam, erram, refletem e, assim, aprendem mais do que as demais.

Em casos extremos, como o da multinacional americana de materiais W.L. Gore, os projetos que não dão certo são até celebrados com cerveja ou champagne, como se tivessem tido sucesso. Tudo para reforçar a crença fundamental de que “agir deve ser premiado; as ideias devem ser encorajadas; e errar é parte do processo criativo”.

Tendo em vista a importância dessa questão para a inovação e a ética, qual deve ser o papel dos conselhos de administração na construção de organizações que permitam, e mesmo estimulem, o erro ou fracasso dentro do apetite a riscos estabelecido? Como os conselhos podem ajudar suas empresas a evoluir na criação de uma cultura propícia à experimentação, na qual as pessoas se sintam psicologicamente seguras para adotar uma mentalidade aberta, flexível, exploradora — e sem medo?

Essas são questões-chave num mundo em que a capacidade de agir de maneira rápida e decisiva frente às mudanças e de se antecipar às tendências é essencial para o sucesso sustentável. Afinal, na atual economia do conhecimento, se as empresas e pessoas não estão aprendendo, então automaticamente elas já estão ficando obsoletas.


Alexandre Di Miceli da Silveira é fundador da Direzione Consultoria e autor de Ética Empresarial na Prática: Soluções para a Gestão e Governança no Século XXI. O articulista agradece a Angela Donaggio pelos comentários e sugestões.


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