O pano de fundo de mais uma tragédia anunciada

Revisar o conceito de sucesso empresarial é chave para tornar as empresas mais responsáveis

Companhias abertas/Governança / 1 de fevereiro de 2019
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O pano de fundo de mais uma tragédia anunciada

Ilustração: Rodrigo Auada

No momento em que testemunhamos mais uma tragédia colossal com o rompimento da barragem da Vale que levou à morte pelo menos uma centena de pessoas, uma questão essencial vem à tona: quais foram as causas?

Duas percepções comuns tendem a surgir com frequência: a de que essas tragédias são ocasionadas por pessoas de “mau caráter” na alta gestão, que, como resultado de sua ganância pessoal, decidiram ir adiante com práticas irresponsáveis após ponderar racionalmente sobre seus custos e benefícios; e a de que a causa é algo pontual, como a produção de um laudo específico mal feito ou fraudado motivado por funcionários inconsequentes da linha de frente.

Ambas as percepções, contudo, quase sempre são erradas. Os escândalos empresariais, incluindo tragédias ambientais, via de regra têm como causa-raiz um problema de mentalidade em relação ao conceito de sucesso empresarial — invariavelmente definido pela busca da maximização do resultado para os acionistas o mais rápido possível.

O caso da Vale ilustra esse problema. Ao ser perguntado sobre seus planos para a companhia em entrevista para a revista Época Negócios em 2018, seu CEO Fabio Schvartsman, respondeu: “Acreditamos que, neste momento, é muito importante tratar bem o mercado acionário. Vamos pagar dividendos polpudos a partir de uma política agressiva que já rendeu US$ 2 bilhões aos acionistas, que veio para ficar. Além disso, separamos US$ 1 bilhão para recomprar ações da Vale”.

A visão equivocada de sucesso centrada apenas nos acionistas, portanto, deve ser vista como o pano de fundo dos problemas que temos testemunhado, uma vez que ela gera um ambiente de demasiada pressão que, por sua vez, ocasiona um estado de cegueira ética generalizada nas organizações. Como tenho afirmado há anos, o maior risco para a boa governança não é aquele oriundo de algumas poucas maçãs podres, mas sim aquele que advém de pessoas comuns, que passam a se omitir e a racionalizar seu comportamento em virtude de uma percepção limitada e distorcida da realidade.

Enquanto as investigações sobre a Vale se desenrolam, convém lembrar do caso de sua controlada Samarco, cuja barragem de Fundão colapsou em 2015, matando 19 pessoas. A obra havia apresentado falhas desde a inauguração, em 2009. Em 2013, um órgão composto por especialistas independentes denominado ITRB constatara que a barragem apresentava sinais claros de que sua drenagem interna já se mostrava insuficiente.

De acordo com a evidências reunidas na denúncia do Ministério Público, o conselho da Samarco optou por recorrer a diversos “esparadrapos estruturais” em vez de adotar uma solução definitiva que exigiria mais investimentos e paralisação das atividades. Ainda em 2013, o conselho orientou a diretoria a “aumentar suas vendas para tirar vantagens das atuais condições favoráveis do mercado”, bem como a “buscar o máximo de eficiência nos gargalos de produção”.

Em abril de 2014, o conselho solicitou à gestão não aumentar os custos enquanto aumentava o volume de produção. Na mesma reunião, em que não houve registro sobre as preocupações do ITRB, o órgão aprovou o pagamento de 2 bilhões de reais em dividendos. Em agosto, um consultor apurou que diversas trincas constatadas a olho nu caracterizavam graves sinais de um processo de pré-ruptura. Em julho de 2015, os próprios funcionários da Samarco detectaram várias anomalias de estabilidade, incluindo a “surgência” (saída de água) na parte inferior da barragem. Em novembro, ocorreu enfim o rompimento.

Recursos não faltaram para evitar essa tragédia. Em 2014, por exemplo, a Samarco atingira o melhor resultado de sua história, com lucro líquido de 2,8 bilhões de reais. Apesar do imenso ganho, a gestão continuava a anunciar a aplicação de uma política de “redução de custos de produção”, de “esforço na eficiência do processo” e de incremento dos “ganhos de produtividade”.

Essa visão levou a empresa a cortar o orçamento de áreas de segurança. Segundo a denúncia, as despesas com a segurança das barragens foram reduzidas em 41% em valores reais entre 2012 e 2015, período em que a produção aumentou muito e os problemas se agravaram. As investigações mostraram ainda que a Vale lançava efluentes clandestinamente na barragem desde sua inauguração.

A análise completa do episódio da Samarco levou o Ministério Público a concluir de forma categórica que “os denunciados optaram por uma política empresarial de priorização de resultados econômicos em detrimento de práticas de segurança para o meio ambiente e para as pessoas potencialmente afetadas”.

As duas tragédias da Vale mostram como o conceito de sucesso empresarial necessita ser urgentemente revisitado. Em vez de maximizar os lucros, uma empresa de sucesso deve ser vista como aquela que possui um propósito que vai além do resultado financeiro, que vive de acordo com seus valores na busca desse propósito e que, assim, gera valor duradouro para todos os seus stakeholders.

Essa visão levará não apenas a empresas mais éticas, mas também à criação de um ambiente sadio com elevada felicidade e motivação intrínseca que, por sua vez, resultará em um desempenho superior para todos os seus stakeholders ao longo do tempo —incluindo seus próprios acionistas.


*Prof. Dr. Alexandre Di Miceli da Silveira é fundador da Direzione Consultoria e autor de Ética Empresarial na Prática: Soluções para a Gestão e Governança no Século XXI. O articulista agradece a Angela Donaggio pelos comentários e sugestões.

Obs.: As informações que descrevem o episódio da Samarco foram retiradas integralmente da denúncia do Ministério Público Federal contra a empresa, seus administradores e acionistas controladores.


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1 comentário
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Feb 01, 2019

Interessantíssima análise Alexadre. Triste perceber que a ética e a responsabilidade social e ambiental viraram sinônimos de cumprimento de regra obrigatória para empresas como a Vale e seus tantos acionistas diretos.
Que venha a nova economia, mais ética e com propósitos dignos a humanidade.



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