Biodiversidade: por que esse tema deve ser discutido pelo mercado

Perda de fauna, flora e hábitats e degradação da natureza e seus ecossistemas são riscos ambientais para as empresas



Biodiversidade: por que esse tema deve ser discutido pelo mercado
Imagem: vectorjuice | Freepik

Os mercados financeiro e de capitais vivem um momento de consolidação das discussões e iniciativas envolvendo a letra E de ESG (sigla, em inglês, para fatores ambientais, sociais e de governança). Mas se antes essa pauta era dominada pelos debates sobre o aquecimento global e a necessidade de as empresas contribuírem para a descarbonização da economia, agora tópicos menos óbvios — mas igualmente importantes — começam a ganhar a atenção de companhias e investidores. Um dos principais é a biodiversidade.

O quinto relatório Panorama da Biodiversidade Global (GBO-5, na sigla em inglês), publicado pela Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (CBD) no ano passado, dá uma visão geral sobre o estado de conservação da natureza — e o panorama não é animador. Apesar dos indicadores terem melhorado em relação às décadas anteriores, o relatório revela, por exemplo, graves problemas relacionados aos oceanos. Além da poluição — a estimativa é que existam 5,25 trilhões de partículas estranhas nos oceanos, pesando 260 mil toneladas —, mais de 60% dos recifes de coral ao redor do mundo estão ameaçados. E outros habitats igualmente sofrem com a destruição provocada pelo homem. Segundo o estudo, se fosse possível regenerar os recursos biológicos utilizados por nós, humanos, somente entre 2011 e 2016, seria necessário o equivalente a 1,7 planeta Terra.

“É comum pensarmos em ‘caixinhas’ quando falamos de meio ambiente. Mas tudo está integrado e conectado”, observa Rebeca Lima, diretora executiva do CDP Latin America. De acordo com o Panorama da Biodiversidade Global, as ações em prol da biodiversidade são fundamentais para frear o avanço das mudanças climáticas. Mas a importância do tema não para por aí.

Por que incluir a biodiversidade em iniciativas ESG

A mitigação dos impactos da ação humana na biodiversidade é essencial também para o bom funcionamento da economia e dos negócios. Dados publicados pelo Fórum Econômico Mundial mostram que o equivalente a 44 trilhões de dólares da produção econômica mundial — valor que representa metade do PIB mundial em 2020 — é influenciada, moderada ou altamente, pela natureza. Nesse contexto, os setores alimentício, de construção e agropecuário são especialmente afetados.

“Quando falamos de natureza, nos referimos à biodiversidade e ao capital natural, conceito disseminado no mercado financeiro pela Rio +20 e que se refere ao valor dos recursos naturais”, explica Luciane Moessa de Souza, diretora da Soluções Inclusivas Sustentáveis. “A biodiversidade, representada pela flora e a fauna, não sobrevive se os habitats [água doce, oceanos, ar e solo] não estiverem em boas condições. Por isso, precisamos cuidar bem dessas duas dimensões”, complementa. A ausência desse zelo, frisa, ameaçaria tanto a sobrevivência da espécie humana quanto para o exercício das atividades econômicas. 

Dificuldades para mensurar riscos relacionados à natureza

Essa conexão, contudo, parece não ser tão facilmente compreendida e integrada aos relatórios das companhias sobre questões ambientais. Enquanto a maioria das grandes empresas divulga informações sobre biodiversidade, poucas relacionam o tema aos seus negócios. Um estudo feito pela consultoria Leaders Arena, que revisou os relatórios das 100 maiores companhias dos Estados Unidos e da Europa, mostra que 69% delas mencionam o assunto e 52% elencam projetos “positivos para a natureza”. Porém, apenas 32% especificam a relação entre suas operações e os impactos que causam ao meio ambiente.

A dificuldade também se estende à discussão sobre criação de métricas para avaliar os impactos e riscos relacionados à biodiversidade. “É uma tarefa bastante complicada encontrar um indicador que valha para todos os setores. Mineração e biodiversidade têm uma relação, e ela é diferente de quando pensamos em papel e celulose ou em uma indústria, por exemplo”, avalia Lima. De acordo com ela, o grande desafio é achar uma régua que seja genérica o suficiente para permitir que todos os setores sejam contemplados, mas que, ao mesmo tempo, mensure os riscos e impactos reais de cada um deles.

Experiência com clima pode servir como guia

Para Katerina Elias-Trostmann, head de sustentabilidade & ESG no Banco BNP Paribas Brasil, os modelos utilizados pelas empresas para o clima podem servir como exemplo. “Quando biscamos identificar os impactos das mudanças climáticas, precisamos primeiro localizar geograficamente a empresa e sua cadeia, verificar as vulnerabilidades de cada unidade, serviço, colaborador e como essas questões influenciam os diferentes ecossistemas. Só depois disso, buscamos soluções”, explica. “Na minha opinião, esses passos também servem para o estabelecimento de um modelo de mapeamento dos riscos de biodiversidade”, ressalta.

A boa notícia é que os parte dos agentes econômicos já tem se mobilizado para criar diretrizes para avaliação dos riscos financeiros complexos representados pela destruição da natureza. Um importante exemplo é a Força-tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD, na sigla em inglês), iniciativa que busca chegar a um denominador comum sobre as métricas relacionadas à biodiversidade que as empresas poderiam adotar e divulgar em seus relatórios. O trabalho preliminar realizado pelo TNFD, publicado no dia 4 de junho, contou com entrevistas de 74 membros de instituições financeiras, empresas, agentes reguladores e outros players que somam cerca de 8,5 trilhões de dólares em ativos.

Um framework para avaliação dos riscos relacionados ao tema deve ser lançado pela TNFD em setembro de 2023. “A biodiversidade já é levada em consideração pelo mercado e o que foi aprendido até agora servirá como ponto de partida para o trabalho da força-tarefa. O tema não é novo. O que falta são métricas para que as instituições possam identificar, observar e mensurar os impactos e riscos de suas operações na localidade onde se encontram ou nas empresas que financiam”, enfatiza Souza.

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