Mudou o clima

Editorial/Edição 142 / 1 de junho de 2015
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O quadro econômico persiste em desalento, refém do esforço de remediar as malfadadas contas públicas brasileiras. Mas o mercado de capitais ensaia leves sorrisos. O anúncio de um BNDES comedido, voltado a ser um indutor da autonomia financeira dos agentes e não o provedor soberano de recursos, é um alento providencial. Especialmente porque há razões para acreditar nesse discurso agora. O estrago na poupança do setor público tornou-se assustador o suficiente para que os dirigentes da nação não tenham escolha. Como mostra a reportagem de Luciana Del Caro, na página 14, o banco parece querer honestamente abrir passagem para modelos privados de financiamento. Embora não se saiba quão permanente será a nova política, sua adoção já permite aos agentes do mercado sonhar.

Outro aceno confortante veio da Petrobras. Numa guinada surpreendente em favor das boas práticas de gestão, convidou profissionais de reputação notória para compor seu board, pondo fim à conflituosa presença de ministros na alta cúpula. E o melhor: eles aceitaram, mostrando que a esperança, virtuosamente, teima em vencer a experiência. Uma franqueza incomum foi demonstrada em relatório entregue aos investidores americanos. Nele a companhia reconhece a picaretagem atrevida de seus funcionários, como expõe a matéria de Yuki Yokoi.

Se as fases de vagas magras são profícuas para gerar remodelagens, também o são para desvelar fissuras. Uma delas apareceu no anúncio do não pagamento de dividendos aos acionistas. Com os lucros historicamente fabulosos da petroleira corroídos por má gestão e corrupção, os administradores da companhia acharam por bem suprimir a distribuição dos proventos — a despeito de existirem na contabilidade reservas de uma centena de bilhões de reais.

Esse seria apenas um julgamento da diretoria como qualquer outro, passível de críticas ou aprovações subjetivas, não fosse o fato de o estatuto da petroleira estabelecer o pagamento de dividendos mínimos. Isso quer dizer, conforme dispõe a Lei das S.As., que os minoritários devem ser recompensados com direito de voto — algo que daria a eles o controle do capital em sentido estrito, o que não é permitido pela Lei do Petróleo, como mostra a reportagem de capa. Uma incoerência entre a lei e a prática nada favorável ao sentimento de confiança que se pretende reconstituir. Estragou o clima.


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