Terceira via, no Brasil, é a reforma política 

É preciso que o País desmonte o modelo que já se mostrou insustentável 



Terceira via, no Brasil, é a reforma política

Segundo turno causa problemas graves nas eleições brasileiras. A dupla que chega lá é compelida a formar alianças, exigindo a assunção de compromissos inflacionados que, futuramente, custarão caro à nação. | Imagem: freepik

No filme Perfume de Mulher (1992), o tenente-coronel Frank Slade (Al Pacino, em desempenho vencedor do Oscar), apesar de ter perdido a visão, dança um tango memorável e tem seu melhor momento quando debate na prestigiosa escola formadora de lideranças americanas — “tomem cuidado com o tipo de líderes que estão produzindo aqui”, adverte ele, em dó maior. 

O alerta de Slade não faz sentido num arcabouço eleitoral em que o voto de legenda leva os partidos a convocar famosos (puxadores de votos) para eleger representantes que, com votação inexpressiva, ganham assento nos parlamentos. Alguns partidos se caracterizam como feudos pessoais e inorgânicos. Nesse cenário, fala-se na chamada terceira via para as eleições de 2022, como um atalho contornando o circuito polarizado.  

Desde a redemocratização, só tivemos terceira via bem-sucedida nas eleições de 1990. Diante de três candidaturas de centro-esquerda ou de esquerda, houve o ensaio da candidatura Sílvio Santos e o lançamento de Fernando Collor, que seria eleito e sofreria o processo de impeachment. 

Curiosamente, antes do segundo turno da mesma eleição, a terceira via novamente foi cogitada, quando Leonel Brizola (3º colocado) propôs a Luiz Inácio Lula da Silva (2º) que ambos renunciassem para colocar Mário Covas (4º) na disputa com Collor. 

O segundo turno causa problemas graves nas eleições brasileiras. A dupla que chega lá é compelida a formar alianças, exigindo a assunção de compromissos inflacionados que, futuramente, custarão caro à nação. O povo fica em confusão permanente com a introdução de ingredientes inesperados na salada (mista). 

 Inutilidade do segundo turno 

Concebido como uma espécie de válvula de segurança (e para superar a falaciosa questão da maioria absoluta), o segundo turno é uma inutilidade a consumir tempo e recursos públicos. Desde sua instituição, nenhum candidato reverteu o resultado do primeiro turno e, se existisse antes, igualmente seria inútil: ou alguém imagina que no período democrático de 1945 a 1963 as vitórias de Dutra (apoiado por Vargas), do próprio Vargas, de Juscelino e de Jânio seriam revertidas? Além disso, o segundo turno potencializa a polarização. 

Entrevistado em abril1, o ex-presidente Fernando Henrique disse sentir saudades dos tempos em que os sociólogos pensavam o Brasil como um todo. Talvez eles tenham perdido espaço para os economistas, intensamente demandados pela mídia. O resultado não tem sido bom e a lembrança de FHC soa oportuna. 


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Ele também se manifestou contrário ao instituto da reeleição. Parece ter razão: a possibilidade de permanecer no cargo induz a troca dos programas de governo pelos planos eleitorais. Por outro lado, a fragmentação partidária enseja o chamado presidencialismo de coalizão, distorcendo o sistema político. 

Reformas 

Já perdemos a conta das reformas na previdência pública, que sobreviveu para enfrentar a pandemia. Também tivemos reforma trabalhista e agora vemos em discussão as reformas tributária e administrativa. 

Terceira via, no Brasil, é a reforma política. Mas essa, entra ano, sai ano, fica para o ano que vem. Historicamente, esse tipo de mudança só aconteceu em momentos de ruptura (1822, 1889, 1930, 1945, 1964 e 1985). Fora disso, houve apenas intervenções pontuais ou casuísticas. 

Nesse sentido, considerando as reformas em seu conjunto, a experiência ora em desenvolvimento no Chile deve ser observada com atenção. Aparentemente, a comissão de frente ficou para trás e o país vizinho puxou o freio de arrumação no modelo insustentável.

 

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