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Navegações: novas rotas para o desenvolvimento

Ilustração: Rodrigo Auada

Imagino um dream team formado, por exemplo, por Fernão de Magalhães, Vasco da Gama e Américo Vespúcio. Cristóvão Colombo teria lugar, apesar de alguns maledicentes afirmarem que ele não sabia para onde ia, nem onde chegou. Pois já li duas biografias do navegador genovês e fiquei vivamente impressionado.

John Franklin também tem vaga. Dotado de personalidade singular, tornou-se um dos grandes marinheiros de Sua Majestade. Entre outras façanhas, governou a Austrália, uma terra nova e imensa, com sabedoria e equilíbrio. Em sua última jornada, Sir John despediu-se tentando encontrar a famosa passagem noroeste no Ártico. Não conseguiu, mas tentou.

Todos foram navegadores criativos, que responderam às dificuldades e aos imprevistos com ideias próprias e, em muitos casos, contrariando os manuais. Vasco da Gama percebeu as correntes (marítimas) e fez a chamada “volta do mar” para chegar às Índias.

Por sua vez, o Brasil parece, há tempos, amarrado como o Ita de Vasco Moscoso de Aragão (já mencionado neste espaço), que não afundou, mas também não saiu do lugar. Ao contrário, os juncos da China, Índia e Indonésia navegaram a todo pano, com forte vento de popa.

Pois aqui o vento anda fazendo a volta. Não sou do ramo, mas o tal déficit parece uma âncora desproporcional à caravela. Agora mesmo, entre as reformas trabalhista, previdenciária e tributária, acontecem as privatizações, rebatizadas como alienação de ativos. O produto das vendas se desfaz como espuma e os gastos com saúde e educação são cortados para dar lugar aos investimentos, em nome do pré-capitalismo bancado pelo Estado.

Um amigo, recém-chegado da Bolívia, informa que o país tem crescido a 4,5% ao ano na última década, com moeda estável e sem cartilha neoliberal. Talvez façam pouco da referência, mas não parece tão pobre quanto afastar a calmaria com gotas de FGTS.

Recentemente, o CEO da Iata visitou o Brasil e alertou sobre os riscos nas concessões de aeroportos, acrescentando que existem outras formas para atrair investidores. Apesar disso, os restos da Infraero devem ser lançados ao mar.

Os Correios atuam em todos os municípios brasileiros e, evidentemente, a operação apresenta prejuízo em muitos deles. Falam em privatizar a empresa, mas como os particulares não costumam adquirir prejuízos, talvez fiquem com a banda azul e deixem a vermelha nas mãos do Estado, realimentando o déficit que, posteriormente, volta a justificar as mesmas medidas. Pode-se chamar de movimento cíclico das marés.

Interessante notar que, nas privatizações brasileiras, várias companhias compradoras (francesas, portuguesas, italianas, chinesas) contam com o Estado entre seus maiores acionistas.

A agenda neoliberal não tem surtido efeitos. Serve mais à desagregação social do que ao crescimento da economia (como vimos acontecer na Argentina, de Menem a Macri) e está sendo revista nos EUA desde 2008. Paul Romer, Nobel de Economia em 2018, é impiedoso com a ortodoxia de Chicago. A propósito, até o FMI voltou a falar em controle de capitais nos países emergentes.

É possível descobrir novas rotas para o desenvolvimento econômico e social (por que um friedman valeria mais que um rousseau?). Os navegadores descobriram lugares como o Brasil, também uma terra nova e vasta. Pena que envelhecida nas ideias econômicas e politicamente amiudada.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira, advogado, é autor da seção “Crônica”, publicada a cada dois meses na Capital Aberto


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