Um ano de fortes emoções — e deve ser só o começo

2020 mal começou e já teve de ameaça de Terceira Guerra a pandemia

Colunistas/Bolsas e conjuntura / 27 de março de 2020
Por 


Colunista Walter Pellecchia comenta o mercado de capitais a nível internacional

*Walter Pellecchia | Ilustração: Julia Padula

2019 foi sim um ano complicadomas agora sabemos que era apenas o prólogo do que estava por vir. No curto período do primeiro trimestre de 2020 muita coisa aconteceu. Logo no terceiro dia do ano, o ataque americano com drone não tripulado que matou o major-general iraniano Qasem Soleimani durante visita ao Iraque elevou a tensão no Golfo Pérsico a níveis tão alarmantes que houve até rumores de Terceira Guerra Mundial. Para quem acha que um ataque como esse não teria relevância suficiente para tanto, vale lembrar que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do império austro-húngaro, em junho de 1914, numa visita à Bósnia, foi o estopim da Primeira Guerra Mundial. 

Também nos primeiros dias deste ano, enquanto a Turquia anunciava o envio de tropas para dar suporte ao governo interino local na guerra civil em curso na Líbia, o exército iraniano fazia ataques contra bases americanas no Iraque para retaliar a morte de Soleimani — o que resultouinclusive, no abatimento por engano de um voo comercial com destino à Ucrânia logo após a decolagem no aeroporto de Teerã. Erro que resultou na morte de todas as 176 pessoas a bordo, a maioria iranianos, e inflamou a população contra o governo  coisa pouco vista por lá desde que os aiatolás tomaram o poder na Revolução Iraniana de 1979. 

O sudeste australiano continuava sendo consumido pelas chamas quando o Reino Unido, sob o comando de Boris Johnson, finalmente deixou a União Europeia no dia 31 de janeiro, quase quatro anos depois do fatídico referendo que determinou o Brexit. Iniciava-se ali o período de transição de 11 meses no qual pouco — ou quase nada — muda em relação ao tempo em que as terras da rainha eram parte dUE, pois as regras do bloco continuarão sendo aplicadas em território britânico nesse período. Mudanças efetivas devem ocorrer quando o novo acordo que regerá as relações comerciais e de outras naturezas entrar em vigor ao fim da transição. 

Do lado econômico, porém, as coisas pareciam andar melhor, e 2020 chegou levando uma nova esperança aos mercados. Segundo a versão de janeiro do relatório Perspectiva Econômica Mundial”, do FMI, a projeção global de crescimento era de 3,3% — reflexo da retomada das atividades produtivasdo aumento do comércio internacionalda redução do risco de Brexit sem acordo e da progressão das negociações entre EUA e China para o fim da guerra comercial que já durava 18 meses causando enorme instabilidade e desaceleração dos mercados internacionais. De fato, as duas principais potências mundiais assinaram, em 15 de janeiro, a primeira fase de um novo acordoobjetivando o fim das barreiras comerciais impostas anteriormente por ambos os lados nas áreas de propriedade intelectual, transferência de tecnologia, agricultura, controle cambial e tributação. 

Após mais de dez anos da crise econômica mundial de 2008, afinal, já era tempo de se retomar o crescimento econômico de forma sustentada. O que ninguém incluiu nas projeções para 2020 foi o efeito catastrófico que um vírus, o mais simples de todos os organismos, poderia causar. Surgido na China pouco antes da virada do ano, o novo coronavírus alastrou-se de forma espantosa e está fazendo o mundo literalmente parar.  

Declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março, a disseminação da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, já provocou dezenas de milhares de mortes e o problema parece estar apenas começando. Para tentar evitar o que está acontecendo na Itália, onde os números de casos e de mortes são assustadores e o sistema de saúde está em colapso, a grande maioria dos países europeus fechou suas fronteiras, algo inusitado desde a criação da União Europeia. Também foi amplamente decretado o “lockdown”, ou seja, a limitação do direito de ir e vir, obrigando todos a ficarem em casa para barrar o alastramento do vírus, exceto profissionais estratégicos das áreas da saúde, abastecimento, logística, segurança pública, entre alguns poucos outros. 

Conforme esperadohouve pânico nos mercados. A busca de liquidez imediata por meio da venda de posições tornou a oferta imensamente maior do que a procura, fazendo despencar os preços das ações e das commodities, incluindo, claro, o petróleoNinguém precisa ser um Nobel de Economia para concluir que a soma de pandemia, “lockdown” e bolsas colapsando muito provavelmente provocará uma nova crise econômica mundial de crédito e recessão caso os governos não ajam rápido e coloquem em prática tudo aquilo que aprenderam (ou deveriam ter aprendido) pós-2008. Sim, um ano de fortes emoçõesE que ainda está entrando no seu segundo quarto. Como diz Julieta, no imperdível musical &Juliet aqui de Londres: “So much has happened in so little time!. 

É com prazer que passo a assinar esta coluna, que analisará os (muitos) acontecimentos no plano internacional seus reflexos nos mercados financeiros. Seja muito bem-vindo! 


*Walter Pellecchia, advogado do mercado financeiro, licenciado do Machado Meyer Advogados (wpneto@machadomeyer.com.br), atualmente no escritório de Londres do Reed Smith LLP (wpneto@reedsmith.com). O texto reflete opiniões do autor e não deve ser considerado como consultoria de qualquer natureza. 


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