Sinais de transformações do modelo econômico chinês

Crise da Evergrande chama a atenção para um movimento muito mais amplo de ajustes macroeconômicos estruturais



Evandro Buccini
Evandro Buccini é sócio e diretor de Renda Fixa e Multimercado da Rio Bravo Investimentos | Ilustração: Julia Padula

A China é um dos destaques do noticiário econômico já há alguns meses, mas com muito mais intensidade nas últimas semanas. O motivo é a possível falência de uma das maiores empresas do setor imobiliário do país, a Evergrande. A gigante não pagou suas obrigações nas últimas semanas, mas como normalmente é o caso quando se trata de grupos chineses, não há muitas informações além disso. O setor imobiliário corresponde a pelo menos 25% do PIB chinês e sempre foi muito estimulado, via fácil acesso a crédito, para manter o crescimento e o emprego. 

Mas, observando com mais atenção, é possível dizer que os problemas na Evergrande e no setor, o aumento do poder do presidente e secretário-geral do partido, Xi Jinping, e a ampliação da intervenção estatal em setores importantes, como educação e tecnologia, indicam que algo muito mais estrutural está mudando na China. 

A Evergrande é um colosso. Chegou a valer cerca de 40 bilhões de dólares na bolsa de Hong Kong em 2017 e tem hoje aproximadamente 300 bilhões de dólares em passivos, algo superior a 2% do PIB da China. Mesmo já sendo muito grande, a empresa continuava se expandindo em alta velocidade, acompanhando o mercado imobiliário chinês. Com poupança elevada e mercado de capitais pouco desenvolvido, a compra de imóveis é uma opção comum de investimento no país. 

O alarme só não soou antes porque análises relativamente superficiais do balanço da empresa mostravam os ativos aumentando em linha com as dívidas. Entretanto, os ativos da empresa são formados por estoques e terrenos que não se sabe exatamente quanto valem1. A dívida da companhia é detida por bancos, investidores estrangeiros e locais, principalmente via instrumentos não muito bem regulados, chamados wealth management products. A empresa não pagou os últimos cupons de dívida e ainda não anunciou um default devido ao prazo de tolerância de 30 dias. 

É improvável que a quebra da Evergrande seja comparável à do banco americano Lehman Brothers, mas o episódio recente deixa claro que não é mais possível esperar apoio do governo central no mercado de crédito. Outras grandes empresas do setor imobiliário estão na mesma situação. E, mais importante, é um sinal adicional de mudanças profundas na China.  

Sinais de esgotamento 

Em resumo, a economia chinesa atualmente — assim como nas últimas décadas — é orientada para exportação, com câmbio controlado normalmente subvalorizado, e tem elevada poupança doméstica. Já há vários anos o modelo vem mostrando sinais de esgotamento: as altas taxas de crescimento têm como efeitos colaterais ineficiência, dívida e poluição (quem já foi à China, especialmente no inverno, sentiu no ar o problema). 

A cada desaceleração de crescimento, independentemente da razão, o governo estimulava a economia, exacerbando o problema e aumentando o custo de um ajuste. As injeções de liquidez e crédito favoreciam as grandes empresas, principalmente estatais, que não são as mais produtivas. Os resultados de anos de investimento em projetos com retornos baixos ou negativos estão aparecendo. A dívida pública cresceu muito nos últimos anos e o crédito total aumentou 13 vezes nos últimos 15 anos, chegando a mais de três vezes o PIB. O governo sempre teve receio de alterar essa dinâmica, pois o sistema gera crescimento e emprego. Mas ele está se esgotando. 

“Prosperidade comum” 

Mas o que mudou agora? A China se aproxima da renda média, a demografia está se deteriorando muito rapidamente (como resultado da política de filho único e da urbanização) e há o fator adicional da consolidação do poder do presidente Xi Jinping. Com o slogan de “prosperidade comum”, o governo já preparou o terreno para uma desaceleração do crescimento — que, na verdade, será resultante de maior intervenção estatal e de uma tentativa de transição para uma maior participação do consumo na economia. 

Essa transição, evidentemente, não é simples, pois há o desafio político de combinar a centralização do poder com uma economia de consumo mais fragmentada. Além disso, a grande maioria das evidências aponta para a importância da inovação para o crescimento econômico, que não combina com o controle que o governo atual pretende ter. O resultado mais provável, ao contrário do que parece estar na mente da maioria das pessoas hoje, é que a China será mais um exemplo de país preso na armadilha da renda média. 

O processo de transição da economia chinesa está apenas começando, mas após muitos anos de ensaio, os eventos recentes indicam que o governo deve seguir o caminho de tentar aumentar a importância do consumo no crescimento. Com a dívida total da economia elevada, demografia num momento desfavorável, crescente intervenção estatal e após anos de investimentos com baixo retorno, o sucesso dessa empreitada está muito longe de ser fácil. Para o Brasil e para o mundo, será um dos eventos macroeconômicos mais importantes da próxima década. 


Evandro Buccini é sócio e diretor de Renda Fixa e Multimercado da Rio Bravo Investimentos 

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