Rotatória ou semáforo: qual é a abordagem da sua empresa para promover a integridade? 

Uma reflexão fundamental para a ética e o compliance nas organizações 



Há poucas evidências de que a verdadeira “corrida armamentista” de gastos crescentes com compliance no mundo corporativo nos últimos anos tenha mudado comportamentos para valer | Imagem: vvstudio – freepik

No trânsito, há duas soluções para se resolver uma intersecção: o semáforo ou a rotatória. Elas partem de lógicas antagônicas. 

O semáforo assume que as pessoas não são confiáveis para lidar com as intersecções por conta própria. Elas devem apenas seguir as regras de sinalização de maneira automática e irrefletida. 

Já a rotatória parte do pressuposto de que as pessoas são confiáveis para fazer bons julgamentos. É uma solução que exige reflexão: os motoristas passam a ser responsáveis por sua segurança (e das demais pessoas) com base em uma única diretriz: a de que o veículo dentro da rotatória tem sempre a preferência. 

Os semáforos são estáticos. As rotatórias são dinâmicas. 

Os semáforos são controlados de maneira centralizada por centros de tráfego repletos de engenheiros que planejam, monitoram e reprogramam os fluxos de veículos por meio de algoritmos complexos quando há acidentes ou mudanças de cenário. 

As rotatórias, por sua vez, funcionam com base na descentralização praticamente completa. Quando surgem cenários diferentes, assume-se que a coordenação social entre as pessoas e o bom senso serão suficientes para resolver essas situações adequadamente. 

Os semáforos exigem uma parafernália tecnológica que inclui cabos, luzes, câmeras e interruptores. Já nas rotatórias o monitoramento tecnológico é mínimo, quando existente. 

O que funciona melhor? 

Agora, a questão que importa: que alternativa funciona melhor em termos de segurança, fluidez e custos envolvidos? O que dizem os números? 

Aí vem a primeira surpresa. A esmagadora maioria dos estudos mostra que as rotatórias são uma solução superior aos semáforos nesses três quesitos fundamentais. 

Começando pela segurança. Estudos realizados nos EUA mostram que, nas rotatórias, ocorrem 75% menos colisões com feridos, 90% menos colisões fatais e 40% menos colisões com pedestres. 

Por ser uma solução dinâmica em vez de estática, o trânsito também flui bem melhor nas rotatórias. Um estudo concluiu que a substituição de semáforos por rotatórias contribuiu para uma redução de 89% do tempo dos percursos e para um a redução de 56% do tempo dos veículos parados. 

O terceiro quesito é o custo de manutenção. Por independer da tecnologia, o custo das rotatórias é muito menor. Nos EUA, estima-se que cada rotatória custe por ano entre 5 mil e 10 mil dólares a menos do que os semáforos. 

As rotatórias têm ainda outras vantagens. A primeira é que, quando falta energia, o apagão dos semáforos tende a deixar o trânsito caótico; já as rotatórias não são afetadas. A segunda é que elas são ecologicamente mais corretas. Por evitar que os carros parem totalmente (momento de maior consumo do veículo), estima-se uma economia de combustível da ordem de 40%. A terceira é que elas são esteticamente mais bonitas: é possível colocar jardins, estátuas e fontes nas rotatórias, embelezando a paisagem. 

O poder do hábito 

Agora vem a segunda surpresa. Apesar da superioridade das rotatórias, os semáforos continuam a ser uma solução muito mais popular em praticamente todos os lugares. Nos EUA, por exemplo, existem 1.118 semáforos para cada rotatória! 

Por quê? Em grande medida, simplesmente porque estamos habituados aos semáforos. 

Eles nos dão uma certa sensação de controle, já que passamos a independer do julgamento das pessoas. O pano de fundo dos semáforos, sem percebermos, é nossa premissa negativa sobre a capacidade decisória e a intenção das outras pessoas. 

Há um evidente paralelo entre as soluções para os cruzamentos de trânsito e as soluções para se promover comportamentos de integridade no mundo corporativo. 

No caso da sua empresa, por exemplo:  

— Ela adota uma abordagem dos semáforos, baseada em regras absolutas e detalhadas a serem seguidas de maneira irrefletida com base em uma premissa negativa sobre as pessoas? 

— Ou ela utiliza uma abordagem das rotatórias, baseada em diretrizes gerais com margem para o julgamento individual caso a caso, a partir de uma premissa positiva sobre as pessoas? 

Assim como o semáforo é a solução preferida na grande maioria dos lugares, a enorme maioria das empresas tentar promover a integridade pela abordagem dos semáforos. 

Isto é, elas preferem enfatizar o compliance em vez da ética. A diferença reside na intenção por trás da ação. O compliance constitui um comportamento de conformidade a uma regra imposta por um agente externo para evitar uma punição ou conquistar uma recompensa. Já a ética representa uma motivação voluntária de fazer a coisa certa pelo desejo de se manter fiel a determinados valores, princípios e normas de conduta. 

“Semáforos” do compliance 

Estamos habituados aos “semáforos” do compliance. Isto é, a exigir das pessoas comportamentos de conformidade irrefletidos exigidos de cima para baixo sob a ameaça de punições. O fato de estarmos habituados a essa abordagem não significa que ela seja o melhor caminho para promover a integridade nas empresas. 

Pelo contrário. Há poucas evidências de que a verdadeira “corrida armamentista” de gastos crescentes com compliance no mundo corporativo nos últimos anos tenha mudado comportamentos para valer.  

Além de frequentemente improdutiva, a ênfase estrita no compliance causa um grave efeito colateral: ela retira a autonomia das pessoas e passa uma mensagem de desconfiança em relação à sua capacidade de julgamento, eliminando um componente essencial para nossa vitalidade e automotivação. 

Não por acaso, estamos passando por uma grave crise de desengajamento e infelicidade no mundo corporativo que leva muitas pessoas a uma postura de passividade e distanciamento do trabalho. O impacto não é negativo apenas para os empregados: as empresas também sofrem prejuízos em termos de inovação e produtividade. 

O caminho da ética 

Assim como as rotatórias são uma solução claramente superior aos semáforos, o caminho da ética — no “vamos fazer o certo aqui porque isso é o certo a fazer” — é muito superior ao do compliance estrito. 

Ao nos concentrarmos na ética, teremos automaticamente o “compliance” em relação às regulações e aos valores da organização. É um caminho natural. Por outro lado, nem sempre o foco estrito no compliance assegurará comportamentos éticos. 

Investir nas “rotatórias” da ética, contudo, requer uma abordagem mais holística para o tema da integridade caracterizada por ao menos três mudanças fundamentais. 

A primeira diz respeito à nossa expectativa sobre as pessoas. Em lugar de partir de uma premissa negativa que trata os empregados como crianças inconsequentes incapazes de decidir, é preciso partir de uma premissa positiva que trata os empregados como adultos responsáveis. 

Inúmeras evidências demonstram que a esmagadora maioria das pessoas deseja fazer a coisa certa. Entre elas, estão diversos casos concretos de empresas que investiram na abordagem da ética e, há décadas, vêm comprovando que as pessoas tendem a responder positivamente quando suas lideranças transmitem confiança, bom exemplo e humanidade. 

A segunda mudança de paradigma é evoluir do monitoramento centralizado top-down para o monitoramento descentralizado feito pelos próprios pares. Trata-se de uma estratégia muito mais barata e potencialmente mais eficaz do que tentar controlar as pessoas por meio de agentes externos ou superiores. 

A terceira mudança é estabelecer diretrizes gerais em vez de regras específicas. Isso significa manter os regramentos na quantidade mínima, não máxima. Também significa escrevê-los da maneira mais aberta possível, deixando espaço para o bom senso e o julgamento das pessoas vis-à-vis as situações enfrentadas no dia a dia. 

Apesar da evidência das vantagens de se confiar no julgamento das pessoas a partir de diretrizes gerais, essa recomendação ainda gera calafrios em muitas lideranças. Elas são viciadas na ideia de que tudo pode ser planejado e controlado — inclusive o mundo e as pessoas — e que precisamos de “semáforos” para tudo. 

Ilusão do controle 

A ideia de que podemos controlar tudo e todos éentretanto, uma falsa ilusão. O máximo que podemos fazer é criar o melhor ambiente possível para despertar o melhor das pessoas, de maneira que se sintam estimuladas em fazer seu trabalho com excelência diariamente em sintonia com o propósito e os valores da organização. 

A insegurança das lideranças em relação à obsessão pelo controle é, via de regra, o maior obstáculo para as empresas migrarem para uma abordagem centrada na confiança e na ética. 

Para as empresas que conseguirem realizar a travessia dos semáforos do compliance para as rotatórias da ética, os benefícios serão enormes em termos de custo, engajamento, satisfação dos clientes, inovação e produtividade. 

Sem dúvida, é uma jornada que vale a pena perseguir.


Prof. Dr. Alexandre Di Miceli da Silveira é fundador da Virtuous Company Consultoria e autor de Empresiliente! Prosperando em um Mundo de IncertezasÉtica Empresarial na Prática: Soluções para a Gestão e Governança no Século XXI Governança Corporativa: O Essencial para Líderes. O articulista agradece a Angela Donaggio pelos comentários e sugestões.


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