Qual será o compromisso pós-coronavírus?

No contexto do stakeholder capitalism, um embate entre visões de curto e longo prazos

Colunistas/Bolsas e conjuntura / 15 de maio de 2020
Por 


Colunista Luciana Antonini Ribeiro

*Luciana Antonini Ribeiro | Ilustração: Julia Padula

Ainda imerso em incertezas, surge um novo cenário econômico global, e com valores de humanidade despontando no horizonte. Afinal, depois de covid-19 ter escancarado as desigualdades e fortalecido a solidariedade, a compaixão e o agir com responsabilidade  vale acompanhar o movimento de empresários no Brasil e no mundo com doações, revisão de modelos de operação e oferta de crédito para as necessidades de agora —, haverá novos drivers a guiar negócios, investimentos e políticas públicas. O viés positivo é o caminhar para compromissos de longo prazo com a saúde, a educação, a vida e o planeta, o que é coerente para se evitar até mesmo novas pandemias e desastres, como os relacionados às ameaças climáticas. 

No entanto, há forças contrárias, como em toda dinâmica. Porque no isolamento social (que se mostra eficaz para frear o contágio) tudo o que não era considerado essencial parou. Pararam, de uma só vez, 80% da economia mundial. E quando algo abrupto ocorre, quando somos ameaçados, instintivamente vem a reação. Questão de sobrevivência. 

Por isso, num cenário de economias à beira do colapso, em que 25 milhões de pessoas podem ficar sem emprego no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), há também uma pressão sem precedentes por resultados de curto prazo. Práticas mais conscientes que estavam na agenda recente correm o risco de serem substituídas pela preocupação com a retomada imediata do PIB mundial. Vale lembrar que os prognósticos do Fundo Monetário Internacional (FMI) dão conta de contrações neste ano de 3% para o mundo de 5,3% para o Brasil. 

Antes da pandemia, a sustentabilidade e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) da ONU pautavam 2020. O termo stakeholder capitalism se fortaleceu no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro. Além disso, práticas ESG (sigla em inglês para aspectos ambientais, sociais e de governança) se tornaram tema obrigatório nas conversas de investidores institucionais e, por conseguinte, de gestores de patrimônio  concordassem ou não com o conceito. Mas mesmo desafiadas pela busca por retorno financeiro imediato, essas mudanças de mindset e de ação ainda seduzem positivamente, entre outros motivos porque têm bom desempenho mesmo em rupturas. De acordo com análise da Bloomberg, durante a crise desencadeada pela pandemia de covid-19 (dados até abril), na média os portfólios com práticas ESG performaram melhor no S&P 500 em comparação com os fundos comuns. 

Uma explicação está na resiliência de negócios desenhados para ir além do lucro. Aliás, a resiliência é a grande exigência dos tempos atuais em todas as relações — familiaressociais e econômicas —, emergindo como um dos principais temas financeiros da nova década. Essa capacidade rápida de adaptação garante a sobrevivência de forma sustentável, atendendo necessidades básicas e lacunas estruturantes e abrindo espaço para o cuidado com as externalidades, cada vez mais cobradas. 

covid-19 é um teste ácido para o stakeholder capitalism, ao mesmo tempo em que o fortalece, porque são as empresas aderentes a esse modelo que têm prontidão e agilidade para se reorientar nas crises e buscar soluções emergenciais. Isso por contarem com modelos de negócio mais robustos e colherem os resultados de alianças fortes com seus atores sociais, entre eles governos e o público em geral. 

É o caso da gigante Microsoft, que se tornou parceira do hospital Johns Hopkins, em Nova York, no rastreamento do novo coronavírus, e que junto com outras empresas de tecnologia se comprometeu a pagar os colaboradores integralmente apesar da diminuição nas operações. 

Este é o momento de revelar coerência com o que preconiza o ESG — ou não. Empresas, preparem seus discursos para a verdade! E estejam prontas para atender investidores questionando sobre planejamento para resiliência e contingência. 

A pandemia jogou luz em outros aspectos do ESG — além do ambiental, que continua essencial, sem dúvida. O comprometimento com o social se fortaleceu e a necessidade de as empresas adotarem planos de continuidade e de atenção com os colaboradores e com as comunidades com as quais atuam virou fator de risco. 

A transformação nos valores a guiar negócios e investimentos segue o ritmo da desconstrução da nossa antiga forma de viver. Em evidência, depois desse primeiro grande teste para a resiliência humana global, estarão urgências sociais, cuidados de saúde e gerenciamento de riscos. O convite é para refletir sobre os efeitos de cada uma de nossas escolhas. 


*Luciana Antonini Ribeiro (luciana@ebcapital.com.br) é sócia-fundadora da EB Capital


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