Os efeitos da covid-19 sobre o mercado de vacinas

A busca do imunizante perfeito impulsiona ações dos laboratórios mundo afora

Colunistas/Bolsas e conjuntura / 28 de agosto de 2020
Por 


Colunista Walter Pellecchia comenta o mercado de capitais a nível internacional

*Walter Pellecchia | Ilustração: Julia Padula

Quando Dom Sebastião, rei de Portugal, desapareceu na África em 1578 durante a Batalha de Alcácer-Quibir e sem deixar herdeiros, o reino enfrentou uma crise dinástica que culminou com Portugal sendo invadido e dominado por Filipe II, rei da Espanha, em 1581. A incerteza da morte do monarca somada aos problemas decorrentes da sua sucessão ao trono fizeram surgir no povo português e nas colônias, no fim do século 16, o sebastianismo — crença messiânica de que Dom Sebastião voltaria para salvar a pátria e o povo. Como ainda não há nenhum tratamento cientificamente eficaz para o tratamento da covid-19, todos estão compartilhando um sentimento de certa forma similar ao sebastianismo. Nesse caso, Dom Sebastião precisaria voltar trazendo na bagagem bilhões de ampolas de vacinas e seringas para salvar, não apenas Portugal, mas o mundo todo.

Enquanto a economia mundial despenca, o mercado de vacinas, que sextuplicou nos últimos 20 anos e segundo dados recentes pré-covid-19 movimentava aproximadamente 35 bilhões de dólares por ano, tende a crescer ainda mais. Afinal, está sob impulso da corrida global em busca das vacinas que ajudarão o mundo na volta à normalidade.

O início de agosto foi especialmente agitado para as ações das empresas participantes dessa corrida. A chinesa CanSino Biologics realizou sua primeira oferta pública de ações (IPO) na bolsa de Shanghai, levantando cerca de 749 milhões de dólares e, no primeiro dia de negociação, as ações subiram 85%. As ações dessa mesma empresa, mas negociadas na bolsa de Hong Kong, já triplicaram de valor apenas em 2020. Estreante na Nasdaq, a alemã CureVac levantou 245 milhões de dólares no seu IPO e as ações triplicaram de valor no primeiro dia de negociação.

Segundo estudo publicado pela consultoria McKinsey em 29 de agosto, existem pelo menos 250 vacinas em desenvolvimento, das quais 30 estão em fase de estudo clínico, 25 sendo já testadas em humanos e outras 25 ou mais também devem atingir a fase de teste em humanos ainda neste ano. Acredita-se que entre o último trimestre de 2020 e o primeiro de 2021 deve começar a imunização emergencial da população, sobretudo de pessoas com mais vulnerabilidade.

A covid-19 mudou completamente o tradicional protocolo para o desenvolvimento de vacinas. Antes, as cinco fases (pesquisa, pré-clínica, clínica, aprovação regulatória e produção e entrega da vacina) levavam, no mínimo, dez anos, e ao custo de aproximadamente 500 milhões de dólares. De forma impressionante, a primeira candidata a vacina para a covid-19 surgiu 42 dias após o sequenciamento genético do novo coronavírus e já foram investidos nas candidatas como um todo pelo menos 6,7 bilhões de dólares até agora, de acordo com a McKinsey.

É bastante importante que existam vários laboratórios desenvolvendo candidatas a vacinas — embora seja uma corrida, assim haverá vários ganhadores. As diferentes vacinas que provavelmente chegarão ao mercado terão diferentes métodos de imunização, durabilidade da eficácia, procedimentos de logística e dosagem etc. Essas diferenças podem, por exemplo, tornar uma determinada vacina cuja imunização seja atingida em 14 dias com dose única, mas com menor duração de eficácia, mais indicada para controlar um novo surto no curto prazo. Já uma outra vacina que eventualmente tenha eficácia para a vida toda, mas que dependa de duas ou três doses e que leve meses para a instigar a defesa do organismo, seria mais indicada para estratégias de longo prazo e em períodos de normalidade.

Fora isso, nenhum laboratório sozinho seria capaz de produzir as bilhões de doses necessárias. Ou seja, há mercado para muitos e ele continuará bastante agitado.


*Walter Pellecchia, advogado especialista em mercado financeiro, integrante do escritório Reed Smith LLP em Londres (wpneto@reedsmith.com). O texto reflete opiniões do autor e não deve ser considerado como consultoria de qualquer natureza.


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