Mudança de mentalidade do setor produtivo 

Aguardar regulamentação referente à sustentabilidade para agir significa, na prática, abrir mão de decidir o futuro 



Ana Siqueira | Ilustração: Julia Padula

O ano mudou, mas o mundo continua vivenciando, com perplexidade, a pandemia de covid-19 e seu rastro de destruição. No Brasil, particularmente, o desafio do enfrentamento da emergência sanitária é imenso. A combinação de desorientação do governo, insensibilidade e cegueira política com a vulnerabilidade de parcela expressiva da população é explosiva. O momento é de gravidade sem precedentesPaís contabilizava, até o dia 31 de março de 2021, quando este artigo foi concluído, estimadas e inacreditáveis 320 mil mortes.  

A carta aberta à sociedade intitulada O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo”, endossada por robusto grupo de economistas e empresários, retrata o País como o epicentro mundial da covid-19 e com situações econômica e social desoladoras. Em 2020, ressalta o documento, o PIB encolheu 4,1% e a taxa de desemprego atingiu 13,5%  a mais elevada da série histórica. 

Desde o início da pandemia, foram desembolsados 528,3 bilhões de reais em medidas de combate à crise, incluindo custos adicionais para reforço da infraestrutura de saúde gastos para mitigação da deteriorada situação econômica. Mas a conta da tragédia não para por aí: além dos recursos desembolsados, deve ser considerada a expressiva perda de produto ou renda — montantes não gerados em função do atraso na vacinação da população — e também perdas de arrecadação tributária. Os autores da carta argumentam que o lado chocante da situação é o fato de que insuficiente oferta de vacinas no Brasil não é decorrente de preços ou falta de recursos. É fruto de uma deliberada ausência de prioridade da vacinação 

Articulação das empresas e da sociedade 

Desde o começo da pandemia, líderes empresariais e representantes da sociedade civil têm se articulado para o combate à covid-19 e a mitigação de impactos para famílias vulneráveis. Os desafios sociais brasileiros já eram imensos antessimbolizados pela profunda desigualdade, pelo emprego escasso e muitas vezes precário e pela prestação de serviços aquém do necessário pelo Estado nas áreas de educação, saúde, infraestrutura e segurança, só para citar algumas. 

A dimensão dos desafios, no entanto, não permite ao Estado se furtar de exercer sua função de governo. Em um País cada vez mais polarizado, observar uma articulação de expressivo grupo de economistas e empresários para demandar que o governo federal tome medidas essenciais e emergenciais no enfrentamento da pandemia gera esperança de dias melhores.  

Nova mentalidade 

Muitas empresas têm incorporado o tema sustentabilidade à sua comunicação corporativa. No entanto, é necessária uma verdadeira mudança de mentalidade para esse conceito realmente ser inserido nos modelos de negócios, de forma a permear toda a companhia. A sustentabilidade no meio corporativo não deve ser limitada a uma atuação apartada — em ações filantrópicas, por exemplo. Precisa ir muito além disso. 

E há alguns catalisadores para esse processo de mudança de mentalidade: consciência sobre a relevância do tema para perenidade da empresa, envolvendo geração e proteção de valor, riscos, competitividade, reputação, goodwill da marca, entre outros pontos; percepção de que o processo pode culminar em menor custo de captação; melhor avaliação da empresa; atração e retenção de talentos; demanda de investidores, clientes e sociedade; exigência legal e autorregulação.  

Os investidores institucionais, por sua vez, precisam compreender e considerar os riscos ambientais, sociais e de governança  riscos préfinanceiros e reputacionais  em seu processo de investimento. Esses riscos podem causar externalidades negativas intensas na economia e na sociedadeque tem potencial para prejudicar a reputação, os resultados e valor da empresa. A probabilidade e materialidade das externalidades negativas atuam como aceleradores também da atuação dos governos, que pode ocorrer por regulamentação ambiental, social e tributária.  

Os investidores, na qualidade de provedores de recursos para as empresas, ocupam posição privilegiada para demandar que as empresas insiram a sustentabilidade no modelo e na estratégia de negócios. Os indicadores de sucesso corporativo certamente continuarão em transição, com a busca desenfreada por resultados financeiros perdendo espaço — e cada vez mais para as pautas ambiental e social. 

É certo que as empresas não conseguem fazer essa mudança de forma imediata, já que é imprescindível um tempo para início e assimilação da transformação cultural em direção a uma nova mentalidade. Nesse contexto, as empresas que decidirem aguardar por uma regulamentação que as obrigue a se mexer na pauta sustentabilidade correm o risco de não ter tempo hábil de fazê-lo de forma refletida e estruturada. Estão, na prática, abrindo mão de uma decisão crucial sobre seu próprio futuro. 


Ana Siqueira, CFA ([email protected]) é sócia fundadora do Artha Educação.

 

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