Fintech dá golpe de jiu-jitsu na pauta ESG

Eleição de Anitta para conselho administração do Nubank provoca revolta nos defensores da “boa governança”



Raphael Martins é sócio do Faoro Advogados | Ilustração de Julia Padula

Qual seria a reação do mercado ao saber que uma companhia aberta conseguiu atrair para seu conselho de administração uma mulher jovem, empreendedora, de origem humilde, que alcançou posição de destaque em sua carreira e não se identifica como cis? Ao que tudo indica, seria negativa. Especialmente se ela não saiu do clube de bacharéis em cadeiras técnicas e ex-c-level executives.  

Afinal, diferentemente dos concorrentes que vislumbraram na artista Anitta apenas uma garota propaganda, a fintech Nubank ousou e a trouxe para dentro do órgão máximo da administração da empresa. E as curiosas reações que se seguiram não podiam ter sido mais negativas. 

Contextualizando, embora a indicação de Anitta busque endereçar críticas às práticas de diversidade da fintech, não dá para resumir esse movimento àquilo que vem recebendo o epíteto de greenwashing, isto é, a adoção de discurso ou atos irrelevantes e vazios de significado com o objetivo de preencher determinados indicadores da pauta ESG.  

Como premissa, deve-se levar em consideração que o modelo de negócios do Nubank passa pela atração de um público que coincide com o de Anitta e não se conhece outra pessoa com mais capacidade de dialogar com esse grupo do que ela, como vem comprovando há mais de uma década. Considerando apenas a relevância de Anitta nesse mercado, se a fintech conseguisse apenas atrelar sua imagem à da artista, seu movimento já seria considerado um êxito retumbante. Mas, ao indicá-la para seu board, o que o Nubank está propondo é um verdadeiro laboratório, no qual se testará a capacidade de Anitta de influenciar positivamente a percepção e o relacionamento da empresa com essa parcela do mercado. 

Embora não seja prática corrente nesse meio, criar estratégias que buscam capturar simbioses entre personalidades e empresas não é uma novidade. Guardadas as devidas proporções, o movimento do Nubank lembra aquele que ocorreu no mercado de material esportivo, quando a Nike identificou nos atletas, notadamente do basquete americano e do atletismo, o potencial para serem não apenas divulgadores do uso de seus produtos, mas também verdadeiros sócios e colaboradores do processo criativo.  

A crítica que se poderia fazer é rememorar casos – e não são poucos – de conselhos de administração que foram empacotados de celebridades das mais diversas áreas e transformaram-se em órgãos inoperantes. O risco é real e precisa ser monitorado. Entretanto, neste caso, como há apenas uma celebridade e ela é Anitta, os questionamentos feitos pelos defensores da “boa governança” se focaram em dois aspectos: 

O primeiro é o de que Anitta não teria o conjunto de competências necessário para um conselheiro administração. Ocorre que não se conhece nenhum administrador que o tenha na profundidade que estão exigindo dela. Querem um especialista em finanças, legislação societária, matemática financeira, governança, operações de reestruturação e planejamento fiscal, pelo menos, envolvendo tributos federais indiretos. Para esses insatisfeitos, parece que nem ela nem ninguém estará à altura do desafio de ser um conselheiro de administração. Talvez até tenham razão. 

O segundo e mais caricato é que, ao que tudo indica, Anitta não teria certificação para ser conselheira — há notícias, inclusive, de que o curso para obtenção do certificado estaria sendo oferecido para suprir essa “deficiência”. Segundo depreende-se desses críticos, em algumas horas, após serem pincelados conhecimentos superficiais sobre diversos temas afetos a conselhos de administração, ela estaria ungida para o cargo e à altura de suas atribuições legais.  

O que tais críticas parecem ignorar é que, dentro de um conselho de administração plural e com diversidade de formações, a qualidade da atuação do órgão decorre da soma das competências. Ou – para usar um jargão em moda – skills que cada membro agrega ao conjunto. Dessa forma, quanto mais concentrada e maior a profundidade do conhecimento de cada conselheiro, melhor para o todo. Com o perdão da metáfora futebolística, não se quer um time de jogadores capazes de uma atuação mediana em todas as posições do campo. 

Não há dúvidas sobre a necessidade de o board do Nubank ter especialistas em diversas áreas que a referida artista provavelmente não domine ou que contrate consultores para suprir as deficiências do seu conjunto. Mas não parece ser essa a questão central do que vem sendo discutido. A impressão que fica é que Anitta representa diversidade demais para a pauta ESG. 


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