Extra: o PIB do Brasil cresceu 16% em 2021!
Pena que esse cálculo, assim como o que mede a variação dos resultados das empresas, esteja incorreto
Eliseu Martins
Eliseu Martins é professor emérito da FEA-USP e da FEA/RP-USP, consultor e parecerista na área contábil | Ilustração: Julia Padula

Olhando o portal de informações do IBGE, fiquei estupefato. O PIB brasileiro em 2020 foi de 7,467 trilhões de reais. Em 2021, passou a 8,679 trilhões de reais, um crescimento de 16,2% na minha modesta conta. Que sensacional. E jamais ouvi o IBGE ou qualquer economista comentando sobre esse extraordinário desempenho. O que houve de errado?

Mas daí acordei e fui para outra página do site, na qual estava dito que o PIB crescera 4,6%. Esse percentual, sim, eu havia visto. Ora, logo entendi minha bobagem. Pegara o PIB de 2020 em reais nominais, somando-se tudo o que havia sido produzido de bens e serviços naquele ano, juntando os reais de janeiro de 2020 com os de março, setembro, etc. E depois peguei a soma também nominal do PIB produzido em 2021, de novo somando os PIBs trimestrais. E, o pior, comparei um PIB nominal de 2020 com o nominal de 2021. Só podia ter dado bobagem.


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É claro que jamais os economistas fazem isso. Primeiro, medem os PIBs pelos seus valores nominais mesmo, mas, depois, todos os números comparativos só saem em números reais, expurgados do índice de inflação implícito próprio. Daí a realidade: o crescimento foi de 4,6% (e não 16,2%). Manuseiam-se inicialmente valores nominais mas só se analisam e divulgam mutações reais.

Igualzinho com o que estamos fazendo na Contabilidade. Divulgamos as receitas de 2020 em valores nominais deste ano, comparamos com as receitas nominais de 2021, e seguimos em frente como se os valores nominais fossem os reais. Por exemplo, olhemos a receita líquida do Pão de Açúcar: um total de 51,253 bilhões de reais (soma, como dito, de reais dos doze meses do ano). E comparemos com os 51,291 bilhões de reais de 2021, o que nos leva a um crescimento de 0,1%. Só que, se usássemos a técnica da variação do PIB, na verdade, calculando a grosso modo, teríamos redução real de 7%, considerando o problema da moeda.

Mas o pior mesmo é que receita é uma coisa, lucro é outra. Se uma empresa investe 100 milhões de reais em estoque e vai girando-o durante o ano em transações (sempre à vista, para simplificar), seu lucro nominal será o que houver de riqueza nominal final menos a riqueza nominal inicial. Como os estoques giram bastante, talvez esteja o patrimônio final já em moeda final e não precisemos de ajustes. Se este for de 115 milhões de reais, diremos que o lucro terá sido de 15 milhões de reais, ou seja, 15%.

Mas se outra empresa investe os mesmos 100 milhões de reais num imóvel, aluga-o e recebe 8 milhões de reais limpinhos, e o imóvel continua tal qual era, diremos que a rentabilidade terá sido menor, de 8%. De fato, quem terá ganhado mais? Nossas demonstrações nominais dirão que a atividade comercial terá dado mais dinheiro. Que non-sense….

Bem, mas acho que está na hora de parar de dar murros em pontas de faca. Se todos acreditam que, para cálculo do PIB, o que interessa é a variação real, mas para cálculo do lucro das empresas o que interessa é a variação nominal, o melhor mesmo é mudar de ramo.


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