ESG: a onda verde que pode salvar o planeta e o exemplo da BlackRock 

O poder econômico que provocou a degradação ambiental revela-se peça-chave para a restauração da biodiversidade  



Colunista Walter Pellecchia comenta o mercado de capitais a nível internacional

*Walter Pellecchia | Ilustração: Julia PadulaEm 4 de outubro de 2020, sir David Attenborough, aos 94 anos, lançou em parceria com a Netflix o documentário David Attenborough: A Life On Our Planet, seu depoimento pessoal sobre sua vida e o futuro do planeta. Com sua voz rouca inconfundível, o apresentador e naturalista britânico é mundialmente conhecido por seus documentários sobre a vida selvagem. Nesse conteúdo, lançado no meio da pandemia, ele avalia o que poderá ter acontecido ao planeta durante a vida de alguém nascido em 2020 (que viva pelo menos o mesmo tempo que ele) caso a humanidade não promova mudanças de hábitos desde já. 

A perspectiva não é nada boa. Sir Attenborough menciona, dentre as possíveis e irreversíveis consequências da manutenção dos atuais níveis de aquecimento global e de danos à biodiversidade, transformação da floresta amazônica em savana, o derretimento das calotas polares, a extinção dos recifes de corais e o esgotamento do solo produtivo, o que, em conjunto, poderia levar a uma extinção em massa da vida terrestre. 

A restauração da estabilidade do planeta depende, segundo ele, da recuperação da biodiversidade e, para isso, propõe a retirada de países da extrema pobreza, provisão de saúde universal e melhora na educação, sobretudo de meninas, com a finalidade de reduzir e estabilizar o crescimento populacional. Outros exemplos são a utilização de energias renováveis, redução ou eliminação do consumo de carnes, diminuição da pesca em áreas costeirasutilização racional dos recursos hídricos e universalização do saneamento básico, proibição de desmatamento e promoção de políticas de reflorestamento. Nada disso é novidade, obviamente. Entretanto é tocante a maneira como sir Attenborough ressalta a responsabilidade de cada um, seja no âmbito pessoal, seja no profissional, para salvar o planeta. 

Fazer bem fazendo o bem 

Uma vez que a degradação da biodiversidade é resultado do interesse econômico desenfreado, sobretudo nos últimos dois séculos, é também o poder econômico que potencialmente pode reverter a situação de forma eficaz. As iniciativas que privilegiam o ESG (sigla em inglês para os investimentos com preocupações ambientais, sociais e de governança) estão cada vez mais em destaque no plano global e tomando o lugar do conceito ultrapassado de que retorno financeiro e sustentabilidade não caminham juntos. 


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Salvar o planeta todos querem ou deveriam querer, claro. Desde a fundação dos EUA, Benjamin Franklin já aconselhava os americanos na sua famosa frase doing well by doing good. É hora de colocar tal máxima realmente em prática. O maior desafio é fazer o grande capital surfar essa onda. Graças a uma viagem de verão isso já é uma realidade na BlackRockmaior gestora de recursos do mundo, atualmente com 8,6 trilhões de dólares sob gestão (ou mais de 6 vezes o PIB do Brasil em 2020). 

A pescaria no Alaska que mudou tudo 

Em agosto de 2019, Larry Fink, cofundador e CEO da BlackRock, foi para sua tradicional summer boys trip com amigos para beber vinho e pescar no lago lliamna, no estado americano do Alaska. Lá chegando, os amigos encontraram o lago com nível bem abaixo do normal e o céu encoberto por fumaça preta. Em razão do aquecimento global, a tundra siberiana estava pegando fogo e afetando a vizinha Alaska. Fink percebeu que essas queimadas não só estragaram sua pescaria, mas certamente afetariam a economia daquele estado e o preço de ativos financeiros. Como nada acontece por acaso, esse foi o clique necessário para mudar os rumos da gestora. 

Na carta anual de 2020 direcionada aos CEOs das subsidiárias da BlackRock espalhadas pelo mundo, divulgada em janeiro, Fink anunciou a guinada de diretriz e o título já dizia tudo: “A Fundamental Reshaping of Finance. A partir daquele momento a sustentabilidade estaria posicionada no centro das estratégias e decisões de investimento, com significativa realocação de capital de forma a mitigar os efeitos da mudança climática e visando a manutenção de retornos de longo prazo para os clientes. No ano passado a gestora já utilizou seu direito de voto nas empresas investidas para ir contra propostas não sustentáveis das diretorias e, inclusive, puniu 62 diretores. 

Um ano depois, na recente carta de 2021, Fink enfatiza que embora o risco climático seja um risco de investimento, as mudanças climáticas se apresentam como uma histórica oportunidade de investimento. Fink prevê que o compromisso dos 127 signatários do Acordo de Paris para neutralizar as emissões de carbono até 2050 e manter o aquecimento global abaixo de 2ºC guiará o mercado e as políticas governamentais. Dessa forma, a BlackRock solicitará a todas as empresas que recebem seus investimentos que divulguem seus respectivos planos para a neutralização do carbono e promete que as iniciativas ESG estarão no coração dos processos de investimento e tomadas de decisão. 

Go green, o novo mantra de Wall Street 

Embora a Europa esteja bem mais adiantada nas iniciativas de ESG do que os EUA, representando quase 75% dos investimentos globais, o posicionamento da BlackRock como líder de mercado é essencialmente importante, pois influencia as demais gestoras a seguir no mesmo caminho e, em efeito cascata, surte efeito nas empresas investidas e no mercado como um todo. 

Como manda quem pode e obedece quem tem juízo — e quer ganhar bônus —, as diretorias das companhias americanas estão sentindo na pele a influência da onda verde. O relatório “Paying well by paying for good, divulgado em 17 de março pela PwC e pela London Business School, revela que 45% das empresas que compõem o índice FTSE 100 da bolsa americana incluem na composição dos bônus de seus executivos metas relacionadas a ESG. Sinal dos tempos.


Walter Pellecchia, advogado especialista em mercado financeiro ([email protected]). O texto reflete opiniões do autor e não deve ser considerado como consultoria de qualquer natureza

 

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