Cuidados na necessária discussão sobre investimentos responsáveis

Exigir imediatamente a perfeição pode beneficiar grandes empresas em detrimento das pequenas



Evandro Buccini

Evandro Buccini, é sócio e diretor de Renda Fixa e Multimercado da Rio Bravo Investimentos | Ilustração: Julia Padula

Há pouco mais de um ano, publiquei neste espaço o primeiro artigo sobre as mudanças no relacionamento entre as empresas, seus acionistas e outros stakeholders. Desde então, a discussão sobre investimentos responsáveis, resumidos na sigla ESG, ganhou ainda mais destaque, em parte por causa dos desafios da pandemia. O debate muitas vezes é filosófico e pouco prático. Caminhar na direção de melhorar a governança e os impactos sociais e ambientais é obrigação de todos os participantes da economia, mas é um caminho longo, com muitos obstáculos e dúvidas. 

Existem várias formas de se verificar que as grandes empresas estão de fato na direção de ampliar suas responsabilidades sociais. O Business Roundtable, uma organização que reúne cerca de 180 CEOs das grandes empresas americanas, alterou em 2019 seu propósito que definia que o principal objetivo das corporações era maximizar o retorno do acionista. Em vez disso, passou a afirmar que as empresas devem servir ao acionista, entregar valor ao consumidor, investir nos empregados, lidar de forma justa com fornecedores e apoiar a comunidade em que operam. 

Essas grandes empresas podem contratar equipes dedicadas ao estudo e à execução das metas delineadas. Já as pequenas empresas, que em muitos setores sofrem muita competição e barreiras de entrada, não podem gastar tantos recursos com o tema. É importante tomar precauções para evitar que a preocupação com os temas ESG possa prejudicar as empresas menores em detrimento das maiores. 

Mudanças entre os investidores 

O tema governança sempre foi alvo de atenção das empresas. Os incentivos aos administradores, o alinhamento de interesse com os acionistas e a adoção das melhores práticas e processos são assuntos já corriqueiros. Do lado dos investidores é que o assunto está passando por mais mudanças. Investidores institucionais estão sendo cobrados pelos investidores finais a exigir transparência e a votar nos principais temas nas assembleias, especialmente eleição de conselheiros e diretores alinhados com seus objetivos e pagamento de executivos que incentivem a perseguição de metas além da rentabilidade de curto prazo. 

A preocupação com o meio ambiente está em segundo lugar. Desde as conferências sobre o clima na década de 1990 e com as mudanças climáticas cada vez mais visíveis, as empresas passaram a ser atores na ampliação da sustentabilidade da economia. Cada empresa tem seu papel e cada setor tem sua particularidade. 

Na infraestrutura, que envolve grandes obras com potenciais riscos enormes para a sociedade, fazer uma análise prévia e acompanhar os riscos ESG são obrigações que, se bem cumpridas, previnem danos à sociedade e aos acionistas. Mas há questões importantes que devem ser consideradas. Como tratar países diferentes, com suas características e fraquezas? Os países ricos têm muito mais capacidade de mudar suas matrizes energéticas, muitas vezes oferecendo subsídios. Países pobres não tênem rede segura de infraestruturas básicas, nenhuma segurança de fornecimento de energia — como vão se preocupar com as pegadas de carbono, se não for factível priorizar fontes limpas? Mesmo países de renda média, cuja economia cresce, mas em que a oferta de infraestrutura não consegue acompanhar: como podem garantir a segurança de fornecimento energético somente com fontes renováveis, que dependem mais de fatores climáticos? E a energia nuclear, é sustentável ou não? 

Questões sociais 

Os temas sociais foram os últimos a chegar às discussõesMesmo sendo a categoria com maior participação entre os objetivos do milênio da ONU, as empresas e os investidores demoraram para incorporá-los. Um possível marco é a definição, em 2015, dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável para 2030, em que mais uma vez os temas sociais, como acabar com a pobreza e a fome, dominam a lista. Uma das metas é a igualdade de gênero, e é na questão da diversidade que o assunto chega às reuniões de conselhos — apesar disso, ainda há muitas empresas que nem sequer têm uma mulher entre seus conselheiros. De forma mais ampla, muitas empresas já se preocupam em ajudar as comunidades em que estão inseridas quando fazem ações sociais, mas o começo de soluções de problemas sociais pode estar na resolução de problemas internos das empresas. 

Está claro que investimento responsável, resumido na sigla ESG, não é uma moda passageira. Ele está alinhado com a proteção do capital dos investidores ao buscar mitigar riscos materiais entendidos de forma ampla. Entretanto, exigir imediatamente a perfeição pode beneficiar grandes empresas em detrimento das pequenas, além de gerar outras distorções. A adoção de medidas para melhorar o relacionamento das empresas com a sociedade já começou, mas é um caminho longo, com erros, acertos e descobertas que deve levar em conta as diferenças entre cada país e cada setor de forma pragmática.  

Agradeço a ajuda do meu colega Victor Tâmega na preparação deste texto e na difusão dos temas de investimentos responsáveis na Rio Bravo. 


Evandro Buccini, sócio e diretor de Renda Fixa e Multimercado da Rio Bravo Investimentos 


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