A origem dos “homens fortes”
É tempo de se analisar os padrões de conduta dos autocratas populistas e pensar em estratégias para detê-los
Nelson Eizirik
Nelson Eizirik é advogado no Rio de Janeiro e em São Paulo e professor da FGV Direito Rio ‎| Ilustração: Julia Padula

O ataque da Rússia à Ucrânia revela a face cruel do regime autocrático invasor, com todos os riscos para o país invadido e para a humanidade. Mais do que nunca, é tempo de se analisar a origem do autocrata populista e pensar sobre como impedi-lo de prosseguir em sua jornada de destruição. Foi o que se propôs a fazer a professora da Universidade de Nova York, Ruth Ben-Ghiat, no livro “Strongmen – Mussoluni to the Present”, publicado em 2020. Vale a pena a sua leitura, principalmente nos dias atuais.

Segundo a autora, alguns exemplos de “homens fortes” são: Berlusconi, Khadafi, Hitler, Mussolini, Trump, Pinochet, Erdogan, Bolsonaro. Ao estudá-los, ela procura detectar padrões na evolução do autoritarismo combinado com o populismo. O líder autocrático populista apresenta-se como a encarnação dos desejos “do povo” —aqueles que o apoiam —, constituindo seus críticos, principalmente os intelectuais e os jornalistas, “os inimigos do povo”.

Os “homens fortes” reciclam a história para reabilitar seus predecessores autocratas. Putin aprovou a construção de estátuas de Stalin e agora alega que a guerra contra a Ucrânia constitui processo de erradicação de nazistas; Borlusconi insistia que Mussolini não mandara matar ninguém; movimentos de extrema direita clamam que o nazismo (por ser denominado “Nacional Socialismo” na Alemanha) foi um movimento de esquerda; aqui glorifica-se o golpe de 64 como um legítimo movimento para salvar a democracia.

Um traço comum desses líderes é o uso do poder em proveito próprio ou de seus familiares. Normalmente personalistas, os autocratas não distinguem suas agendas pessoais das necessidades da população. Vale tudo para a defesa de seus interesses próprios — afinal, consideram-se ungidos pela vontade popular.

Outras características desses “homens fortes” são: eles buscam construir “uma grande nação”, de preferência para lutar contra inimigos externos (existentes ou criados), o que justifica a necessidade de terem poder absoluto; investem maciçamente em propaganda para instilar lealdade e medo nas pessoas (como dizia Goebbels, na propaganda, como no amor, tudo que for bem sucedido é permitido); demonstram virilidade e força física, praticando esportes radicais, propagando potência sexual e menosprezando movimentos feministas e identitários (“é tudo mimimi”); praticam a corrupção, facilitada pelo aparelhamento dos órgãos encarregados que deveriam impedi-la; usam a violência, seja física, como política de Estado nas ditaduras, seja como ameaças na imprensa e nas redes sociais em regimes ainda democráticos.

E como deter os autocratas? No fundo do coração do “homem forte” há uma inabalável crença de que ele e seus seguidores estão acima da lei e dos tribunais, porque encarnam “a vontade do povo”. O contra-autoritarismo, menciona Ruth Ben-Ghiat, deve priorizar o fortalecimento das instituições democráticas, o primado da lei. Deve buscar ainda impedir, como bem observou a Ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), a “cupinização institucional”, referindo-se à destruição de nosso país por dentro.


Nelson Eizirik é advogado no Rio de Janeiro e em São Paulo e professor da FGV Direito Rio

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