Timing adequado pode ajudar empresa a escapar de recuperação judicial

Percepção do momento adequado para agir é fundamental para negócios em dificuldades financeiras e operacionais



André Pimentel é sócio da consultoria Performa Partners | Ilustração: Julia Padula

No mundo corporativo, nada mais equivocado do que a popular expressão “antes tarde do que nunca”. Para empresas em dificuldades operacionais e financeiras, acertar o timing para agir pode ser a diferença entre garantir a perenidade ou permitir a derrocada do negócio.

Aceitar mudanças na gestão quando ainda há tempo para transformação pode significar a possibilidade de recuperação de um ciclo positivo e virtuoso. Resistir, ao contrário, tende a representar a ultrapassagem do “turnaround point” – ponto a partir do qual, pelas vias operacionais e financeiras ordinárias disponíveis para a empresa e/ou seu(s) acionista(s), não é mais possível recuperar o negócio. Isso pode levar à perda de muitos empregos, da função social da empresa, da reputação, e do patrimônio (às vezes construídos ao longo de décadas de dedicação e esforço).

O grande risco é não acreditar que o ponto de virada pode estar próximo, onde a partir de então a gestão só terá instrumentos extraordinários para tentar uma (improvável) reviravolta.

Os anos de experiência com reestruturação e recuperação de empresas mostram muitos casos de bons negócios, empresas longevas e marcas reconhecidas que simplesmente não foram mais capazes de seguir em frente por conta própria. É comum que não tenham aceitado a proximidade ou a ultrapassagem do ponto de virada, ou que não tenham sido capazes de procurar sozinhas as alternativas e soluções que pudessem ajudá-las a reverter a situação sem o recurso de instrumentos extraordinários, como a recuperação judicial.

Pré-requisitos para reestruturação

Nas avaliações de potenciais projetos de reestruturação, é necessário ter critérios para entender se estão presentes dois pré-requisitos fundamentais ao processo. Em primeiro lugar é preciso acreditar que o ponto de virada ainda não foi ultrapassado; depois, é necessário ter certeza de que os acionistas verdadeiramente querem ajuda externa para superar as dificuldades.

Em um grande número de casos, os consultores não encontram a primeira premissa: muitas empresas só procuram assessoria externa quando estão muito além do ponto de virada – ou seja, perderam o timing. Nesses casos, em geral, verifica-se:

  • endividamento excessivo, em proporções que continuariam sendo consideradas elevadas mesmo se os resultados fossem um pouco melhores;
  • longo histórico de perda de rentabilidade e relevância no seu segmento, o que significa que não se trata de uma situação pontual ou fruto de erros e/ou eventos negativos apenas recentes;
  • existência de equipes desestruturadas, pois parte dos recursos humanos de qualidade foi saindo ao perceber que a empresa não respondia prontamente às dificuldades (e, ao longo do tempo, a empresa acabou perdendo a capacidade de repor bons profissionais, pois a “fama” se espalhou);
  • perda de qualquer parâmetro de visão estratégica de médio e longo prazos (algumas empresas operam por tanto tempo no modo “sobrevivência de curto prazo”, que acabam perdendo as noções sobre futuro).

Na maioria dos casos, a falta da primeira premissa está associada à ausência da segunda. Muitos acionistas procuram ajuda de fora, mas sem muita convicção; outros o fazem apenas por pressão externa ou de credores, ou porque já não conseguem manter suas operações. Costuma-se ver nesses casos:

  • falta de percepção precisa da realidade; muitos acionistas, pelo fato de terem conseguido continuar operando com muitas dificuldades por um longo tempo, não se dão conta de que isso não pode se estender indefinidamente;
  • discurso que minimiza as dificuldades, como se fossem simples, passageiras e, ocasionalmente, infligidas por eventos externos (e não resultados do acúmulo de muitas decisões internas equivocadas e/ou da falta de decisões internas necessárias);
  • postura reativa para aceitar abrir mão da gestão executiva do negócio, mesmo que interinamente, e também para aceitar seguir uma governança formal, a ser implementada, baseada em boas práticas de mercado.

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Nos casos em que o ponto de virada foi ultrapassado, buscar a recuperação judicial para um “soft landing” ainda pode ser possível — ou seja, uma tentativa de, mesmo se desconstruindo, ainda poder fazê-lo sem deixar sequelas para os diversos stakeholders. Mas muitas vezes, nem isso; assim, a recuperação judicial se torna uma formalidade que decreta o fim do negócio.

O peso da recuperação judicial

Para se ter uma ideia do que é uma empresa entrar em recuperação judicial, segundo análises feitas a partir de dados da Serasa Experian, no Brasil apenas cerca de 6% das empresas que entram com pedido de recuperação judicial conseguem sair do regime formalmente e continuar operando (e se tirarmos da estatística aquelas que são “too big to fail”, esse número é ainda menor).

Outro dado impressionante, segundo o Banco Mundial (relatório “Doing Business”), indica que a taxa de recuperação das dívidas pelos credores de empresas em recuperação judicial no Brasil é de apenas 16%. Não é, portanto, um bom caminho para ninguém.

Além disso, a recuperação judicial é um caminho caro: segundo a OCDE o custo do processo de recuperação judicial é em média equivalente a 9,1% do total de ativos da empresa requerente.

Diante de tudo isso, fica a reflexão: por que não investir na reestruturação do negócio enquanto ainda dá tempo?


André Pimentel (andre.pimentel@performapartners.com) é sócio da consultoria Performa Partners


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