Faltam métricas para family offices aderirem de fato ao ESG

Limitam atuação desses investidores aspectos como risco de greenwashing e escassez de ativos



Faltam métricas para family offices aderirem de fato ao ESG
Apesar dos esforços de entidades e reguladores mundo afora em relação à transparência do ESG para que gestores possam tomar boas decisões de investimento, a realidade é que ainda há poucas ferramentas disponíveis para os family offices viabilizarem esse filtro | Imagem: freepik

Embora a agenda ESG esteja avançando rapidamente, grande parte dos family offices brasileiros ainda não investe de forma mais assertiva em negócios com esse recorte, em contraste com o entusiasmo de investidores institucionais globais de maior projeção. Nesse cenário, vale uma análise dos motivos que travam essa pauta entre os family offices no País. Como mostrou pesquisa recente com gestores e private bankers1, as gerações mais experientes que hoje comandam grandes empresas nacionais e suas respectivas estruturas de gestão de patrimônio têm opiniões divididas em relação ao assunto. 

Do ponto de vista dos gestores, 75% dizem adotar metodologias internas para avaliar maturidade e impacto ESG entre as investidas. As principais razões citadas pelos que ainda não incorporam critérios ESG a essa avaliação são a ausência de classificação confiável, o risco de greenwashing e a escassez de ativos que de fato tenham impactos nessa direção. Em contrapartida, 80% afirmam que se houvesse um índice ESG elaborado e divulgado por uma entidade de referência ou órgão regulador o adotariam para reportar ao investidor o perfil ESG da carteira. No entanto, o percentual cai para 70% quando se trata de efetivamente desenhar estratégias de alocação.  

Externalidades negativas 

Além de métricas confiáveis, a temática ESG, também no contexto dos family offices, requer o desenvolvimento de alguns pontos adicionais, como a identificação e a precificação de externalidades negativas das investidas. É preciso que as empresas tomem para si a responsabilidade pelas externalidades e se reinventem sem elas, ainda que tenham que ser pioneiras em seus setores.  

Uma série de organizações já se debruça sobre a questão da necessidade de se criar parâmetros ESG. A Comissão Europeia prevê o estabelecimento de um padrão ESG para junho de 2022 e, paralelamente, há três grupos internacionais de trabalho estudando a criação de normas, métricas e relatórios comuns: o do World Economic Forum em conjunto com as quatro maiores firmas de auditoria do mundo (EY, Deloitte, KPMG e PwC), o da International Organization of Securities Commissions (Iosco), e o do International Business Council (IBC) em parceira com cinco outras entidades de referência. No Brasil, o Banco Central encerrou em abril passado uma audiência pública sobre critérios de sustentabilidade em operações de crédito rural e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) concluiu em março audiência pública sobre simplificação da Instrução 480 e aprimoramento da divulgação de informações a respeito de práticas ESG das companhias. 



Criação de valor 

Pela perspectiva de sustentabilidade, a visão mais consistente até agora é a de criação compartilhada de valor, apresentada por Michael Porter e Mark Kramer em artigo de 2011 para a Harvard Business Review, intitulado “Creating shared value”. No texto, eles esclarecem que esse conceito exige indicadores objetivos e relevantes para três aspectos — redesenhar produtos e mercados, redefinir o conceito de produtividade na cadeia de valor e possibilitar o surgimento de polos de desenvolvimento locais — em cada unidade de negócio de uma organização. Porter e Kramer esclarecem, ainda, que enquanto algumas empresas já haviam começado a mapear diversos impactos sociais, apenas poucas já tinham conseguiram conectá-los aos interesses econômicos das suas linhas de negócio.  

Apesar dos esforços de entidades e reguladores mundo afora em relação à transparência do ESG para que gestores possam tomar boas decisões de investimento, a realidade é que ainda há poucas ferramentas disponíveis para os family offices viabilizarem esse filtro. Até que esses instrumentos estejam consolidados e disseminados, é provável que poucos gestores estarão dispostos a assumir o risco de chancelar como ESG uma iniciativa que no futuro poderá efetivamente não ser. 

O cenário hoje envolve empresas empenhadas em fazer autoavaliações com base em quesitos ESG, de um lado, e os desafios de auditoria, monitoramento e divulgação adequados e de cumprimento de padrões estabelecidos, de outro. Enquanto não houver uma definição mais precisa do que representa o ESG para os investimentos e maior clareza sobre as metodologias para se identificar e graduar os aportes com esse recorte, muitos family offices continuarão sem a segurança necessária para aderir a essa tendência de forma mais consistente. 


Jonathan Mazon (jonathan@jlegalteam.com), sócio do Junqueira Ie Advogados na área de governança corporativa, e Lavínia Junqueira (lavinia@jlegalteam.com), sócia-fundadora do escritório 


1Pesquisa feita pelo escritório Junqueira Ie Advogados em julho de 2021 com 12 representantes de gestoras de ativos e private bankers que atuam no mercado brasileiro 

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