Como as startups podem reforçar o caixa com eficiência durante a crise

Mercado brasileiro já oferece diversas alternativas de financiamento não bancário, como o venture debt

Captação de recursos/Artigos / 31 de julho de 2020
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Como as startups podem reforçar o caixa com eficiência durante a crise

Gabriela Gonçalves | Ilustração: Julia Padula

“As coisas difíceis são difíceis porque não há respostas fáceis ou receitas. Elas são difíceis porque suas emoções estão em desacordo com sua lógica. Elas são difíceis porque você não sabe a resposta.” A frase, retirada de “O Lado Difícil das Situações Difíceis”, de Ben Horowitz, não poderia ser mais adequada ao momento atual.

A complicada circunstância criada pela pandemia de covid-19 envolve incertezas de epidemiologia, protocolos de tratamento, desenvolvimento de vacinas, políticas públicas de confinamento e isolamento social e reação da economia. Com a evolução das medidas restritivas no curto prazo e o nível de confiança da população no médio e longo prazos para voltar às suas atividades devem surgir novos padrões de comportamento e consumo.

Nesse contexto, o lado difícil é simplesmente sobreviver. Em postagem recente no LinkedIn, o CEO da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, compilou uma espécie de guia básico de sobrevivência das empresas. Uma das dicas: “tenha excesso de caixa”.

Uma empresa pode até viver sem lucro, mas não sem caixa. O lado difícil, no momento, é saber como buscar fontes para reforçar caixa num ambiente incerto de crescente aversão ao risco

Menos dinheiro no venture capital

Segundo levantamento da consultoria em inovação Distrito, as startups brasileiras receberam 2,7 bilhões de dólares em aportes em 2019 — um crescimento de 80% na comparação com 2018, quando o total foi de 1,5 bilhão de dólares. Hoje, no entanto, os fundos de venture capital estão mais cautelosos, concentrados em seus portfólios atuais e em busca de oportunidades mais resilientes e de menor necessidade de capital.

Durante a crise de 2008, houve uma queda de 28% no volume total de investimentos de venture capital nos Estados Unidos. Embora a quantidade de negócios não tenha caído, o valor de aporte de cada um deles diminuiu. Além disso, o intervalo médio entre rodadas tende a aumentar — em 2008 o tempo médio de negociação subiu de 19 para 25 meses. Podemos esperar um comportamento semelhante durante a atual crise.

Nesse cenário em que a fonte mais comum de capital para startups começa a secar, quais seriam as alternativas de financiamento para que sobrevivam? E qual o modelo certo para cada empresa? Não existem respostas prontas e padrão para essas perguntas.

No Brasil, as opções de dívida para startups ainda são poucas e recentes — o que, em outras palavras, quer dizer que a maioria dos empreendedores ainda não tem experiência para avaliar os diferentes modelos e encontra dificuldade para escolher qual a melhor opção para o momento do seu negócio.

Opções de financiamento para startups

Apesar de não existir uma receita para essa tomada de decisão, o empreendedor pode se utilizar de sua rede de contatos (fundos, advisors e outros empreendedores) para se informar e tentar trilhar o que entende ser o melhor caminho para atravessar a tempestade.

A primeira fonte de financiamento deve ser interna. Renegociação de prazos de pagamento com fornecedores, refinanciamento de impostos e o que mais a estrutura permitir. A empresa também deve olhar com atenção para as linhas incentivadas que o governo lançou para atenuar o impacto da crise. Elas têm custos mais baixos, mas infelizmente o acesso é difícil e demorado. Essas duas ações iniciais, de qualquer maneira, ainda são a parte fácil da resposta e provavelmente se encaixam na realidade de praticamente todas as startups.

Os bancos tendem a ser a próxima fonte que vem em mente. As empresas têm relacionamento com um banco comercial e a maioria já tem alguma dívida em andamento, em geral de curto prazo. O modelo mais comum é que o banco estenda a linha de crédito para seus clientes dentro de um limite determinado pela movimentação financeira da empresa, fator que que ele controla.

Essa é a dívida que a empresa deveria deixar na manga — afinal, o crédito já está pré-aprovado e a liberação é rápida. Pode ser a linha a se recorrer em uma emergência. Já para créditos de maior volume e com prazos mais longos, os bancos tendem a não ser a escolha correta. Para obter esses empréstimos a empresa precisa apresentar resultados históricos e oferecer garantias reais, pré-requisitos nem sempre disponíveis em uma startup.

No mercado brasileiro começam a surgir também modelos de dívida de capital de giro, de curto prazo, específicos para empresas inovadoras de alto crescimento. Há linhas atreladas ao faturamento recorrente da empresa e estruturas mais personalizadas, que alguns fundos oferecem como “produtos de entrada”.

Essas linhas tendem a ser de valores baixos e servem para financiar o capital de giro ou um eventual descasamento de caixa. Trata-se de produtos em geral disponibilizados por investidores de dívida, especializados em startups, que gostariam de iniciar um relacionamento com a empresa.

Às vezes, a alternativa mais adequada é contrair dívidas de valor mais significativo, que vão conseguir dar conforto de longo prazo para uma execução tranquila do plano de negócios. Esse tipo de crédito oferece carência e prazos de pagamento mais longos, tendo pouco impacto no caixa no curto prazo. É o caso do venture debt, um produto novo no mercado brasileiro e que tem flexibilidade para criar dívidas estruturadas e customizadas de acordo com a necessidade e a estratégia de crescimento da startup.

Os fundos de venture debt assumem um risco diferente dos credores tradicionais, indexando parte da sua remuneração ao sucesso da empresa. Esse é o player que faz a análise de crédito da startup como deve ser: baseada em seu potencial, olhando para o futuro e não apenas o histórico realizado; com avaliação dos ativos realmente disponíveis na empresa, como fluxos futuros de contratos de longo prazo e até ativos intangíveis.

O ideal é que a empresa mantenha uma boa folga de caixa para passar pela crise — e, quem sabe, até ter reservas para aproveitar oportunidades que possam surgir em meio à pandemia. Contar com uma opção de fácil e rápido acesso para uma imprevisibilidade, como a linha de crédito bancária, também não é má ideia.

Escolher uma combinação de mais de uma das alternativas igualmente é uma estratégia adequada. Cada uma delas tem características específicas e poderá cumprir funções diferentes no planejamento financeiro. Além disso, ampliar a rede de parceiros tende a apresentar resultados positivos.

Relacionamentos que começaram neste momento podem gerar novas oportunidades no futuro. Por isso, ter parceiros com bolsos fundos, que conhecem a empresa e podem aumentar suas apostas, é de grande valia para facilitar a jornada da startup.


*Gabriela Gonçalves (gabriela.goncalves@brasilvd.com.br) é CEO do Brasil Venture Debt. Coautoria de Karime Hajar Alves (karime.alves@brasilvd.com.br) diretora-associada.


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Tags:  venture capital Startups inovação venture debt Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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