Sangue frio na turbulência

Por que é tão difícil “comprar no medo e vender na ganância”

Artigo / Bolsas e conjuntura / 1 de outubro de 2017
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Rodrigo L. Knudsen*

Rodrigo L. Knudsen*

“Compre ao som de canhões, mas venda ao soar das trombetas” – Nathan Rothschild, 1810

No passado, quando uma guerra começava (som de canhões) os mercados caíam fortemente por causa das incertezas geradas. Muitas vezes o pânico fazia os ativos de risco se desvalorizarem muito mais do que deveriam. Já no final do conflito (som das trombetas), os mercados voltavam a subir, dando bastante lucro aos que tinham conseguido vencer o medo. A regra “compre no medo, venda na ganância” (“buy on fear, sell on greed”) é bem conhecida no mercado financeiro, com eficácia comprovada. Fácil falar, difícil fazer.

O medo é uma de nossas emoções mais primárias. Por meio de respostas biológicas ele nos prepara para lutar ou fugir, transformando-nos em alguns casos em verdadeiras máquinas de sobrevivência. Por isso é tão difícil comprar ativos de risco nesses momentos. O medo nos leva a vendê-los — é a garantia de sobrevivência. Mas não podemos ser dominados pelas nossas emoções enquanto tomamos decisões de investimento.

E não é só o medo. São numerosos os erros cognitivos e vieses emocionais que diariamente turvam nossas decisões. As finanças comportamentais formam um campo de estudo relativamente novo, que busca combinar psicologia comportamental com finanças convencionais para tentar explicar por que as pessoas tomam decisões financeiras irracionais. Os pioneiros dessa ciência cognitiva são os psicólogos israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky, cujas teorias começaram a ser desenhadas no final dos anos 1960, mas que se popularizaram apenas neste século.

Os erros cognitivos são problemas na análise de informações, muitas vezes pela utilização de atalhos para processamento de uma quantidade muito grande de dados. Os vieses emocionais, como o medo, são mais difíceis de corrigir. E é em momentos de grande pressão e estresse que esses erros e vieses são amplificados, criando barreiras mentais e piorando ainda mais nossa tomada de decisões.

Nestes tempos turbulentos, uma importante barreira que temos que transpor é conseguir ir contra a “manada”. Comportamento de manada (herd behaviour) é a tendência que indivíduos têm de copiar as ações (racionais ou não) de um grupo maior, sendo que individualmente não tomariam necessariamente a mesma decisão. É a pressão social de conformidade, dado que as pessoas são sociáveis e querem ser aceitas pelo grupo. Originado por analogia ao mundo animal, é também conhecido como instinto de rebanho (estudado pelo filósofo Nietzsche) ou o mais popular “maria-vai-com-as-outras”. É um dos fatores que causam bolhas financeiras que, quando estouram, geram grandes prejuízos. Bons gestores sabem evitar essas bolhas, e muito deles evitam ficar discutindo muito com seus pares para não serem influenciados demasiadamente. Warren Buffett é um deles, e não é à toa que tem sua sede em Omaha, em Nebraska, e não em Wall Street.

A grande disponibilidade de liquidez atualmente observada nos mercados mundiais e a dificuldade de obtenção de retornos atrativos em investimentos pode explicar por que se observa no Brasil uma certa (e até incrível) calmaria nos mercados mesmo frente a expectativas econômicas e fiscais negativas e ambiente político de incertezas. A “manada”, ao menos por ora, está surpreendentemente tolerante; mas no momento em que um pouco mais de pessimismo for tornando-se uma visão uniforme dentre os agentes econômicos, o movimento de “medo e então fuga” da manada poderá ser intenso, e com consequências muito custosas aos nossos ativos e mercados.

Infelizmente, o estudo de finanças comportamentais ainda não oferece uma solução abrangente para os vieses. Não há escapatória. Mas com estudo, autoconhecimento e disciplina podemos limitar nossos erros, dominar nossas emoções e investir da forma mais racional possível. É muito fácil se deixar ser influenciado pelo pessimismo e desânimo generalizado com o cenário econômico e social brasileiro. Não ouvimos canhões, mas somos bombardeados por numerosas gravações.

Controlando as emoções e mitigando os erros cognitivos, transpondo a barreira do medo e lutando contra o efeito manada é possível alocar em ativos de risco para o longo prazo. É claro que os riscos são grandes, mas as oportunidades são proporcionais. O retorno esperado deve ser condizente com o risco, que pode ser mitigado com um horizonte de investimento longo e escolha minuciosa de ativos.


*Rodrigo L. Knudsen, CFA (rodrigo@mpadvisors.com.br) é CIO da MP Advisors. Colaborou Ricardo Perpetuo (ricardo@mpadvisors.com.br), sócio da MP Advisors.


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Tags:  investimento ativos de risco Rodrigo L. Knudsen finança comportamental Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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