Revolução necessária

Tecnologia pode ajudar mercado brasileiro de aluguel de ações a ser mais ágil e transparente

Artigo / 10 de dezembro de 2017
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André Duvivier*

André Duvivier*

O mercado brasileiro de aluguel de ações, que atualmente tem um estoque de cerca de 40 bilhões de reais, crescerá de forma exponencial se adotar a automação de processos de negociação e solucionar alguns outros gargalos.

Hoje ainda se negocia o aluguel de ações como em um mercado de balcão. As partes conversam entre si, por telefone, para fechar os negócios que, posteriormente, serão registrados na B3. Essa dinâmica de negociação — de certa forma, arcaica — acaba limitando o crescimento dos fundos “long and short” e deixando o Brasil fora do radar de grandes hedge funds internacionais, que não podem contar por aqui com um ambiente estável para montar estratégias de valor relativo.

O mercado à vista de ações está bem mais avançado tecnicamente. Se um cliente negociar 10 ou 20 milhões de ações da Petrobras, por meio de mil ou 2 mil operações, isso é indiferente para a corretora e para os demais participantes do mercado. Caso faça o mesmo no aluguel de ações, a corretora com que opera vai travar, já que não há escala suficiente para o processamento de tantas operações. No aluguel, todo o trabalho de backoffice da corretora para destrinchar as ordens dos clientes é manual — e essa necessidade de recursos humanos inviabiliza a expansão do mercado de aluguel e aumenta a probabilidade de ocorrência de erros. Uma vez integrado a uma plataforma eletrônica, o mercado de aluguel de ações teria mais proximidade com a B3 e acesso a vendors, plataformas de varejo e custodiantes. Cotações de mercados eletrônicos e transparentes chegam muito longe e atraem novos participantes.

A queda das taxas de juros e o potencial de migração de investimentos da renda fixa para a renda variável têm estimulado o desenvolvimento das plataformas de varejo. Bancos e corretoras se preparam tecnologicamente para receber os investidores e atendê-los oferecendo diversos produtos. Ter escala de processamento e transparência permitirá ao varejo aumentar a receita-caixa (adicional ao dividendo), emprestando suas ações.

A entrada dos fundos de pensão, que hoje destinam apenas 1% de seus ativos para aluguel, assim como dos fundos de ações, que poderiam aumentar rapidamente suas posições doadas para esse segmento, faria com que o mercado dobrasse de tamanho. Diante de juros em queda, os investidores institucionais precisam entrar no mercado de aluguel para suprir parte da necessidade de rentabilização de seus ativos. É comum ações com liquidez em bolsa pagarem 300% do CDI nas operações de aluguel.

A limitada capacidade de processamento de transações e a falta de transparência nas cotações são obstáculos que dificultam a presença dos investidores institucionais no mercado de aluguel de ações. A B3 disponibiliza as cotações médias de mercado uma vez ao dia, no início do pregão; mas para o investidor institucional é importante que o negócio realizado seja registrado com o preço do momento da negociação. Caso o mercado oscile de forma importante ao longo do pregão, o investidor institucional terá dificuldade para explicar aos seus stakeholders porque pagou um preço muito distante da média.

Para as corretoras, mais volume em aluguel significaria mais volume em corretagens no mercado à vista; para a B3, mais emolumentos.

Espera-se que a abundância de recursos de tecnologia à disposição das fintechs interessadas em ocupar esse espaço de mercado impulsione o mercado de aluguel de ações no Brasil. O que era caro e inacessível há alguns anos hoje é viável com o uso de recursos na nuvem e de pacotes mais baratos de tecnologia, por exemplo. Assim como nos Estados Unidos e na Europa, onde há uma profusão de soluções na tela dos operadores para negociação de vários mercados, o Brasil também pode ter mais ferramentas tecnológicas à disposição dos participantes. Afinal, as fintechs conseguem acelerar o desenvolvimento dos mercados por não dependerem do legado de sistemas ou fluxos existentes para achar soluções.


*André Duvivier (andre@sltools.com.br) é sócio-fundador da SL Tools



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Tags:  mercado de capitais tecnologia mercado de ações inovação André Duvivier Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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