Olhos abertos para os projetos greenfield

Diferenciar-se com modelos ousados de negócios é essencial na fase da originação

Captação de recursos/Artigo / 31 de agosto de 2018
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Casemiro Tércio em ilustração

Casemiro Tércio*/ Ilustração: Julia Padula

Os investimentos em projetos greenfield — que envolvem a alocação de recursos em projetos incipientes — são os que em geral dão maior retorno no segmento de infraestrutura, mas também são os mais arriscados. Afinal, muitos deles podem fracassar antes mesmo de a primeira estaca ser cravada ou a terraplanagem ser executada. Os riscos desses projetos estão associados a estudos de engenharia, levantamentos primários com baixa qualidade de informação, estudos ambientais, falta de mapeamento de conflitos locais, ausência de envolvimento antecipado dos órgãos reguladores e autoridades, entre outras debilidades. Hoje, um projeto executivo e uma licença ambiental não são mais condições suficientes para o sucesso de um projeto greenfield.

Para se mitigar esse risco, é necessário que se olhe para uma plataforma de projetos com uma ótica de venture capital. Projetos em estágio inicial devem ser acompanhados de perto pelos investidores. Mesmo que não tenham um conhecimento técnico a respeito do projeto, eles devem estar cientes das ações do gestor para diminuição da matriz de risco. Por terem menor escala de investimento, mas com bons multiplicadores de capital (justamente pela mitigação do risco), os projetos greenfield permitem que os investidores optem, em um segundo momento, pela entrada na fase mais adiantada de capex — inclusive pagando um prêmio menor que os fundos de private equity, potenciais fontes de aquisição juntamente com EPCistas¹ e operadores de ativos de infraestrutura. As aquisições dos ativos de infraestrutura no Brasil têm tido multiplicadores da margem de Ebitda muito superiores à média mundial. Essa diferença é justamente o prêmio pago para o estruturador do projeto pelo seu sucesso.

Processos disruptivos não existem apenas nas indústrias 4.0. Diferenciar-se no setor de infraestrutura com modelos ousados de negócios é essencial na fase da originação. A eleição de projetos em um processo de originação começa pela tese de investimento, que deve ser suficientemente forte e prescindir de garantias como contratos “take or pay” ou das garantias normalmente exigidas por instituições de financiamento.

Antes de se entender o perfil do investidor nesse tipo de venture capital é importante que se identifique sua diferença em relação àqueles que estão no mercado das startups de tecnologia, por exemplo. O multiplicador do capital, na infraestrutura, não está na escalabilidade do projeto: está no valuation do seu fluxo de caixa no momento de liquidez. Deve-se considerar, ainda, o prêmio pela dificuldade de se empreender em meio a numerosas licenças, outorgas e autorizações no Brasil. Essa missão quixotesca, no caso ilustrativo de um empreendimento portuário, passa pela obtenção de pelo menos 20 autorizações e licenças. Além disso, o empreendedor precisa assumir responsabilidade de cobertura de passivos de programas e equipamentos sociais, principalmente onde o Estado não está.

Na captação de recursos para a infraestrutura, é fundamental a antecipação, associada a uma baixa exposição, pois basicamente o fundo cobre estudos e planejamento construídos sob uma visão territorial e envolvendo empreendedores regionais — mais um ponto fundamental de sucesso.

O que se identifica no perfil desse tipo de captação é o apetite de investidores que já investem em ativos ilíquidos motivados pela diversificação de negócios, além do interesse no desenvolvimento de algumas regiões do País (onde podem, obviamente, se apropriar desse multiplicador). Daí a importância do envolvimento dos investidores com os empreendedores locais. Essa lógica propicia uma ligação mais forte entre investidores e projetos quando se olha para regiões e não só para setores da economia.


*Casemiro Tércio (tercio@garininvestimentos.com.br) é sócio da Garín Investimentos

¹ EPCista – Empresa contratada em EPCs (Engineering, Procurement and Construction Contracts), contratos de construção de obras de grande porte.

 


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Tags:  private equity venture capital infraestrutura Greenfield Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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