Os desafios impostos pelo fim da Libor

Taxa que serve de referência para 350 trilhões de dólares em contratos deve ser substituída pela SOFR até o final de 2021

Artigo/Legislação e Regulamentação / 12 de julho de 2019
Por     /    Versão para impressão Versão para impressão


Gregory Harrington | Ilustração: Julia Padula

Taxa de juros que serve de referência para uma enormidade de 350 trilhões de dólares em contratos financeiros no mundo, a Libor (London interbank offered rate) deve ser desativada até o final de 2021. O motivo é a preocupação dos reguladores quanto à confiabilidade da taxa. Em busca de opções mais seguras para a substituição, o Alternative Reference Rates Committee (ARRC), grupo de trabalho organizado pelo Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos), escolheu a SOFR (secured overnight financing rate) como a nova taxa referencial para operações com títulos e para empréstimos denominados em dólar. Para outras moedas e outros mercados estão sendo desenvolvidas taxas alternativas.

A transição da Libor para a SOFR até 2021 apresenta vários desafios. Primeiro: enquanto a Libor vale para vários períodos de contagem de juros (três meses, seis meses e outros intervalos), sua substituta hoje só está disponível como uma taxa overnight. O mercado está estruturando curvas de SOFR para períodos prospectivos, mas levará tempo até que o mercado as adote.

Em segundo lugar, a Libor é geralmente mais alta, por ser uma taxa de empréstimo interbancário sem garantia — a SOFR é baseada em operações garantidas por títulos do Tesouro dos EUA (os repos). Como resultado, a simples mudança de Libor para SOFR num contrato de empréstimo, sem nenhum outro ajuste, diminuiria os juros que o credor receberia — e que o mutuário pagaria. Portanto, qualquer cláusula de juros que contemple a futura transição da Libor para a SOFR deve envolver um ajuste ascendente no spread comercial na hora do aditamento do contrato, para se assegurar que os níveis de taxa pré e pós-alteração sejam compatíveis.

Mas o maior desafio está nos contratos já existentes que vencem após a data de transição. Nesse caso, surge a chamada “zombie Libor”: a taxa permanece em contratos vigentes, apesar de a taxa em si ter deixado de existir. Quando um contrato de empréstimo está vinculado a uma taxa de juros que não existe mais, quanto é que o mutuário paga? Estima-se que aproximadamente 35 trilhões de dólares em operações atuais corrigidas pela Libor vençam depois de 2021; ou seja, configura-se um problema de US$ 35.000.000.000.000,00.

Os contratos de empréstimos com base na Libor geralmente são acompanhados por certas alternativas (fallbacks), previstas para o caso de a taxa não ser mais determinável usando-se o método previsto no documento (geralmente uma página na Reuters ou na Bloomberg). No entanto, em muitos contratos esses fallbacks são acionados somente quando a Libor não está disponível (não é exibida na tela designada, por exemplo); não se considera um cenário em que essa taxa referencial não exista mais.


Leia também

O que é, afinal, ágio interno?

O papel dos auditores na fiscalização do investimento incentivado em P&D

As razões por trás da onda ultraconservadora no mundo


A modificação dos contratos já existentes será um desafio. Negociações para alteração de empréstimos bilaterais devem ser relativamente simples; já negociações relativas aos empréstimos sindicalizados, cuja documentação geralmente exige a aprovação de 100% dos credores para que seja modificado o método de cálculo de juros, mostram-se mais complexas. Os problemas se multiplicam nas operações de securitização e de grandes projetos de infraestrutura, que têm uma documentação ainda mais complicada. Mas se espera que o desafio maior esteja na mudança dos títulos de taxa flutuante, já que tipicamente esses papéis são amplamente distribuídos, às vezes a investidores que são menos sofisticados e menos atentos, tornando-se quase impossível a aprovação de 100% dos detentores.

Contratos mais recentes incluem um fallback diferente, que já contempla o momento em que a Libor deixará de existir. Além disso, grupos de trabalho do mercado financeiro internacional — além do ARRC, a International Swaps and Derivatives Association (Isda) — estão atuando no desenvolvimento de uma abordagem consistente para a transição. Mesmo assim, será difícil se estruturar uma linguagem 100% adequada até que as incertezas relativas à SOFR sejam resolvidas. Ao mesmo tempo, existe uma preocupação grande de que os respectivos fallbacks sugeridos pelo ARRC e pela Isda não fiquem alinhados, o que resultaria em hedges imperfeitos.

Para as partes envolvidas em contratos corrigidos pela Libor, cabem algumas recomendações. A primeira atitude deve ser um balanço dos riscos de exposição a essa taxa referencial, priorizando as operações que vencem após 2021. Além das cláusulas relacionadas à Libor, devem ser revisadas as disposições sobre aditamentos ao contrato. Discussões com contrapartes devem começar o mais cedo possível. É necessário também que se revise os documentos padrão para verificar se eles devem ser aditados para operações futuras.

Mais uma ação importante é a revisão de sistemas internos, para que se entenda quais ajustes podem ser necessários para empréstimos futuros baseados na SOFR, qualquer que seja o método de cálculo eventualmente adotado. Para o setor bancário, os sistemas e procedimentos de back office e middle office — sobre o cálculo de juros e o faturamento de clientes, por exemplo — precisarão ser adaptados.

O ano de 2021 pode até parecer distante, mas os ajustes que os participantes do mercado financeiro precisarão fazer são enormes. Assim, a hora de fazer um balanço dos riscos é agora.


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a três reportagens mensalmente.

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o seu limite de {{limit_online}} matérias por mês. X

Ja é assinante? Entre aqui >

ou

Aproveite e tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais!

Básica

R$ 36 00

Mensal

Acesso Digital
-
Desconto de 10% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Completa

R$ 42 00

Mensal

Acesso Digital
Edição Impressa
Desconto de 10% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Corporativa

R$ 69 00

Mensal

Acesso Digital - 5 senhas
-
Desconto de 15% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Clube de conhecimento

R$ 89 00

Mensal

Acesso Digital - 5 senhas
-
Desconto de 20% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital | Acervo de Áudios



Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  spread Libor risco financeiro SOFR Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Navio do J.P.Morgan flagrado com cocaína repercute nas redes
Próxima matéria
Investidores resgatam cerca de 30 bilhões de dólares de fundos ativos



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Navio do J.P.Morgan flagrado com cocaína repercute nas redes
Por que um banco seria dono de um navio? Por que esse navio carregaria o equivalente a 1 bilhão de dólares em cocaína?...
{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}