Impacto financeiro da mudança climática é real

Análise de dados aponta prejuízos bilionários e reforça que efeitos de desastres ambientais não podem mais ser desconsiderados

Artigo / 26 de julho de 2019
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*Axel Christensen | Ilustração: Julia Padula

Uma ampla consideração de riscos é etapa crítica em qualquer processo de investimento. Um projeto pode ser fantástico no papel, mas ter um resultado desastroso depois de ser impactado por imprevistos. Até hoje, no entanto, o foco da análise de riscos tem sido quase exclusivamente voltado à dimensão financeira (capacidade de pagamento, exposição às taxas de câmbio) e aos aspectos econômico (ciclo de atividade, inflação) e operacional (falha de maquinário). A respeito dos riscos ambientais, como as mudanças climáticas, há pouca conversa nos mercados financeiros — embora a discussão exista quando se trata de investimentos em setores da economia real, como mineração e energia elétrica.

Uma das razões para essa relativa desconsideração é a dificuldade de acesso a dados — pelo menos no nível de detalhes necessário para se analisar uma carteira de investimentos. Mas isso está mudando. Estudo recente conduzido pelo BlackRock Investment Institute (BII) mostra que os avanços tecnológicos e a análise de dados já permitem a avaliação das ameaças relacionadas a condições climáticas extremas, de frentes polares e furacões a incêndios florestais e ondas de calor. O que se viu até agora é surpreendente — e preocupante. As perdas potenciais com o impacto de eventos climáticos em indústrias que têm suas receitas vinculadas a ativos de prazos mais longos (casos de usinas de geração de energia e imóveis) não estão sendo incorporadas às decisões de investimento. Os preços de mercado dos investimentos nesses ativos, por ora, subestimam esses riscos.

Alguns exemplos relevantes: o mercado de títulos municipais dos Estados Unidos, um dos maiores do país, poderia ser afetado em 3,8 bilhões de dólares (o equivalente a 18% do PIB das cidades) por eventuais desastres causados por eventos climáticos extremos. A possibilidade de o conjunto de cerca de 60 mil propriedades comerciais ser afetado por um furacão destrutivo de grau 4 ou 5 aumentou quase 140% desde 1980. Essa análise do BII se concentrou nos EUA, mas a extensão para outros países — especialmente os emergentes, em que os recursos e as capacidades de previsão de risco são muito mais escassos — seguramente ofereceria resultados similares, ou até mais preocupantes.

As conclusões são inequívocas: a mudança climática é um risco que os investidores não podem se dar ao luxo de ignorar. E isso não é uma ameaça futura: já se tornou um risco do presente. Um perigo iminente.

Talvez nenhum país emergente tenha experimentado esse risco do presente tão fortemente quanto o Brasil. Evidências claras são os colapsos recorrentes de barragens de rejeitos de mineração, intimamente ligados às mudanças climáticas. Os eventos têm sérias consequências para a população, o meio ambiente e também para os preços dos ativos das empresas envolvidas com os acidentes.

As quedas dos preços das ações e dos títulos, bem como a piora das classificações de risco, comprovam como as mudanças climáticas têm impacto financeiro crescente. Esse pode ser o sinal de alerta para as empresas afetadas tomarem providências cada vez mais significativas — medidas que podem gerar mudanças profundas na dinâmica de sua própria atividade.


*Axel Christensen é diretor de estratégia para América Latina da BlackRock


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