Ameaças climáticas exigem nova abordagem nas empresas

Mudanças bruscas e inesperadas tornam evidente obsolescência de modelos baseados em ocorrências do passado

Artigo/Governança Corporativa / 17 de maio de 2019
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Lauro Marins*/ Ilustração: Julia Padula

Imagine-se dirigindo em uma estrada com chuva e tempo encoberto. Essa cena descreve bem a situação de um gestor ou gestora no século 21 conduzindo os seus negócios. O aumento drástico das temperaturas globais tem nos levado a um caminho sem volta e, para complicar, estamos ao volante com o olhar focado apenas no retrovisor.

Os principais indicadores e métricas corporativos hoje estão amparados no passado, modelo que também dá um norte à gestão de riscos — ainda em grande parte orientada por séries históricas que indicam a probabilidade de um evento acontecer no futuro. Essa abordagem pode servir para se tomar medidas de mitigação de fenômenos com características mais previsíveis, mas não é o caso dos riscos relacionados à gestão do capital natural, particularmente aquele associado ao clima. Um exemplo notório das limitações dessa abordagem surgiu com a crise hídrica no Sudeste do Brasil entre 2014 e 2015, resultado do maior período de seca registrado nos 50 anos anteriores. Nessa situação, a série histórica pouco ajudou a mitigar os riscos: ela serviu apenas para dar projeções de chuva que não se concretizaram, já que se estava diante de um evento climático extremo.

Os riscos climáticos se caracterizam por baixa probabilidade e alto impacto. O mercado financeiro inclusive tem um termo para esses riscos: cisnes negros. Têm natureza complexa e desafiam a lógica do modelo tradicional de gestão de riscos, que tende a ignorá-los ou a subestimá-los.

Diante dessa realidade, uma nova geração de ferramentas orientadas ao futuro — como a análise de cenário e a precificação interna de carbono — começa a se disseminar. Esses instrumentos apoiam estratégias mais resilientes, capazes de dar conta de uma série de futuros possíveis. Análise de cenário e precificação interna de carbono, aliás, são práticas recomendadas pela força-tarefa para divulgação de informações financeiras relacionadas a mudanças climáticas (TCFD, na sigla em inglês). A iniciativa é liderada pelo Financial Stability Board, órgão de estabelece as diretrizes globais para instituições financeiras, consolidando a integração das agendas de finanças e clima. Vale lembrar que os esforços para mitigação de ameaças e adaptação a mudanças climáticas não têm precedentes históricos; além disso, muitos aspectos sobre o momento e a magnitude das alterações do clima em contextos específicos permanecem incertos.

Apesar de a análise de cenários ser bastante conhecida para o planejamento estratégico corporativo, seu uso relacionado às implicações potenciais dos riscos climáticos é relativamente recente. A precificação interna de carbono, por sua vez, é um custo estimado de emissões de carbono desenvolvido internamente e que pode ser usada como uma ferramenta de planejamento. Ela pode ajudar na identificação de riscos e de oportunidades de novas receitas.

As duas abordagens ajudam as organizações a considerar uma gama mais ampla de premissas, incertezas e possíveis estados futuros ao avaliar as implicações financeiras da mudança climática. Isso é importante não só para assegurar sua estabilidade financeira, mas também para garantir a segurança e o bem-estar das pessoas, a partir de soluções que contribuam para reverter a mudança climática e que, ao mesmo tempo, gerem prosperidade. As decisões tomadas hoje em áreas estratégicas como energia, transporte, indústria e uso da terra determinarão se seremos exitosos nessa tarefa. Trata-se de uma decisão coletiva, para acelerar a transição rumo a uma nova economia, com modelo de desenvolvimento que funcione para a atual e para as futuras gerações.


*Lauro Marins (lauro.marins@cdp.net) é diretor-executivo do CDP Latin America


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