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Alta do dólar: muito mais que um risco financeiro

César Lauro (clauro@capitania.net) é sócio-diretor da Capitânia, empresa de gestão de investimentos e assessoria financeira

A flutuação do dólar nos últimos meses disputa as manchetes no noticiário econômico, o que reflete a preocupação de investidores e companhias com o tema. De R$ 2 no final de 2012 a R$ 4 no início de 2016, a moeda americana subiu 100%. As previsões para o futuro das cotações nunca estiveram tão em voga — e vão das mais otimistas (em torno de R$ 3,30) às mais pessimistas, em que não faltam menções a R$ 4,50, R$ 5 ou até a R$ 7.

Nesse contexto, a que investidores e companhias devem estar atentos quando se trata de risco cambial? Listamos cinco pontos importantes.

1. A recente alta do dólar não é um evento isolado, que desaparecerá quando a crise política terminar. A maior parte da apreciação corresponde a uma correção do real supervalorizado que vigorou entre 2005 e 2011 e a um reflexo do avanço do dólar em relação à maioria das moedas do mundo. A preços de hoje, a taxa de câmbio real média dos últimos 45 anos é de cerca de R$ 3,80, o que significa que estamos mais perto do normal agora do que estivemos nos últimos dez anos.

2. Essa mudança da realidade do câmbio alterará o comportamento dos consumidores por um longo período. De 2005 a 2014 os brasileiros estiveram ricos em termos mundiais, e isso favoreceu o crescimento de indústrias de conteúdo importado. Agora, elas deverão equacionar questões como quanto mercado restará, quais substitutos nacionais aparecerão, quais os novos ritmos de crescimento e de investimento de capital. A nova realidade pode durar uma década — logo, tem que ser tratada no âmbito da estratégia do negócio, e não apenas como uma questão de risco financeiro.

3. A ideia de dolarização das empresas é frágil. Empresas que exportam, vendem commodities ou detêm ativos reais na moeda americana consideram que suas receitas e seus estoques valem dólares. Mas a experiência mostra que nada no Brasil é perfeitamente dolarizado: commodities caem, vendas se perdem, custos financeiros explodem e repasses de custos atrasam enquanto o dólar sobe, o que prejudica a eficácia dessa alegada dolarização. Se a premissa de dolarização leva à captação de financiamentos em moeda estrangeira, ela se torna mais perigosa, por contrapor uma geração imperfeita de dólares a um passivo financeiro perfeitamente devedor de dólares.

4. É importante distinguir regime e volatilidade. Não só o dólar migra de um patamar para outro, mas o faz com altas e baixas erráticas e imprevisíveis que têm consequências: elas podem prejudicar o pagamento de uma importação, a quitação de uma dívida cambial, a aquisição de um novo negócio ou o orçamento de um exercício futuro. O mercado de volatilidade considera igualmente prováveis taxas de câmbio de R$ 3,20 ou de R$ 4,70 para daqui a 12 meses — é, portanto, fonte de incerteza grande o bastante para justificar um programa de gestão de risco. Esse programa não evita os efeitos da mudança de regime, mas torna o percurso menos acidentado, com menos surpresas, contingências e reações improvisadas (que podem ser desastrosas).

5. Não se deve confiar demais nas operações de hedge cambial com derivativos. Derivativos são contratos — e contratos podem ser quebrados se o governo for obrigado a decretar medidas de emergência cambial. O melhor é que se esgotem as possibilidades de hedge natural, com o equilíbrio de ativos, passivos e fluxos de caixa em moeda estrangeira, antes do recurso aos derivativos. E, sendo necessário utilizá-los, é salutar empregar algum tipo de contabilidade de hedge, que obriga o uso transparente do instrumento e evita a especulação.

Nunca é tarde para se rever o risco cambial dos negócios. O momento atual é vantajoso por causa do acúmulo de experiências colhidas no intervalo de dois anos. Elas permitem que as respostas ao risco cambial sejam mais claras e robustas daqui para a frente.