Não – No Brasil, o analista precisa garimpar informações adicionais e tecer hipóteses

Antítese / Relações com Investidores / Edição 126 / 1 de fevereiro de 2014
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Informação, do grego antigo, é “dar forma à mente”. No sentido estrito, é uma sequência de símbolos que pode ser interpretada como mensagem. Conceitualmente, portanto, informação é mensagem. Há um ramo da matemática aplicada — e também da engenharia eletrônica e das ciências da computação — que se dá a quantificar informação: a teoria da informação, desenvolvida por Claude Shannon, criptógrafo, matemático, engenheiro, inventor e chefe do Laboratório de Pesquisa Eletrônica do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Uma medida-chave da informação é a entropia, que determina a sua imprevisibilidade. Um cara-ou-coroa tem entropia 2 porque há dois possíveis resultados; um lançamento de dados tem entropia 6, pois há seis possibilidades.

Embora o conceito tenha viajado do grego para a eletrônica e daí para as finanças, é importante recuperar o sentido da palavra. Informação é mensagem e é entropia. Em 2014 completo 20 anos analisando balanços de empresas, e nem uma única vez pude ficar satisfeito com a quantidade de dados divulgados pelas empresas abertas. Os balanços são opacos demais. Impenetráveis.

Obviamente há lixo entre as informações divulgadas. Lixo não é excesso. Você nunca chamaria de lixo a coleção de scotch 18 anos que guarda em casa, ainda que ela possa ser excessiva. Lixo é tudo o que, para o momento, é inútil e deve ser descartado ou, no máximo, reciclado. Quisera eu que as empresas brasileiras nos apresentassem coleções de Blue Label, todas muito elucidativas. Não é assim, contudo. O papel do analista no Brasil é garimpar dados adicionais, ou tecer hipóteses sobre aquilo que não nos é revelado.

Mas no mundo todo é assim, não é? Não. As companhias americanas, por exemplo, são craques em desenvolver perspectivas para as indústrias em que atuam, influenciando o preço das ações mais do que o resultado econômico-financeiro em si. Os analistas internacionais embasam seus modelos nesses relatórios prospectivos. A Intel publica um balanço bom, mas ela própria dá uma previsão de vendas negativa e as ações caem 4% a 5% instantaneamente.

Isso, embora de importância visceral, não há por aqui. O que há é um eterno otimismo e uma vontade de “se vender”.Em terras brasilis, quanto maiores são as despesas administrativas, mais inescrutáveis são os números. Não sei quanto ganham os executivos nem quanto se paga de aluguel por aquela vista para o mar da filial do Rio de Janeiro. As receitas não são abertas de forma adequada. Pouco podemos concluir sobre a estratégia fiscal das companhias; não sabemos se estão sonegando ou se é inerente ao business. Custo de capital? Precisamos correr atrás dos banqueiros da empresa para obter detalhes. Lista dos acionistas no free-float? Só se tiver muitas ações e pedir “pelo amor de deus”. “A Inepar contratou o Morgan Stanley”, por exemplo. Para quê? Por quanto? Por que prazo? Eu não sei nada.

Meu professor de matemática me ensinou sobre o necessário e o suficiente. No mercado, não temos nem o necessário nem o suficiente. E não estou falando do futuro, mas do presente. Quer saber? Tudo bem. Analisar também vem do grego e quer dizer “quebrar”. Eu vivo quebrando a minha cabeça.

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