Não – A liquidez internacional tem sido um analgésico para nossos problemas

Antítese / Edição 130 / 1 de junho de 2014
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O Brasil tem grandes desafios pela frente. Na seara econômica, um dos principais é a deterioração fiscal. Outro é a crise envolvendo a Petrobras. A política de congelamento de preços imposta à companhia é danosa, mas poderia ser resolvida imediatamente com o realinhamento de tarifas. O que não pode ser desfeito são os investimentos bilionários que oneraram de maneira permanente o balanço da estatal. A dívida da Petrobras no exterior é hoje maior que a dívida externa brasileira no início do governo Lula. O “megalulismo” criou uma empresa que não cabe mais no sistema financeiro nacional. Com isso, estimo que a Petrobras precisará passar por uma nova capitalização de, pelo menos, R$ 50 bilhões.

Se olharmos as notas explicativas do Banco do Brasil, vemos que a Petrobras, seu maior cliente, tem empréstimos no valor de 20% do patrimônio líquido do banco, que, por sinal, é o limite regulatório para um único cliente tomar recursos de uma instituição financeira. O mesmo deve estar acontecendo em outros bancos estatais. Nos privados, o limite de crédito deve estar praticamente tomado. Com isso, o que vemos hoje são operações fora do sistema bancário como a única fonte local de financiamento. A alternativa é continuar acessando o mercado externo de títulos, atualmente aberto, mas que não pode ser considerado uma fonte estável de financiamento para projetos de longo prazo.

Num país com carência de poupança, se a Petrobras, empresa que mais aloca capital, faz isso mal, temos, em vez de uma indutora de crescimento, um dreno que suga investimentos e desloca para baixo o retorno potencial da economia como um todo.

O modelo de inclusão de mão de obra, transferência de renda direta do Estado, estímulo ao crédito e incontáveis políticas de incentivo ao consumo foi exaurido. A falta de poupança, aliada ao esgotamento de mão de obra excedente, faz com que todo estímulo adicional sem contrapartida na expansão do PIB se transforme em pressão inflacionária.

Daqui pra frente, o avanço do PIB precisará passar por crescimento de produtividade. Mas produtividade vem depois de investimentos. E investimentos são financiados por poupança. Para poupar mais, a população precisa consumir menos, dado que o
PIB é finito.

Para piorar, o racionamento de energia virou o cenário base. Só um milagre climatológico salva o país de um choque de oferta. Por causa da eleição, as medidas que deveriam ter sido tomadas foram postergadas, e o efeito da crise energética será muito pior. Com isso, teremos mais inflação, menos investimento e PIB mais baixo, pressionando o resultado fiscal.

Soma-se a esse cenário a perspectiva de normalização da taxa de juros americana. Isso ocorrerá, muito provavelmente, no próximo mandato presidencial, dissipando o vento favorável no âmbito internacional.

E os preços dos ativos refletem esses riscos? Na minha opinião, não. Os desafios são reais, mas o mundo está passando por um período atipicamente calmo e excepcionalmente líquido em função das políticas agressivas dos três principais bancos centrais do mundo: o Federal Reserve, o European Central Bank e o Bank of Japan. Essa liquidez tem servido de analgésico para nossos problemas. Infelizmente, nada foi feito para atacar as causas. O próximo governo terá, sim, de conviver com uma “herança maldita”.

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