Ações da SLC sofrem com reveses da companhia

Desempenho da gigante agrícola foi desanimador, mas perspectiva é de recuperação

Alta & Baixa/Companhias abertas / 8 de novembro de 2019
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Ilustração: Rodrigo Auada

Instabilidade é a palavra que mais bem descreve o comportamento recente das ações da SLC Agrícola na bolsa de valores. Desde o início do ano passado, a gigante do agronegócio testemunha uma verdadeira gangorra: de janeiro a setembro de 2018 a alta das ações ordinárias foi de 133%, movimento que se inverteu nos nove primeiros meses deste ano, quando a queda acumulada foi de 38,51%, de acordo com dados da Economatica.

O desempenho da SLC foi desanimador mesmo se comparado ao de outros players do setor, como BrasilAgro e Terra Santa Agro. No entanto, ainda que as ações tenham caído em 2019, os analistas parecem esperançosos de que a companhia irá se recuperar — e alguns chegam a apostar na retomada de alta dos preços dos papéis já em 2020.

A SLC Agrícola foi fundada em 1977 pelo Grupo SLC, holding da família Logemann que fatura 3,7 bilhões de reais anualmente. Além de ser uma das maiores produtoras e exportadoras de grãos e fibras do Brasil, a SLC Agrícola se destaca como proprietária e operadora de terras no País. Hoje, detém cerca de 450 mil hectares de terras agricultáveis distribuídas em 16 fazendas localizadas nos estados de Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Bahia e Piauí. Em 2007, a companhia decidiu buscar financiamento no mercado de capitais, seguindo a forte onda de IPOs: abriu o capital, ofertando 49% de suas ações na bolsa. Entre 2017 e 2018, após um longo período incrementando seu portfólio de terras e investindo nas mais avançadas tecnologias de produção, a empresa começou a colher os frutos de sua estratégia: seus resultados operacionais melhoraram e impulsionaram os preços das ações no mercado.

Mas esses mesmos resultados sofreram um revés no fim de 2018, em decorrência, principalmente, do esgotamento da estratégia de arrendamento e de aquisição e alienação de terras. “Além de não ter vendido mais propriedades no ano, a SLC registrou 99% de plantações em solos maduros, sem potencial de crescimento de produtividade para a próxima safra”, explica o analista Victor Luiz de Figueiredo Martins, da Planner Corretora. Essa situação gerou uma retração significativa do lucro líquido, que caiu do valor recorde de 337,46 milhões de reais no primeiro semestre de 2018 para 69,04 milhões de reais no segundo. No ano de 2018, essa linha do balanço cresceu 10,1% em relação a 2017, mas, ainda assim, acendeu um sinal de alerta — a companhia precisava de uma nova estratégia para gerar valor. A resposta da administração foi arrendar mais terras e ampliar as plantações de algodão.
A decisão, entretanto, comprometeu o capital de giro e aumentou a alavancagem. Como consequência, os resultados operacionais dos meses seguintes pioraram — e o mercado recuou.

Apostas

Para agravar a situação da agroexportadora da família Logemann, seus maiores concorrentes não tiveram uma performance parecida — ao contrário, superaram parte do atraso em termos de valorização das ações negociadas na B3. Entre 30 de setembro de 2018 e igual data de 2019, os papéis de BrasilAgro, Terra Santa e Ouro Fino tiveram altas de 30%, 62% e 76%, respectivamente. Não à toa, analistas e investidores aguardam com expectativa a divulgação dos resultados operacionais do terceiro trimestre deste ano da SLC Agrícola. “Se o cenário atual não tiver grandes alterações, acredito que o preço dos papéis, de pouco mais de 17 reais [no dia 21/10], seja um piso — ou seja, não cairá mais”, afirma Martins, da Planner. Ele adota o preço-alvo de 23 reais por ação, o mesmo estabelecido pelo BTG Pactual, e indica existir a possibilidade de mantê-lo até o segundo semestre do próximo ano. “Ainda que o nosso preço-alvo permaneça inalterado pelos próximos 12 meses, ele aponta para um potencial de valorização de 30%, o que é interessante se as projeções de Selic a 4,5% ao ano estiverem corretas”, justifica. Em outubro, a Planner manteve a recomendação de compra dos papéis da SLC Agrícola e incluiu a empresa em sua carteira mensal de ações.

As analistas Luciana Carvalho e Catherine Kiselar, da BB Investimentos, também acreditam que a SLC Agrícola pode entregar resultados melhores até o fim deste ano. As especialistas observam que uma série de fatores pesa a favor: a estratégia para obtenção de ganhos de eficiência e produtividade, a previsão de condições climáticas favoráveis para as próximas safras, o melhor efeito sazonal no lucro obtido com a safra de algodão e a elevada posição de hedge da agroexportadora para o ano-safra 2019/2020.

Já o BTG Pactual é mais comedido. Os analistas Pedro Soares e Thiago Duarte afirmam que uma de suas principais preocupações em relação à SLC é a sustentabilidade dos altos rendimentos alcançados nos últimos anos, combinados à aposta crescente, por parte da empresa, no plantio de algodão. Na avaliação deles, esse cenário, ao lado da baixa persistente nos preços do algodão, pode significar que não haverá alívio no curto prazo para o valor das ações.

Guerra comercial

O setor de exportação de commodities agrícolas está sujeito a uma série de riscos, mas já se sabe que o maior deles hoje está relacionado à guerra comercial entre Estados Unidos e China. Iniciada em 2018, a querela liderada pelos presidentes Donald Trump e Xi Jinping tem gerado instabilidade internacional, afetando os preços de grãos e fibras. Neste ano, outros dois fatores também impactaram os preços de commodities: os danos sofridos pelas lavouras de soja e milho dos Estados Unidos, castigadas por condições climáticas adversas, e a disseminação da peste suína africana na China, que causou a morte de milhares de porcos e afetou as exportações de soja, principal componente da ração do animal.

No curto prazo, a guerra comercial tem se revelado benéfica para o Brasil — as exportações para o mercado chinês aumentaram 35% no último ano, gerando um saldo comercial positivo de 30 bilhões de dólares. Mas análises do Rabobank sobre o cenário de médio e longo prazos não são nada otimistas.
A perspectiva do banco holandês é de que a guerra comercial entre as duas maiores potências do mundo leve a uma queda no ritmo de expansão da economia global, com retração do comércio internacional. Caso se concretize, os países diminuirão as importações, impactando todas as economias do mundo.

Amplamente dependente do agronegócio, o Brasil observa com cautela os efeitos da crise sobre a economia nacional. Hedge, nesse contexto, é uma estratégia ainda mais indispensável do que em tempos de calmaria. Nesse sentido, a SLC Agrícola está preparada, tendo montado uma robusta estrutura de proteção. Em junho, a companhia tinha cerca de 90% da safra de algodão com preço fixado em cerca de 79,5 centavos de dólar a libra-peso, patamar superior ao do mercado spot internacional no fim de outubro. Em relação à soja, a agroexportadora supera a marca de 90% da produção deste ano vendida a 10,15 dólares por bushel, também acima do preço de mercado. Já o milho está 80% vendido, com preço médio de 23,40 reais a saca, superior ao preço de venda de 2018.

Os números são positivos e, dependendo do resultado do balanço do terceiro trimestre de 2019, a ser publicado no dia 13 de novembro, a SLC Agrícola pode ter uma nova chance de retornar firme para as recomendações de carteira e provar o seu valor aos acionistas.


*A escolha da companhia para esta seção é feita a partir de um levantamento da Economatica com a oscilação e o volume negociado mensalmente por ações que possuem giro mínimo de 1 milhão de reais por dia. A partir daí, é escolhida uma ação que se destaca pela variação positiva ou negativa nos 12 meses anteriores.


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