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Sem alívio do Fed, só fiscal no Brasil pode conter o dólar 
Embora fatores como fluxo comercial devam ajudar a conter a desvalorização do real ou provocar um fortalecimento da moeda, uma medida do governo para diminuir a percepção de riscos fiscais seria determinante
Evandro Buccini, sócio e diretor de crédito e multimercados da Rio Bravo Investimentos
Evandro Buccini, sócio e diretor de crédito e multimercados da Rio Bravo Investimentos

O dólar, moeda forte e procurada em períodos de incertezas, vem acumulando uma alta considerável frente a diversas outras, principalmente em relação ao real. A tendência é de que este cenário permaneça ao longo do segundo semestre. Segundo especialistas, sem uma mudança de cenário nos Estados Unidos, uma vez que a maior influência no câmbio é de eventos externos, apenas um endereçamento das questões fiscais no Brasil poderia fornecer um alívio à moeda brasileira com a volta da confiança do investidor estrangeiro.

O real é a segunda moeda que mais perdeu valor diante do dólar. De acordo com levantamento da Elos Ayta Consultoria, até 21 de junho a moeda estrangeira acumula valorização de 12,40% em relação à brasileira. 

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Entre os fatores-chave que explicam o movimento estão a persistência da inflação nas economias centrais, o que mantém os juros globais altos; o desempenho abaixo do esperado da economia chinesa, o que afeta a pauta de exportações do Brasil, gerando menores divisas em dólar, e as incertezas com relação à condução da política fiscal no Brasil, segundo Vitor França, especialista em câmbio e sócio da Matriz Capital. “A alteração da meta fiscal de 2025, de superávit para déficit zero é um exemplo disso”, comenta.

Com a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na última semana, mantendo os juros no patamar de 10,50%, a expectativa era de um pequeno ajuste na moeda. O normal é que quanto mais altos os juros, mais pressão para a valorização do câmbio, mas não é tão simples. “O que importa é o diferencial de juros entre EUA e Brasil, no caso de câmbio real dos EUA, e nesse caso não está tão bom quanto parece, porque os juros nos Estados Unidos estão altos. Se a gente pega um gráfico um pouco mais longo, o juro brasileiro não está tão alto assim em relação ao juro americano, e isso está fazendo uma certa pressão no câmbio”, comenta Evandro Buccini, sócio e diretor de Crédito e Multimercados da Rio Bravo Investimentos.

Mas o real não é o único a sofrer. O ano de 2024, em geral, tem apresentado uma força global do dólar, à medida que os agentes começaram a perceber que a estabilização de preços nos EUA estava acontecendo de maneira mais lenta do que o esperado e que o Federal Reserve (Fed) demoraria para começar a cortar juros, portanto, ficariam em um patamar mais alto por mais tempo. 

“Temos que lembrar que é a principal moeda para transações econômicas globais, e o dólar está oferecendo essa rentabilidade que é a maior dos últimos 40 anos. Com isso, muitos investidores aumentam a demanda por títulos em dólar, por isso a tendência global é de a moeda forte contra o enfraquecimento das outras moedas”, comenta Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da Stonex. 


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Embora cerca de 70% do que acontece no câmbio seja influência desses fatores externos, em um momento em que não há perspectivas de melhora no cenário dos EUA, o foco tende a se voltar para o interno, no caso, o fiscal. “Neste 30% local, as últimas semanas têm sido bem complicadas para o real, porque tivemos algumas desancoragens. Havia uma expectativa de que teríamos um fiscal um pouco melhor do que temos agora, expectativas de que o governo talvez perseguisse mais a questão do corte de gastos e não o aumento de impostos para poder fazer frente às despesas da União. E isso acabou ajudando a deixar o mercado um pouco descontente com essas medidas”, aponta Alexandre Viotto, head de banking e câmbio da EQI Investimentos.

Com o envio da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o Congresso, sugerindo a modificação das metas orçamentárias entre 2025 e 2027, com valores mais baixos, a percepção de riscos fiscais pelos agentes começou a se revelar. Neste sentido, algumas falas das autoridades durante esses meses acabaram mantendo a percepção de que a revisão de gastos pelo governo seria muito tímida e que havia riscos dos gastos se elevarem e, com a previsão de gastos mais altos, elevaram-se as expectativas inflacionárias mais para frente, tanto para 2024 como 2025 e 2026.

As críticas do presidente Lula ao Copom se somaram aos demais fatores de pressão, segundo o head da EQI. Externamente, declarações de membros do Fed indicando que não existe previsão para a redução dos juros também desanimam. “Por mais que o nosso Copom tenha mantido a Selic em 10,5% e com perspectiva de não mexer tão cedo, havia uma perspectiva de que os juros dos EUA começariam a cair. Esse diferencial de juros ia aumentar e deixar a nossa moeda mais atrativa para o investidor estrangeiro”, comenta Viotto.

Como o Brasil vai manter a taxa de juros e o juro americano tende a ficar igual, ou até mesmo subir, o diferencial diminui e deixa a moeda brasileira menos atrativa. “Isso, misturado com a questão fiscal, não tem o que acontecer, o dólar vai acabar subindo mesmo”, aponta o executivo da EQI.

Capital estrangeiro

Com a pouca atratividade do mercado brasileiro em relação ao norte-americano, houve uma fuga de capital estrangeiro nos primeiros meses do ano, no entanto, na última semana, marcada pela decisão do Copom, houve o ingresso de R$ 1,97 bilhões, com quatro dias de compras, contra apenas um de retiradas, segundo dados da B3.

Embora o movimento seja positivo e demonstre uma pequena melhora na confiança, segundo especialistas o movimento é marginal e o capital provavelmente veio para renda fixa, porque havia uma dúvida a respeito de uma possível queda de 0,25 ponto percentual. Como a Selic se manteve em 10,5%, provavelmente alguns fundos estrangeiros acabaram achando interessante trazer o recurso para o Brasil.

“A volta do capital estrangeiro na B3 pode ter um pouco de efeito da política monetária, afinal, a decisão do Banco Central foi a melhor possível, unânime e de manutenção. Pode ter alguma relação com o câmbio, mas precisamos ver nas próximas semanas se isso se mantém”, comenta Buccini, da Rio Bravo.

O último boletim de fluxo cambial do Banco Central reforça a intensa saída de recursos via mercado financeiro, embora o saldo no acumulado do ano até 14 de junho seja positivo em US$ 12,27 bilhões. Enquanto o saldo comercial – exportações menos importações – tenha trazido para o país US$ 37,9 bilhões, na conta financeira deixaram o país US$ 25,9 bilhões.

Para Mattos, da StoneX, entre os fatores que podem motivar uma queda da taxa de câmbio, está o fluxo comercial. As estimativas, hoje para o saldo da balança comercial estão na casa dos US$ 70 bilhões. “Digamos que esse número se confirme, é um valor bastante expressivo e deve ajudar a conter a desvalorização do real ou provocar um fortalecimento do real. O outro ponto é o fluxo financeiro. Serviços, movimento de rendas, lucros e juros, a gente é tradicionalmente deficitário. Mas a questão está no movimento da conta capital e financeira.” 

Na questão dos investimentos em carteira, tudo depende de como vai ser a evolução da confiança do investidor externo para ajudar a trazer mais dólares. “Nesse sentido, acho que o evento com maior probabilidade que pudesse derrubar a taxa de câmbio seria realmente alguma medida mais concreta, significativa por parte do governo federal nesse momento para diminuir a percepção de riscos fiscais”, aponta Mattos.

Para Marcos Weigt, head de tesouraria do Travelex Bank, olhando a perspectiva do dólar, a resposta também está na capacidade do governo de cortar gastos e desindexar o orçamento. “Se eles fizerem isso, tem bastante espaço para o real voltar”, comenta. “Acredito que nos próximos meses eles façam alguma coisa de corte, dar uma ajustada no orçamento, mas essa é a minha expectativa. E se eles fizerem isso, tem perspectiva de o real valorizar aqui.”

Futuro e perspectivas

Em relação ao dólar futuro para a virada do ano, as perspectivas são pessimistas. No segundo semestre, além do “barulho político”, há a troca de comando no BC e a eleição nos EUA, eventos que devem contribuir para a alta do dólar.

“Venho batendo na tecla de que o dólar tende a bater R$ 5,50 e deve seguir pressionado até segunda ordem. Eu não vejo o dólar cedendo. Não tem motivo para isso agora”, opina Viotto, da EQI.

Para Buccini, da Rio Bravo, são precisos gatilhos internos e externos para o dólar melhorar. “Se os Estados Unidos ficarem mais benignos para a gente, ou seja, os juros caírem, é muito provável que o real valorize. Mesma coisa, se a política econômica aqui no Brasil ganha credibilidade.”

Segundo Mattos, da StoneX, quem mais aposta na alta da taxa de câmbio real são os estrangeiros e os investidores não residentes, que têm assumido uma posição cambial total bastante altista, seguido das pessoas jurídicas financeiras e das entidades financeiras. Já os investidores institucionais estão levemente baixistas. “De toda forma, o que a gente tem observado é que, com a elevação da taxa de câmbio à vista, spot, também uma alta das apostas para os valores da taxa de câmbio mais à frente.”


Para ele, com o questionamento das políticas brasileiras, a taxa de câmbio do real contra o dólar deve ficar oscilando em patamares mais elevados. Ao contrário dos R$ 4,90, R$ 5,00 do começo do ano, a StoneX acredita que o real fique em torno dos R$ 5,10, a R$ 5,25, R$ 5,30. “Parece que a gente vai operar mais alto. Porém, o mercado futuro hoje está indicando valores mais elevados para a taxa de câmbio, acompanhando o spot, que está lá nos R$ 5,40, e eles jogam mais alguns centavos dependendo do prazo do contrato.”


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